quarta-feira, 21 de março de 2012

Pós Guerra

Na manhã pós TPM, o cenário é de entristecer.  
Você levanta farejando pra entender direito o que, onde e como aconteceu e principalmente, onde você estava enquanto isso.
Sua cara no espelho é o retrato do pós guerra. Os cabelos, quanta diferença.
Na gaveta de baixo o último chocolatinho. Aquele separado pra hora da última esperança.
Você estende a mão na direção dele - não, ainda não é hora - e fecha a gaveta.
TPM foi embora, agora é hora de juntar todos os baldes que você chutou durante esses dias.
Tirar o pé da jaca. Botar o banho na lista de prioridades.
O eterno recomeço dessa vida. Eis o verdadeiro significado.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Carta pra você (Batista e seus novos óculos)

Minha querida irmã,
Provavelmente esta carta vem te trazer algum transtorno. Sei que discutimos incansavelmente sobre esse assunto, e também sei que não colaborei em nada quando você precisou da minha companhia para fazer os exames. 
Eu vim pra reconhecer meu erro. Me perdoe irmã, eu estava errado. 
Se eu acabei falando o que eu falei, foi porque eu não via a verdade que estava a um metro da minha cara.
Mas outro dia, no churrasco na casa do padrinho, eu me dei conta do que você estava tentando me dizer há tanto tempo. Você precisa de mim, maninha. Por favor, faça o que for possível para remarcar sua cirurgia que eu farei o que for preciso para te ajudar a se livrar dessas pelancas. Me perdoe por te encher de falsas esperanças, mas isto está tão ruim quanto parece. Mas resolver isso agora é a minha prioridade. E que Deus nos ajude e que Nossa Senhora Santíssima olhe por nós.
Do seu irmão, 
Batista

quarta-feira, 14 de março de 2012

Muito amor

A amiga desembesta a cantarolar.
- Que isso amiga, tá feliz?
- Ai, Milionário e José Rico, sou apaixonada.
- Juro que se no caso de eu vir a casar com alguém que goste de Milionário e José Rico, Teodoro e Sampaio ou Roberto Carlos, eu peço divórcio na hora.
- Dai você manda ele direto lá pra casa que eu cuido direitinho do sujeito! Milionário e José Rico, sou apaixonada. Teodoro e Sampaio, sou apaixonada. Amado Batista, sou apaixonada! Ivete Sangalo, sou apaixonada. José Mayer também, sou apaixonada.
- Ué, o José Mayer é cantor agora?
- Não né, se ele cantasse daí que não teria sossego. Jura que você não gosta de Roberto Carlos? Sou apaixonada!

terça-feira, 13 de março de 2012

Carta pra você

Devia fazer bem uns vinte anos que não sabia de você, até que te vi outro dia na rua. 
Eu até achei bem estranho ver você caminhando. Você que mal sabia como se mexer depois de descer do carro. 
Eu lembro daquele carrão que você comprou e a babação toda que veio junto. 
Conta aí qual foi, você ficou pobre ou ficou gordo?
Aqui entre nós, eu dei uma boa engordada neste tempo, mas você tá bonito cara. Eu só tô achando estranho. Você não pode ter esse corpitho e aquele carrão. Com a nossa idade ou você tem um carrão e a barriga adequada pra que ele carregue, ou o corpão. Corpão anda de bicicleta, ergométrica pode ser, mas carrão não, nem vem.
E a filharada, posso apostar que você já tem até neto. Eu teria, se não tivesse castrado meu cachorro. O outro cachorro. O Roleta morreu de velho antes mesmo de eu terminar de ficar adulto.
Agora até já deu tempo de você se formar né, aliás, já deu tempo de virar doutor, desistir, chorar e começar tudo de novo. 
Não ficaria surpreso se você tivesse largado no meio aquele curso mais-do-que-chato que você fazia e trocasse por, sei lá, aquele curso na Itália que ensina a fazer sorvete. Eu com certeza largaria, ou provavelmente nem teria coragem nem de começar. E sabe que não é nada mau um tempinho na Itália, comendo um sorvetinho, um macarrãozinho a bolognesa. Minhas bichas até ficam animadas. Ai, ai, você sempre me dando idéias, Borges. Quem sabe não abro meu boteco e dai coloco seu nome nele pra fazer homenagem.
Não sei se você ainda mora no mesmo lugar, mas de onde era, minha casa é meio longe da sua pra ir andando. Mas se você resolver dar uma chance pro seu carro, passa aqui me visitar, ou também se você quiser, que fique pra quando for que tiver que ser, não é?
Mas seria legal, eu tenho treinado, e quero saber se ainda sou capaz de te vencer na figurinha. 
Então até mais meu caro,

Joaquim B.

terça-feira, 6 de março de 2012

Plim!

E quando menos você espera, a ficha caiu.
Você está sentado com seu livro dentro do ônibus a caminho de qualquer lugar, quando a ficha redondinha do seu entendimento se atira no chão. Dois segundos muito compridos pra explicar.
Talvez dê pra ouvir o barulho surdo que faz o estômago, se contraindo, e o canto da boca que se movimenta, dependendo, para cima ou para baixo. A ruga que aparece na testa pra confirmar tudo. Os segundos de puro silêncio como em respeito ao que acabou de ser dito.
Então os diálogos mentais que se seguem pra tentar des-saber, voltar atrás, recuperar o rebolado e fazer de conta que não aconteceu nada. Pra ver se cola o tal já tava assim quando eu cheguei.
A ficha ainda rolando no chão e o tremendo elefante cor de rosa na boca do estômago. E nada mais do jeito que era antes.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Coragem


CORAGEM é quando você pega seu monstro no pulo, escapulindo pela porta do armário e tranca a porta rapidinho, dá dez voltas de corrente, fecha com um cadeadão de respeito e ainda põe uma cadeira na frente pra garantir. E aí você esfrega as mãozinhas e comemora.
COVARDIA é quando você faz exatamente a mesma coisa, mas dá no pé e deixa pra comemorar a uns quarteirões dali.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Na cartomante - 4


- Eu vejo você lembrando seu amor de juventude, o grande amor da sua vida. Aquele amor pelo que você lutou, gritou e amaldiçoou tanto. Quem você quase perdeu por causa da vida e depois também por causa da morte.
Eu vejo você com seu grande sonho realizado, naquele vestido que deixa magrinha e as flores que deixaram realmente tudo perfeito. 
A tão esperada família sentada à mesa esperando você terminar de trazer o jantar. 
Mas eu também vejo o que ele nunca vai ter coragem de te contar.
- Como assim, ele vai ter outra? 
- Outra sim, perspectiva. Mas não se preocupe, você vai ter tudo o que sempre quis, só vai te faltar mesmo a certeza.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bolsa de valores


Neguinho parece gerente de banco olhando nossa prateleira de saldos.
Se eu fosse você, investiria mais nisso.
Se eu tivesse no seu lugar, daria mais valor praquilo lá.
Ah se fosse comigo...
O que branquinho nunca viu é a gaveta dos negativos. A pasta grossa dos bocados que vem inclusos.
Se num levante de faxina, jogasse tudo quanto é gaveta pela janela lá pra rua, aí sim. 
Aí qualquer um podia fazer melhor do nosso bocado mesmo. Até a gente.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Cherôôso!


Eu estava segurando um pacote de sfihas quentinhas no ponto de ônibus, que cheiravam bem à pressa de chegar logo em casa.
Enquanto eu esperava, uma mulher virou pra mim com uma cafungada meio invejosa. Ofereci a ela o meu mais simpático "é né?" e dei por encerrado.
Então numa piscada longa ou alguma falha na linha do tempo, eu estava totalmente integrada aos detalhes mais sórdidos da vida daquela mulher. E eu podia jurar que só tinha passado um momentinho.
Nos trinta minutos que se seguiram, eu me tornei alguém de opinião fundamental na vida dela.
Eu, que só dei uma risadinha porque ela achou minha sfiha cheirosa, já tinha até companhia pra voltar pra casa.
Hoje em dia você corre o risco de pagar o jantar inteiro, só porque achou que devia ser mais simpática.
É, não tá fácil pra ninguém...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Milagre do tamanho M

No ônibus a moça estava toda faceira de roupa nova.
Autoestima costurada em malha preta e gola canoa.
Enquanto o ônibus balançava, ela alisava o cabelo com a mão e colocava (e colocava) atrás da orelha. Mesmo de costas dava pra ver que ela estava toda sorrindente. 
O caminho da autoconfiança pagando apenas uma passsagem.
E o cabelo que levava uma etiqueta M grudada então, só deixava tudo mais esnobe.

(Ai que nojo)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Morrer bonito


Não, ela não ia se matar assim.
Escarafunchar as gavetas em busca da maior faca da cozinha e depois esfregar elas nos braços. Não, definitivamente não é este o estilo dela.
Ela não é do tipo que se mata sem antes depilar as pernas.
E duvido muito que ela se deixasse morrer com uma calcinha qualquer. Ela não correria o risco de morrer com uma calcinha meio sambada.
E antes do grand finale ela deixaria tudo em ordem, porque ela sempre diz que até pra morrer tem que ter classe.
Ela também jamais pularia de um prédio só pelo risco de chegar no chão em uma posição desprivilegiada. E descabelada, que horror.
Não, ela faria as unhas (todas as vinte), escolheria um perfume com fixador preparado pra eternidade, afinal ninguém simpatiza com defunto fedido (e Deus me livre de um nariz torcido).
Ela já deixaria encomendadas as flores na cor certa combinando com a roupa, esmalte e o corte do cabelo. Ela pensaria bem no corte de cabelo.
E quando ela enfim se decidisse, junto ao corpo ela deixaria mais instruções, telefones, possíveis roupas, sapatos e também os cílios postiços (que dão assim um tchan nos olhos fechados).
Duvido que ela aceitaria menos que isso.
Ela ia morrer do jeito bonito, ah ia sim.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Puca puca puca

INSEGURANÇA é quando você precisa falar muito muito muito sobre um assunto pra não esquecer se é de verdade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre a quietude das coisas


Você vem e me pergunta, e ai tá tudo bem? Tá tudo bem, eu vou dizer, porque outra resposta seria mesmo mentira. 
Mas também não é como se a vida estivesse assim animada, pertubadora, daquelas que chega abrindo a porta num frege e fazendo a ordem voar pela janela. 
Estou naquela vida que não te traz escolha a não ser ir pra frente. E que bom, vai tudo muito bem, muito obrigada. 
Mas entre os turnos alternados de comer, dormir e trabalhar, eu sinto falta. 
Sinto a falta que faz uma boa caraminhola na cabeça. 
A tal da pulga criada atrás da orelha. 
Enquanto meu pulso pulsa paciente, eu não tenho a menor intenção de esperar. 
Eu quero é ver o circo pegar fogo, chutar o pau da barraca, o balde e a calmaria toda. 
E ai sim meu amigo, quando você vier me perguntar, se abanque, que vou ter muita coisa pra contar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Não expulse seu sofá de casa


Não expulse seu sofá de casa.
Pelas ruas são muitos os casos.
Um porque ficou duro, outro porque ficou molenga. 
Porque ficou velho e porque (meu deus) não fica velho nunca. 
Porque ela sonha com o sofá de pelúcia cor de rosa bem no meio da sala.
Eis como me encontro: sem braço, meio furado e sem espuma. Sem nem um cachorro pra arrancar o que ainda me resta.
Abandonado na porta de casa, onde eles entram e saem toda hora e me olham constrangidos sem nunca reconsiderar e me botar pra dentro de novo.
Sem me dar um fim mais digno do que mereceria uma poltrona que se escapole pra trás toda vez que alguém vai se sentar.
Eu que trabalhei sem descanso por vinte anos e três famílias, vinte anos e três famílias e suas bundas e também as bundas dos seus queridos parentes. 
Era eu que estava lá em todos os Natais, em todos os aniversários, em todas as brigas, eu que fiz o cachorro dormir todas as noites, e se não fosse por mim, o bonito lá ja-mais teria conseguido aqueles beijos com a Laurinha.
E no entanto sou eu que estou aqui, na sarjeta da vida. Expulso de casa como um meliante. 
Agora só me resta apodrecer de tanto desgosto. 
(adeus, mundo cruel)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Shhhh


A hora do almoço é a hora da caça. 
Dos olhos atentos, dos movimentos precisos, da determinação implacável com água na boca.
Minha planta carnívora está faminta. Meu bebê está faminto.
De régua em punho, eu aguardo. Estou esperando aquela mosca e seus cinco minutos de bobeira em cima do meu balcão.
(Vem mosquinha vem, virar almoço de plantinha)
Então eu ataco.
Talvez meus instintos predadores sanguinolentos estejam um pouco atrofiados pelos milhares e milhares anos de evolução, mas eu gosto de uma boa briga. 
Mesmo que eu tenha que brigar com uma mosca. 
Uma mosquinha só não faz verão. A família toda veio pra cá passar as férias. Um pleft bem dado e a planta agradece o bocado.
Agora shhh, que ela ta vindo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Segredinho


Eu fiz um perfume pra ele e ele ainda usa quando vem me visitar.
Mesmo que seja só uma imitação daqueles que arrancam os olhos da sua cara antes que você possa sair da loja.
Quando chega, eu sei que é ele só pelo perfume, não preciso de mais nada pra ter certeza. Ele sabe disso também, é o nosso segredinho.
O vidrinho fica sempre guardado em um lugar estratégico dentro do carro. 
Só que agora não existe mais o carro, nem o vidrinho e nem ele.
Só o perfume quando ele vem me visitar.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Anti contagioso


Estava escancarada e torta, a boca.
Mesmo com a boca aberta dava pra ver o rastro do batom torto de quem saiu de casa com pressa.
E não dava pra ver os dentes. Um ou outro que saltava, até que sim. Mas talvez os outros dentes só tivessem saído de férias.
Era a visão do inferno em forma de bocejo. Pelo menos era isso que eu estava pensando antes dela terminar o movimento com um rugido.
Depois eu só pensava em virar a cabeça pro lado, porque alguém tinha me dito que bocejo é contagioso. 
E aí deusmelivre, longe de mim acabar pegando um bocejo feio desses.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Pisca piscas e Coca Cola


No meu país, faz sempre o maior calor no Natal. Exceto claro na minha cidade, que todo ano surpreende. Aquele vestido que você comprou especialmente pra ceia? É, não vai dar, começou a chover. 
O pinheirinho da maioria das casas que conheço não se parecem com pinheiros de verdade e se não me engano, também são de plástico.
Papai Noel não suportaria um dia no Brasil com aquela rouparada toda, nem mesmo aqui (continua chovendo)
Os únicos bonecos de gengibre que vi na vida ou são amigos do Shrek, ou são de pelúcia. 
Minha casa não tem chaminé. Isso faz com que eu também não tenha uma lareira onde pendurar minhas meias pra que Papai Noel as encha com presentes.
E sinceramente, eu gostaria de que meus presentes não coubessem todos dentro de uma meia.
Ao que parece, cantar "bate o sino" dentro das casas foi proibido pelo governo um pouco depois de eu ter nascido. Porque além de nunca ter cantado esta, acabei aprendendo uma outra, aquela versão sobre papel, jornal e outras coisas. Protesto típico.
Isso tudo sem falar no tal do Chester, que ninguém nunca viu andando pelo zoo.
Pelo menos os pisca-piscas e as propagandas da Coca Cola são reais.
Eu acredito num mundo onde os ursos polares tomam refrigerante. Onde o Papai Noel passa impertubável pelo nosso calor com aquelas roupas peludinhas, pilotando seu trenó cheio de significados. Acredito num mundo com chaminés para presentes. Em presentes maiores que as meias.
Acredito na magia que faz a gente esquecer por um momento que amanhã tudo vai voltar ao que era antes, e não tenho dúvida que vai ser mesmo tudo igual, só que mais bonito.
E ano que vem, quando a gente estiver quase por desistir de novo, oba, é Natal outra vez. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pernocas

Atenção, se você tiver pernas, por favor não mostre pra ninguém.
(pernas pra que te quero)
E mais importante, nunca saia na rua exibindo seus gambitos.
Buzinada, freiada, cabeça pra fora do carro, beijinho assoprado, assobio, beijo pra sogra, ô lá em casa, delícia assim você me mata. As pessoas se assustam e fazem isso, só porque te pegaram de calças curtas. Provavelmente porque não sabem ou não se lembram que elas também tem duas logo abaixo ou ignoram porque, né, melhor não saber.
Se a perna é bonita o alvoroço é porque ela é bonita. Se é branquela, bronzeada ou perna torneada de mulata, é por isso, isso e aquilo. E se é daquelas com ralado, roxo, arranhão do gato, varize, estria roxa no joelho ou uns furinhos ornamentais da celulite, causam reboliço do mesmo jeito.
Então até que se descubra o motivo de tanto furdunço, melhor conservá-las em recipiente fechado e protegidas da umidade e do calor. Fora do alcance das crianças.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Coçadinha


No dia bonito, ele brincava. 
Deitado na grama, oferecia sua barriga lameada pra cada um que passava por ali. Ele era imenso, peludo e caramelo, e ninguém parecia querer coçar aquela barrigona oferecida.
Então ele rolava de novo e saía pelo bairro, sem rumo, procurando uma graminha estratégica pra comover algum coçador de plantão.
Do universo paralelo de dentro de casa, eu gastava tudo o que tinha aprendido sobre educação e temperamento canino diante do berreiro. Mas a bichinha continuava gritando enlouquecida na janela. Então ela vinha, resmungava e voltava pra latir mais um pouco. Levantei pra ver e entendi tudo.
O parquinho de um mundo inteiro. Todas as coçadas que você conseguir ter. Todas as coisas do mundo a disposição do seu focinho, esperando que você cheire cheire cheire cheire. 
O peludo caramelo estava no meu portão esfregando todas essas possibilidades na cara da minha cadela. Ele corria pela rua como se nada na vida pudesse ser melhor que isso. 
É, adestramento nenhum ia ganhar essa. Nem ossinho e almofada. Deixa isso pro gato.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Primeiro dia do resto da sua vida

Imagine que você está sentado e velho na sua cadeira favorita. Aquela cadeira que é toda sua e só sua porque você nunca deixou ninguém sentar nela, e porque só ela acomoda perfeitamente suas costas doloridas. E na sala vazia da casa também vazia, você está sentado só esperando a sua hora chegar e levar embora sua idade e sua dor nas costas. E dai o vento abre a janela, você olha e a morte está na sua frente, dando aquela risadinha horrorosa a três centímetros da sua cara. E só quando ela vai embora você entende porque  diabos ela estava rindo. A dor nas costas continuava ali. 
Ou, espere. Não está mais. Mas você começa a se sentir muito triste porque acabou de voltar do velório do seu filho mais novo (que já tava velho, é verdade), mas de alguma forma sabe que ele vai estar amanhã no hospital e piorar um pouco, mas daqui uma semana nada disso vai ter existido, porque o acidente vai ser daqui a três dias e depois ele vai estar de volta na cidade onde ele mora, e por 16 anos não vai nem pensar em vir te visitar por causa de uma briga que vocês vão ter por causa de uma bobagem que eu não tenho permissão de contar aqui.
E nesse tempo, o enterro da sua mulher, a doença ordinária que foi melhorando rápido, a convivência meio distante e a intimidade, o casamento, a escola (e principalmente as tardes depois da escola), muito tempo que passa até que vocês nem se conheçam mais. 
No pátio da casa seu pai varre as folhas, sua mãe chega apressada do mercado com seu irmão mais velho. Sua comida favorita cheira e acorda seu estômago.
Aquela bola que antigamente era velha e toda estourada e que você acabou jogando fora, agora num pacote estampado esperando embaixo da árvore o dia chegar, exatamente como você lembrava. Então você fecha os olhos pra curtir este momento e tudo fica escuro. 
E então nem você existe mais. 
E aí a história acaba, mas só a sua.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Valentine



Eu não sei o que tem de errado com ela. Quando acordo para sair pro trabalho, ela não quer sair da cama. Não vem falar comigo, não quer saber se dormi bem ou se gostaria de companhia pro café da manhã. Tudo o que ela faz é continuar coberta até as orelhas, até que eu me canse e peça pra que ela saia antes de arrumar a cama. 
Eu nunca ganho beijo de despedida. Nem tampouco de boas vindas, apesar de ela aparecer na porta toda histérica quando eu chego em casa. Acho que eu devia ficar contente só com isso. Ela também acha porque quando eu comento sobre os beijos, ela dissimula, vira pro lado e começa a roer as unhas. 
Eu odeio que ela roa as unhas. É um hábito muito deselegante. 
De vez em quando ela vem sentar ao meu lado, mas eu ainda não entendo porque ela resmunga tanto. Ela gosta de dançar na cozinha. Ela sempre me chama pra dançar enquanto estou inventando moda nas panelas. Mas se eu a chamo pra dançar na sala, ela resmunga de novo. 
A verdade é que ela resmunga bastante. Resmunga pra porta quando ela está fechada e ela quer fazer xixi (ou outra coisa). Resmunga quando ela fica com frio a noite (ou de tarde quando vem o sono da beleza) e eu estou deitada em cima das (minhas) cobertas. Ela resmunga também quando a comida não tem a cremosidade esperada.
E sobre vestidos. Ela fala muito sobre vestidos. Ela me pede vestidos a toda hora. Além de morrer de ciúmes deles. Vestidos de verão ou vestidos chiques de inverno. Ela gosta muito de ser chique, por isso mesmo que ela não deveria roer as unhas.
Se bem que quando vamos passear ela esquece completamente isso sobre vestidos e unhas. Passeio é uma coisa importante e quase sagrada, pelo jeito dela. Ela fica mais feliz quando passeia do que quando compro um vestido novo. De certo porque não tem sentido um armário lotado de vestidos, se você só vai usá-los dentro de casa. É necessário expor a beleza. Ela gosta disso. Ela sabe que é chique e bonita e quando alguém fala isso pra ela, ela dá uma voltinha pra que você olhe melhor. Depois corre pro seu colo pra que você a agrade só por ela ser tão linda.
Eu sempre digo, é uma cadela essa cadela.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Assine aqui

E se a gente soubesse o que vem depois da linha pontilhada?
O sim que vem com a assinatura
Aquela coisa em 15 vezes ou até que a morte nos separe
(Até acabar o estoque)
Se a gente pudesse saber do desenho antes de ligar os pontos
Um ponto por dia, um dia de cada vez
E se a gente pudesse ouvir uma palhinha? 
Quem sabe pedir a nossa música num guardanapo e entregar pro garçom, será que ele entregaria?
E se eu tentar uma espiadinha só no titulo da próxima página... e se tiver em branco, é porque acabou?
E se a gente soubesse onde ia dar o fim da linha, será que ainda assim a gente iria?

Será que eu fui ou foi você que voltou?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Laços de família

Então ficamos assim, da metade pra cá você chama de primo, e a metade de lá de tio, estamos entendidas?
- Como assim, não dá pra ir ajuntando família assim, como quem cata moeda caída na calçada não, mãe.
Ara, não dá pra deixar gente sem família desse jeito. E essa montoeira de nomes aí só confunde a cabeça da gente. A verdade é que tio e prima resolve bem essa questão.
- Se você diz. Então como é que era?
Assim: da metade pra cá é tudo primo, e daí daqui-pra-lá é tudo tio, entendeu?
- Entendeu.
<------cá - sua idade - lá ------->

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fluxograma

Eu não lembro qual foi a última vez que te vi. Quer dizer, ouvi algumas coisas a seu respeito, mas eu sei que isso não é suficiente pra saber bem certinho como está você hoje em dia.
Pois veja, como vou saber o que é verdade, se não é só picuinha a outra ter vindo me contar como você engordou. E me disseram outro dia ter visto você entrar no prédio do curso de Culinária Especial, justo você (quem diria). E também sobre seu cabelo, quer dizer, é verdade que agora você prefere usar ele todo descolorido? Eu podia jurar que tinha ouvido você dizer eu loira, jamais, tá maluca, será que estou? Agora só falta alguém vir me dizer que você também está fazendo dieta e caminhada, aí vai ser oficial, não te conheço.
Mas bem, eu anotei os pontos principais em um fluxograma, coloquei uma porcentagem de variação de verdades, e acho que consegui chegar num resultado apropriado. Não sei o que levou mais tempo, checar as verdades ou as mentiras, mas foi fácil identificar porque as mentiras eram mais detalhadas e emocionantes. Até aproveitei pra desenhar um esquema com a sua vida de mentira, só pra você se distrair depois quando tiver tempo.
O desenho ficou bem aproximado, você vai gostar do resultado, e eu também fiquei bem satisfeita com o trabalho. A verdade é que a nossa vida fica sempre mais interessante pela boca dos outros. Não é uma maravilha? E você aí achando que tava pra morrer de tédio...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Procedimentos

Antes de começar a ler um novo livro:
- Leia com cuidado tudo o que estiver escrito por fora, especialmente as letras miúdas, por precaução;
- Abra a capa, dê uma boa cafungada na folha de rosto (e fique sempre atento as letras miúdas);
- Com cuidado, alise a primeira folha com a mão (com uma cafungada respeitosa agora) para estabelecer uma comunicação com o povoado contido ali dentro do livro (para melhores resultados, feche os olhos);
- Abaixe um pouco a cabeça pra prestar bem atenção e não perder nenhum detalhe do que eles vão falar (eles podem ser um tanto teimosos com os detalhes);
- Depois faça o Juramento Solene dos Nobres Leitores, pedindo permissão ao Povo de Dentro do Livro para entrar no mundo deles sem maiores problemas. 
- Só então caminhe para o primeiro capítulo. Lentamente porque, vai que o povoado lembre de mais alguma questão antes que você termine de abrir a porta...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Isso aí

Sacudia com cuidado a cabeça, apertava e abria exageradamente os olhos, inspirava e soltava o ar com toda força - é, não vai adiantar - tava tudo igual.
Passou a mão por trás da cabeça, arreganhou os cabelos, fez menção de arrancar tudo num puxão (não puxou), contraiu toda a cara, sobrancelhas, bochechas e pelo que sentia podia dizer que tava contraindo também as coisas lá por dentro da cabeça.
Claro que ainda não tinha pensado em levantar, quem sabe até ajudasse pegar o celular de cima da mesinha e ver que dia era e que horas, apesar de achar que isso não faria nenhuma diferença no momento. E também, ela ali do lado só diria, mas que raios de mesinha você quer agora? naquela voz meio embolada.
Eu não queria nenhuma. Não queria nem que ela estivesse ali. Mas estava tudo ali, dolorosamente firmando sua presença. Ela, a mesinha, o celular, o dia (sabe-se lá qual) com suas horas e minha cara contraída. Eu não podia fazer nada. Não sabia onde eu estava, onde eu estou, e que dia, se é que ainda é dia.
Manter o foco, eu pensava. Eu abria de novo os olhos e nenhuma das coisas a minha frente parecia sair da forma de nuvem - Nuvem.
Nada mais de arrancar cabelos e espremer a cara. É isso. Não sei como eu cheguei, mas estou aqui. Nuvem. Agora tá tudo certo, agora eu entendi... Entendi.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vômito

Comecei a vomitar sem que meu corpo tivesse dado aviso de isso fosse acontecer. Abri os olhos só depois que já tinha me encostado em um canto pelo chão. Se não fosse pela roupa toda suja que servia como prova, eu não acreditaria. Se não fossem pelos dias que eu contava estar sozinha, eu duvidaria. 
Mesmo fechar os olhos de novo não estavam servindo pra mudar o que eu estava vendo. A sujeira estava toda lá, porca e fedorenta espalhada pela sala. Talvez já fizessem dias e por isso eu não lembrava. Talvez o mal estar estivesse discretamente acomodado em qualquer canto do meu corpo e não quis incomodar publicamente. Talvez, e sim talvez, aquilo nem fosse mesmo meu. As roupas duras, as lembranças partidas, o choro escorrido marcado na grossa camada poeira. 
Não, não, nada disso era meu. 
Decidido isso, encostei a cabeça e apaguei de novo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Muita mobilidade e pouca noção

A mulher tava falando, mas metade dos que estavam ali estavam mesmo conseguindo escutar. Não que ela tenha criado uma atmosfera anti ruído com algum objetivo malévolo envolvido para pegar desprevenidos algumas dezenas de inocentes interessados dando sopa. E também não tinha nada a ver com o volume do microfone. 
Quanto aos que não ouviam, certamente não era por estar desprovidos de suas competências auditivas, mas sim muito provavelmente das sensoriais (de senso, do bom deles, especificamente) já que não conseguiam desgrudar dedos e olhos e sabe-se-lá-mais-o-que de pequenas, médias e relativamente grandes telas brilhantes.
Enquanto ela falava, os olhos e dedos se moviam quase com vida própria na platéia, e os olhos em volta reforçavam um pouquinho do constrangimento que os respectivos lábios retorcidos demonstravam.
Mas do palco ela prosseguia, maravilhosa e inabalável, derramando dela mesma pra quem quisesse (e também pra quem não quis) ver, ouvir, perguntar e aplaudir depois. 
Quem não ouviu, aplaudiu quando acabou, mas eu tenho aqui minhas dúvidas se eles sabem mesmo porque tavam fazendo isso. Talvez porque fosse (finalmente) a hora de ir embora.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pé na bunda e a terapia feminina da cura

Quando ele terminou de falar e 40 segundos após o silêncio constrangedor, eu tomei coragem e perguntei que raios significava tudo aquilo.
E sem nem pensar muito ele disse que só significava que até ele esquecer tudo o que tinha acontecido, ia ser assim. Um porre. 
Que lindo. A personificação de um porre, ao vivo e a cores, sentado na minha sala, perguntando que horas saía a próxima rodada de café (aquele já tava frio mesmo). Enquanto ele olhava (e será que eu não ouvi uma coruja piando lá fora?) eu gaguejava estrategicamente, pra dar mais uma chance de entender todo aquele rolo e responder aquele coração pré-faniquito.
Antes de eu terminar de abrir a boca, ele continuou. E quanto mais ele falava, menos eu entendia.
Ele não quis explicar bem o que aconteceu e pra ser sincera também tratei de abafar as trinta primeiras perguntas. Depois de quatro horas ouvindo a mesma história podia ficar um tanto constrangedor voltar pras partes básicas da questão que eu tinha perdido.
No final da noite (e não sei como) ele já estava oficialmente morando no meu sofá. O porre era ele e pelo jeito fui eu que acabei apagando em algumas partes.
Eu como uma boa exemplar do meu gênero, tratei logo de medicar o pobre coitado com brigadeiro, uns testes de revistas e uma coreografia nova da música velha (porém inesquecível) das Spice Girls. Sempre funciona. Bom, ainda não funcionou, mas nesse caso deve ser o gênero dele que complica tudo.
Pensei também em levar ele pra visitar meu cabeleleiro no outro dia e depois quem sabe passar comprar umas roupinhas novas. Tudo pra evitar a partida em direção a prateleira de cervejas do mercado (e as outras novas 4 horas de mimimi que viriam com aquilo).
Bobagem, não ia precisar de tudo isso. Pelo jeito ele não ia sair tão cedo daquele sofá. Ele dormia agora melhor do que eu seria capaz. Solidária, desliguei a televisão, joguei uma coberta por cima dele e apaguei a luz. 
Amanhã vai ser outro dia pra você também.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tá bem

Ele passou a noite no xilindró.
Aconteceu na rua qualquer coisa, ele fez que não era com ele e tratou rapidinho de carpir seu trecho.
Mas acontece que a onça que ele resolveu cutucar de vara curta era mulher. E pior, a mulher errada. Mulher do Seu Poliça.
Passou a noite no xilindró.
Então de manhã quando chegou em casa, deu de cara com a mulher e tratou logo de se explicar do grande mal entendido, que não era nada, ele só tinha enfurecido a mulher errada.
Acontece que a mulher nem quis saber como foi que o marido Dito Cujo tinha feito pra isso acontecer. E antes de conseguir se explicar direito já tava lá ele de novo, pra passar a noite no xilindró.
Dessa vez por crime reincidente, mexer com a mulher errada (que dessa vez era a que ele chamava de amor).
- Dito Cujo vai ficar bem?
- Ah vai. Só depende de bem o que... se for lascado, tá bem.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Uma luz no fim do banho

Fechei a porta liguei o chuveiro, tirei a roupa e joguei tudo ali por cima.
Sentei no tapetinho (pra não gelar a bunda) e fiz de conta que aquele box transparente me separava do resto do mundo.
Eu era a Rainha do Azulejo Branco e o box era o limite do meu castelo.
Então deixei que a água morna desse conta dos pensamentos espoletados, igual oxigenada na ferida ardida.
Até limpar bem o que tava sujo.
E quanta sujeira que saiu. Tinha água escorrendo até pelos olhos.
Então foi ensaboar esfregar enxaguar. E secar até que tudo ficasse como parecendo pronto pra outra.
E dai eu estava. Foi só arrematar com o perfuminho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Motim na noite de Curitiba

E no meio da noite, com a luz do poste entrando pela janela, ele desapareceu. 
Só o travesseiro amassado podia confirmar que o sono tinha mesmo estado ali um pouco antes.
Saiu e levou embora com ele todo o ideal de repouso e descanso que a dona tinha imaginado pra ela antes de deitar.
Pulou pra rua e foi andando e sem querer puxou com ele o fio de toda imaginação que ela guardava dentro da cabeça. 
Enquanto a linha se soltava acendia uma e outra (e outra) luzinha da idéia. E ela ficaria piscando sem fim suas luzinhas até que a noite fosse embora. Até o cansaço vencer a briga no tapa.
E no outro dia, ao perguntar porque raios a idéia não sossega quieta pra se manifestar depois, outra hora (em um horário de família de preferência), a cara-de-pau ainda alegou legítima defesa, já que não pode geralmente ser ouvida (de forma satisfatória, enfatizou) durante o dia, de tanto que a dona arruma o que fazer. 
Meu palpite gira em torno de uma ação em conjunto. Talvez um motim. Estamos aguardando o resultado das investigações.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Criminosa

Eu confesso, eu fui mexer na ficha dele.
Eu queria ver a ficha pra ver a data do aniversário pra ver o signo e pra ver se combinava com o meu.
Não importava muito se ele era boa gente, trabalhador e fiel, não claro que não. Eu também não ligava muito pro signo dele também, eu só estava querendo uma encorajadinha do universo, assim sem compromisso.
Então eu esperei todo mundo descer pro almoço, abri o arquivo e mexi na ficha dele. 
No fim das contas nem gostei muito do que descobri, porque não simpatizo nada com o que significa aquele aniversário. Enquanto eu refletia quanto meu esforço não tinha valido o crime, fui pega com a boca na botija.
A colega-amiga escapou da sobremesa porque tava de regime. Fiquei meio aliviada em olhar pra trás e ver que minha testemunha era uma mulher. Só uma mulher pra entender a importância de um ato extremo como aquele.
Quando eu terminei de explicar tudo ela ficou bem animada, até porque ele era alto e lindo e o signo combinava perfeitamente com o dela.
Aceitei a derrota com meio suspiro. O crime não compensa mesmo, afinal.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Depois que eu for

Não tive tempo de falar tudo que eu gostaria.
Ele sumiu, morreu, foi embora, pouco importa como foi. Na minha vida ele não existe mais. 
Só ficou ainda o que, talvez por causa do temporal, da pressa e das barras molhadas, acabou esquecendo encostado num canto. 
Talvez até tenha me deixado ali de propósito, como naqueles filmes que o mocinho só te deixa ler a carta colorida depois que ele estiver bem longe.
Eu que não deixei nada pra ele além de um olhar todo calado. 
Tudo o que eu senti guardei pra mim.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Escafedeu-se

Eu não sei bem como foi, porque eu cheguei na parte em que ele corria como um diabo corre da cruz. E como corria, aquele diabo. 

Parei em frente a porta meio sem entender pra onde ele tava indo com tanta pressa. Também não entendi como ele tava indo tão depressa. Só cheguei a tempo de ver o rastro que acabava de dobrar a rua.
Quem sabe ele tenha tido alguma ajuda (e aqui podemos concordar que ajuda talvez ainda não seja a palavra apropriada) pra sumir na curva e acabar com essa historia
(de amor)
até porque roupa suja se lava em casa e o diabo deixou todas bem largadas por aí (pra qualquer um lavar) 
Então quem é que pode me julgar por ter fechado a porta atrás de mim, sem esperar por nada mais que pelo café que estava por coar. Duas colheres de açúcar, as cortinas fechadas e um bilhete que não apareceu embaixo da porta mesmo depois de amanhecer. 
Nunca mais então acreditei em amores e diabos e roupas por lavar. 
Apenas o café continua real. Saúde.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pra frente

Totalmente consciente do caminho, ele ia. Não precisava ninguém dizer que ele fugia, apesar que seria de grande ajuda se grudassem as mãos na sua camisa, dessem com as costas dele em alguma parede áspera e dissessem de que ou pra onde ele fugia. Ele continuava apenas indo, seguindo o que já tinham dito que era intuição ou instinto, ou um outro nome bonito que também servisse de desculpa pra ele não parar. 
Ignorou as ofertas de café e chá que encontrou pelo caminho e nem mesmo aceitou as bolachas. Ensaiou um sorriso ou outro (obrigado), mas de verdade não estava muito preparado pra conversar. Não iria fugir também da conversa, nem do tema (seja lá ele qual fosse), só continuava andando porque achava que isso era o melhor a oferecer no momento. E com certeza ainda era melhor do que sentar naquele banco fresco embaixo da fresca sombra daquela árvore logo ali. Deu uma beliscadinha no braço pra afastar a idéia e continuou. É melhor mesmo seguir em frente. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sequestro relâmpago da motivação

O ônibus parou no terminal e ficou.

Ficou parado de portas fechadas com todo mundo dentro.
O povo lá dentro se mexia e resmungava para descer, mas portas continuavam seladas.
No que pareceu muito tempo, mas no timing perfeito antes de qualquer escândalo, o cobrador se levantou da cadeira e, se ele tivesse o aparato ali naquela hora, com certeza bateria o talher no copo para começar o seu discurso.
Então a multidão que (ainda) se mexia parou por dois segundos, vendo aquele cara se levantar.
Ninguém combinou, mas todos seguraram a respiração até que ele terminasse de falar:
- "A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem!" Tenham um excelente dia pessoal!
Dez segundos de absoluto silêncio e então calmamente ele voltou a se sentar. E todo mundo olhou pro coleguinha do lado em busca de saber o que fazer.
Enquanto os ombros iam abaixando as portas também iam se abrindo, para finalmente libertar os sequestrados.
Saíram aos montes, os assustados, surpresos e os ofendidos, todos se virando para mais uma olhadinha para o que acabava de acontecer.
Inacreditável, de onde saiu esse cara? - eu ouvi um cara dizer - Será que ele é assim todo dia?
Não sei querido, mas algo me diz que amanhã teremos sua resposta...


(Ps: a resposta era sim.)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Na cartomante - 3

Eu vejo você conservando uns velhos hábitos; andando pela casa com o telefone desligado, falando e falando, pra fazer de conta que a solidão não dói. 
Vejo você ainda brigando pelo que não tem direito só porque a vitória é uma boa companhia quando vem; ela senta ao seu lado disposta a te ouvir durante o tempo que você quiser.
Vejo uma multidão que vai chegar e vai embora, alguns antes que você os tenha posto pra correr - porque todos vão. 
Vejo aquela poltrona velha onde você vai sentar pra relaxar seu sorriso treinado no fim do dia, e deixar cair tudo o que é amargo pelo chão do quarto.
Vejo você desistir de todo mundo, porque mesmo depois de tanto tempo você ainda acha que é o único que sabe como as coisas são.
- Você não pode estar vendo isso, eu vejo tudo tão diferente!
- É como eu acabei de dizer, meu filho...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Simpatia pra pereba




Colo de mãe cura tudo. 
Remédio, colo e cafuné é desde os tempos remotos, a simpatia mais certeira pros mais diversos tipos de perebas.
Até aquelas grandonas mesmo.
No colo da mãe a injeção ardida dói menos. 
E é sabido que com cafuné é bem mais fácil encarar aquele remédio danado de ruim.
Atenção mães, não tem nada mais importante que isso:
Remédio quando precisa, e colo e cafuné 3 milhões de vezes por dia.
É tiro e queda e tchau pereba.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Na cartomante - 2

- ...você tá vendo alguma coisa?
- Eu vejo você, sozinho e velho numa casa imensa, sem bichos de estimação. Sentado em uma sala, olhando seus 3 diplomas pendurados, segurando o cachimbo que era do seu pai e que você não teve coragem de jogar fora.
Vejo uma sequência de noites de sono leve, a mão pegando o celular ao lado da cama pra conferir, a cabeça que volta no travesseiro com a certeza de que o celular só vai tocar quando estourar outro pepino no trabalho.
Vejo você de madrugada olhando pelas janelas, pensando em como era você e sua vida quando esse pijama esfarrapado era novo. Acariciando os rostos do porta retrato por ser a única maneira de ficar perto daquelas pessoas (depois de tudo).
 - Nossa, alguma coisa boa... tem?
- É verdade que você gosta de uma cervejinha, não é?
- Gosto sim.
- É, então não se preocupe, isso vai ter bastante.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Revoada

Ansiedade é quando aquela passarinhada que cantava aí outro dia se junta pra fazer um arrastão, e seu peito vira em asa pra tudo quanto é lado. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Na cartomante

- ... e aí, o que você tá vendo? Eu vou conseguir comprar meu carro?
- Não vejo carro, meu filho. Eu vejo seu coração enorme, reformado. Reformado com uma enorme janela na parte de trás. Eu vejo você por horas em frente a ela, absorvendo tudo (agachado) catando os caquinhos que vão te sobrar na lembrança. 
Uma parede de CDs, de poesia sua e dos outros. Principalmente dos outros. Seu relógio andando pra trás toda vez que você encontrar a guitarra velha no suporte na sala. 
Aquela que já tocou muito e hoje em dia só serve de enfeite (empenou, você vai responder). Vejo sua música favorita se transformar em campainha, que avisa quando seu filho entrar porta adentro te trazer uma mãozinha. Vejo um cinzeiro que mal esvazia. Fumaça dançando pela janela enquanto você tenta segurar o que ainda resta...
- Mas e quanto a meus amigos?
- Ah querido, isso tudo vai ser bem depois deles...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Um zóio cá

E na curva do caminho, o marcador caiu do livro lá pro meio do ônibus.
Eu fiquei dividindo meu olhar aqui e lá aqui e lá medindo os palavrões pra levantar.
De repente me dei conta da vizinha de banco falando no celular, e da fulana lá na porta gritando confidências pra amiga (que se não era surda, agora...)
Um cara olhando esquisito pra mim. Eu olhando esquisito pro marcador me apurrinhando ali do chão.
De repente eu não sabia mais o que eu tava lendo. 
Respira. Eu estou aqui e agora. Ônibus. Livro.
(o marcador!)
Duas frases, um olho aqui e outro de fianco pro bendito, e percebo que eu tenho mesmo que pegar ele de volta; eu estou na metade  do livro e se usar a orelha, amassa tudo (dai não)
Aqui e agora eu sou um pé lá e outro cá, abaixa, se estica (e puxa) pra resgatar o tão nobre pedaço de papel.
Ufa. Aqui e agora tuuudo está bem. Pronto, agora expira.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Obsessão do 1001

Tempo para ler todos os livros do mundo, tempo pra escrever tudo aquilo que me afoga.
Tempo pra comer de novo (e de novo) meu meio milhão de pratos favoritos. 
Tempo (e estômago) pra tomar todos os cafés que ando devendo.
Tempo pra matar as saudades acumuladas. Pra aprender a levar a vida (e depois sair pro recreio)
Pelos olhos do outro ângulo, eu estou sempre perdendo tempo.
1001 filmes pra ver antes de morrer, 1001 lugares pra visitar e 1001 pratos que eu não posso perder.
E as pessoas que não param de surgir (e eu preciso conhecer)
E o tempo de não fazer nada.
Será que vai dar tempo?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Nham!

Fofoca é um ratinho verde de fome vendo um nacão de queijo dando sopa do outro lado da rua.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

All the single ladies



Ônibus alimentador tem inveja de Ligeirão. Pela rua esburacada ele desafia o velocímetro (e o equilíbrio dos passageiros também)
Em pé ao lado da janela, na vaga do cadeirante (que é minha neste minuto) o vento entra e selvageia meus cabelos. E enquanto eu me seguro, treino meu olhar intenso para o horizonte.
Ah, se tivesse mais espaço, um colant e minha luvas, já começaria a cantar.
All the single ladies (all the single ladies)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sem vergonha


(Para uma melhor experiência, ligue a voz mental "Perua".)

Atravessei a rua hipnotizada por alguma coisa que brilhava dentro daquela loja. Passei pela porta absolutamente incapacitada de olhar para qualquer outro lugar.
Eu era um búfalo.
Um búfalo elegante, radiante e bem de olho no meu alvo, claro que sim.
A dois passos, fui detida por um fiu-fiu. Ah mas peraí.
Virei a cabeça para o lado violentamente (aquele cabelo esvoaçando ok) para intimidar meu oponente o mais rápido possível.
Meu oponente era um macaco. Eu definitivamente não podia ser detida pelo fiu-fiu de um macaco (especialmente este de pelúcia).
Estufei o peito, pisquei três vezes e pensei: Foco, olhos no alvo e siga em frente!
Afinal, eu posso apostar que ele faz isso pra todas. Que sem vergonha.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Assombração

Eu estou sendo assombrada. - Foi assim que comecei a contar pra ela.
E ela claro, já foi retrucando dizendo que tudo isso era por causa daquele seriado estúpido que eu andava assistindo. Não adiantou muito tentar explicar quanto eu achava que era um caso bem diferente. Mas ela continuou me dando corda pra falar, então continuei:
"A noite quando está tudo escuro e eu saio andar pelo corredor (sozinha e desprotegida), escuto uma voz fria sussurrando bem perto do meu rosto, dizendo assim: não vá, fique aqui onde você está." E geralmente é bem nessa hora que estou no quase ali pra começar alguma coisa nova. Ela me pega no pulo e eu volto correndo pro meu quarto.
- Ah, então você tinha razão - ela finalmente entendeu - isso é mesmo um caso de assombração. Eu conheço isso pelo nome de mesmice. Faz assim, da próxima vez que essa voz te sussurrar, manda ela catar coquinho que sempre dá certo. Não tem erro.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Hora de parar

CANSAÇO é quando você passou o dia inteiro sentado no escritório (com testemunhas para confirmar), mas seu pensamento saiu pra correr a maratona e depois resolveu voltar andando pra casa.
Áááágua!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Número 33

Tava fazendo meu caminho da roça, sentada no ônibus, quando senti aquele perfume conhecido. O perfume que eu mesma escolhi pra dar de presente.
Por reflexo levantei o nariz do livro e de rabo de olho bem que parecia ele mesmo. Meu papi amado.
Eu sabia bem que não podia ser, mas virei o rosto pra olhar direito mesmo assim. Claro que não era. 
A mão até que parecia, era grandona, mas não aquela mão número 33. O cabelo meio grisalho e a pele queimada de sol. De rabo de olho convencia.
Faltava também meio metro pra cima e outro pros lados, mas pro faz de conta já tava bom.
Fiz que ouvi qualquer recado, curti o perfume, a presença. Baixei o livro e fechei os olhos e fiquei curtindo aquele agora.
Até abrir os olhos e não sentir mais nada. 
O cara ainda estava ali parado do mesmo jeito, mas francamente, como eu pude confundir...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Viva Bukowski

O bonitão chegou abrindo a porta, em seguida a geladeira, me encontrou jogada na cadeira olhando profundamente para o nada.
Ei - ele começou - não se cobre tanto assim. Deixa que eu cobro por você.
- Cara, você não entende. Eu não vejo nada, não ouço nada, nada clica. Nada clica, dá pra entender? Aquela tela branca pisca o ponteiro, me desafiando. Jogo um monte de letras, e então palavras e elas não combinam. Quando tento apelar pro bom e velho bloquinho (companheiro de todas as bolsas) quase posso ouvir a risada que vem daquela imensidão branca. Deixo tudo pra trás e saio andar por aí, olhando tudo, mexericando, perguntando e nada clica. 
É minha amiga, é por aí. Abre esse olho, apura esses ouvidos e bota a mão na massa. E se não tiver nada melhor, escreve aí do bonitão que chegou na sua casa abrindo a porta e em seguida a geladeira, que te encontrou toda jogada na cadeira pra dizer, ei não se cobre tanto assim... deixa que eu cobro por você.
- Muito engraçadinho você.
Ele virou as costas e foi pro seu mundo, eu virei as minhas pra ir pro meu e comecei:
"O bonitão chegou abrindo a porta, em seguida a geladeira..."
É bom voltar a escrever.

(Vale ver, "Você não consegue escrever uma história de amor", Bukowski)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Upa!

Ela devia ter uns dois anos.
Estava frio e ela estava no colo do pai, coberta por um daqueles casacos muito quentinhos com orelhas de ursinho. Aquelas orelhas de ursinho lhe caíam muito bem, inclusive.
Ela dava tapinhas no rosto do pai dando risada, enquanto ele tentava sem muito empenho se desviar desses terríveis ataques.
Então ela desistiu, colocou seus bracinhos em torno do pescoço dele e jogou todo o peso do seu corpinho nos braços dele.
Uuuupa, mas que abraço gostoso!
E o olhar dele dizia, ele tava falando a verdade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Acha que cola?


Me contou a história toda até o final, do jeitinho que ele tinha ensaiado.
- E ai, acha que cola?
Cola, cola. Vai lá que eu estou torcendo. Vai dar tudo certo.
- É... mas é que é meio mentira né? Não gosto disso, se eu esqueço um pedaço daí vai complicar tudo.
Complica nada. Vai lá que vai dar certo. E me liga quando tiver voltando.
Então dei aquela batidinha de leve nas suas costas, e ele pegou sua história, estufou o peito, abriu a porta e foi a luta.
Só quando já era tarde demais lembrou de ter deixado a cara de pau em cima da mesa. Bem que reparei que o telefone tocou mais cedo do que eu tava esperando. Mas agora pelo jeito não adiantava mais ir ajudar.
O coitado levou um chute bem no meio da coragem, muito antes de poder terminar de contar o causo.
Ouvi depois a mãe dele dizendo que já sabia que não ia dar certo e depois mais uns três vieram dizer também. Refogaram pra janta o que sobrou da esperança do cara com o resto da paciência que ele tinha trazido.
Encontrei ele num canto, sentei e falei tão mal da véia quanto eu consegui improvisar. Eu gostava dela. E ela nunca ia saber o que eu tava falando.
Agora ele parecia até mais aliviado, sentiu que não era o único desfavorecido pela estupidez desembestada daquela mulher.
Fui dormir todo orgulhoso da minha boa ação do dia. Eu tava ficando bom nisso.
Até que aquele imbecil resolveu contar tudo pra véia. Fizeram as pazes.
Agora era eu que tava ensaiando história.
- E ai, acha que cola?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pidoncha

Sentada no sofá, esparramada, com as duas cadelas se acotovelando pra ver quem ficava com a metade maior do meu colo.
A Efigênia jogando sujo, querendo conquistar espaço com seus beijinhos. A Valentine fazendo de conta que não via nada.
E umas páginas enquanto eu espero. Lá no fundo da minha concentração, um cantarolar de passarinho.
Parei pra ouvir e escutei mais três cantozinhos diferentes. 
Quando vi, nem tava lendo mais. Já tava reparando no sol que parecia querer chegar de mansinho, me pedindo para abrir a janela (e deixar a cortina de lado).
De canto de olho vi duas cabecinhas com idéias. E nos olhinhos escuros das cadelas, o pedido pra ir passear (pode ser agora? pode ser agora?)
Fui vencida. Botei o livro pra lá, peguei uma cadela de cada lado e fomos embora. 
Latir correr e cheirar. Ô vida boa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Brinquedo velho


Cheguei em casa e vi ela encostada num canto, há muito abandonada por mim.
Não tenho tempo nem vontade - eu dizia - mas agora vai ser diferente. Não foi.
Diferente era quando a gente dançava tresloucada na sala, canto dança e figurino, fingindo não ligar pra vergonha do vizinho se ele nos escutasse.
Diferente era quando de tantos planos, eu mal conseguia dormir.
Então sentei do outro lado da sala e fiquei olhando ela ali, só ocupando espaço.
Ei, volte! - ela me dizia - Não me deixe aqui sozinha, vamos brincar como a gente sempre fez.
Eu continuei olhando, fiz beicinho e sai dali direto pro que eu estava fazendo antes de sentar.
Cantar sempre foi minha sobremesa favorita. Hoje não consigo me lembrar o sabor que isso tinha.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O vermelho

Desânimo é um carretel muito comprido que vai desembolando (e nisso) vai embolando junto a toda vontade de fazer alguma coisa. 
Mas isto pode ser facilmente revertido se um sujeito determinado amigo aparecer e começar a puxar o fio. Daí é tiro e queda. Pá-pum.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pipoca

Aquilo chacoalhava mais que chacoalhão de mãe depois daquela nhaca.
Quando eu entrei no ônibus já tinha uma comentando algo sobre o estômago querer saltar fora do corpo.
Achei um exagero, mas mudei de idéia assim que fiquei sentada.
Eu bem que tava tentando conversar, levar na esportiva, mas a fofoca tava disfarçada de gagueira e enganando muito bem (e-e-e-e-ent-a-a-ao a-a-a-a vi-i-i-ida co-co-como t-t-ta)
Não tinha jeito, até porque era bem importante manter o esforço pra permanecer sentada (que tava difícil).
Meu próprio dia de pipoca, estourando na panela alaranjada do boqueirão. Desfilando na passarela esburacada da vida.
No terminal, a porta abriu e foi só gente se pipocando pra fora seguido daqueles que tentavam se pipocar panela adentro.
Ah, terra firme. Não via a hora.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Coisa de gato

Ela tava de bobeira voando pelo meu quarto, a bolha de sabão.
Colorida, chegou mais perto só pra me provocar.
Continuei então bem escondido como eu estava na estante de livros, na seção que eu mais gosto, do lado do livro que eu mais gosto (O buraco na caixa e seus mistérios).
E quando eu tava quase pronto pro mergulho de ataque, ela sumiu. Não entendi pra onde ela foi, porque tenho certeza de que não tirei os olhos dela.
Mas bem, mal pisquei e já tinha de novo uma bolha lá, olhei melhor e tinha outra e meu deus, de onde vieram tantas outras agora. Ah não.
Num ato de desespero pulei, tentando então acertar o máximo de bolhas que eu conseguisse. Só quando cheguei no chão que vi quantas ainda voavam lá no alto da minha estante...
Mas eu não desisto, e lá vou eu de novo. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vovô

Ele já morreu, mas era o tal do cara chato.
Benza deus, o povo falava quando ele saía andar na cidade. Morava ali na casa ao lado.
Dormia as oito e meia e botava todo mundo pra correr. As visita tão cansada e os donos da casa querem ir dormir, era o que ele dizia, ao bater na minha porta.
Morreu de juventude, não aguentou. Foi tanto neto, grito choro e criança correndo pela casa (se pendurando na janela), que foi demais praquele coração azedo.
Não aguentou o doce dos bolos cheirosos que a Dona deixava pra esfriar. Nem a cantoria das meninas no pátio.
Morreu do colorido das pipas avoando com a piazada correndo atrás.
No enterro a vizinhança foi em peso, em preto e em silêncio. As crianças mesmo só se mexeram quando foi pra ir embora.
Até o padre quando encomendou a alma do velho deixou pra deus bem avisado; cê toma cuidado que esse ai ó, morreu foi de raiva.
E todos disseram num coro tímido, amém.