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terça-feira, 3 de abril de 2012

Na cartomante - 5

Eu vejo você chorando a saudade daqueles que você afastou mais vezes do que poderia ser perdoado. Gritando e negando a culpa a distância e a solidão.
Vejo você tentar sorrir diante da vida que a vida te trouxe no fim das contas, desafiando a sua impaciência diante daquilo que você ainda achava que podia ser alterado.
Só quando seus olhos descerem ao nível onde você guardou todos os outros, você vai se dar conta de quantos estavam por perto enquanto você achava que não.
- Minha senhora, mas que absurdo. Você não tem nada melhor pra me falar?
- Só quando você tiver coisa melhor a oferecer, minha menina...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Na cartomante - 4


- Eu vejo você lembrando seu amor de juventude, o grande amor da sua vida. Aquele amor pelo que você lutou, gritou e amaldiçoou tanto. Quem você quase perdeu por causa da vida e depois também por causa da morte.
Eu vejo você com seu grande sonho realizado, naquele vestido que deixa magrinha e as flores que deixaram realmente tudo perfeito. 
A tão esperada família sentada à mesa esperando você terminar de trazer o jantar. 
Mas eu também vejo o que ele nunca vai ter coragem de te contar.
- Como assim, ele vai ter outra? 
- Outra sim, perspectiva. Mas não se preocupe, você vai ter tudo o que sempre quis, só vai te faltar mesmo a certeza.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Na cartomante - 3

Eu vejo você conservando uns velhos hábitos; andando pela casa com o telefone desligado, falando e falando, pra fazer de conta que a solidão não dói. 
Vejo você ainda brigando pelo que não tem direito só porque a vitória é uma boa companhia quando vem; ela senta ao seu lado disposta a te ouvir durante o tempo que você quiser.
Vejo uma multidão que vai chegar e vai embora, alguns antes que você os tenha posto pra correr - porque todos vão. 
Vejo aquela poltrona velha onde você vai sentar pra relaxar seu sorriso treinado no fim do dia, e deixar cair tudo o que é amargo pelo chão do quarto.
Vejo você desistir de todo mundo, porque mesmo depois de tanto tempo você ainda acha que é o único que sabe como as coisas são.
- Você não pode estar vendo isso, eu vejo tudo tão diferente!
- É como eu acabei de dizer, meu filho...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Na cartomante - 2

- ...você tá vendo alguma coisa?
- Eu vejo você, sozinho e velho numa casa imensa, sem bichos de estimação. Sentado em uma sala, olhando seus 3 diplomas pendurados, segurando o cachimbo que era do seu pai e que você não teve coragem de jogar fora.
Vejo uma sequência de noites de sono leve, a mão pegando o celular ao lado da cama pra conferir, a cabeça que volta no travesseiro com a certeza de que o celular só vai tocar quando estourar outro pepino no trabalho.
Vejo você de madrugada olhando pelas janelas, pensando em como era você e sua vida quando esse pijama esfarrapado era novo. Acariciando os rostos do porta retrato por ser a única maneira de ficar perto daquelas pessoas (depois de tudo).
 - Nossa, alguma coisa boa... tem?
- É verdade que você gosta de uma cervejinha, não é?
- Gosto sim.
- É, então não se preocupe, isso vai ter bastante.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Na cartomante

- ... e aí, o que você tá vendo? Eu vou conseguir comprar meu carro?
- Não vejo carro, meu filho. Eu vejo seu coração enorme, reformado. Reformado com uma enorme janela na parte de trás. Eu vejo você por horas em frente a ela, absorvendo tudo (agachado) catando os caquinhos que vão te sobrar na lembrança. 
Uma parede de CDs, de poesia sua e dos outros. Principalmente dos outros. Seu relógio andando pra trás toda vez que você encontrar a guitarra velha no suporte na sala. 
Aquela que já tocou muito e hoje em dia só serve de enfeite (empenou, você vai responder). Vejo sua música favorita se transformar em campainha, que avisa quando seu filho entrar porta adentro te trazer uma mãozinha. Vejo um cinzeiro que mal esvazia. Fumaça dançando pela janela enquanto você tenta segurar o que ainda resta...
- Mas e quanto a meus amigos?
- Ah querido, isso tudo vai ser bem depois deles...