segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Talvez em outro céu

Ele me chamava de anjo
E parecia realmente acreditar no que estava dizendo.
Anjo meio caído, só se for
Sentada desajeitada no meio fio, toda largada
Cabelo doido roupa esquisita e aquele jeito
Matutando pra botar as ideias no lugar naqueles 10 minutos de um cigarro
Pra depois voltar pro batente e bater as asas.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Tava chorando?

Ele me olhou e reclamou da minha maquiagem meio borrada.
Olho todo preto.
Não me importei.
Afinal quem é que não deixa sua máscara cair de vez em quando?

(Ás vezes ao invés de cair, ela escorre. Acontece.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Bolas


O que ela queria mesmo, é ser livre.
Mas sabia que não chegaria nem perto da liberdade, enquanto não tivesse bolas para isso.
Remexendo nas gavetas, encontrou uma coragem um pouco vencida.
Por sorte, não por muito - ainda dava pra usar.
Martinha deve ter esquecido aí quando se mudou para mudar (seu) mundo.
Preparada, pintou sua cara na sua cor, aquilo que de pior achariam dela.
Bicha. Bruxa. Preta. Gorda.
E mesmo com tanto resmungo dizendo que o caminho certo era o outro lado, ela foi.
E nunca na vida ela foi tanto.
Bicha. Feliz. Bruxa. Preta. Gorda. Livre.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Modelito de hoje

Ela me despe por dentro - invariavelmente - em cada conversa.
Suas perguntas cavoucam de fininho meu silêncio, só pra ter certeza de que lá nas minhas entranhas, não tenha sobrado nada que eu não tenha contado à ela.
Ela é assim um pouco louca, mas sim, um pouco linda também. Dramática e tão inventiva que deveria mesmo ganhar um prêmio.
Insuportável quando ela decide que vai ser assim.
Então guardo minha distância e meus poucos segredos, mesmo eles sem importância alguma, só para não entregar à ela mais do que eu estava planejando.
Se eu me visto de silêncio, bem... foi a roupa que escolhi para hoje.
E tudo bem.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Não era igual

Uma vez passei quase um ano tentando mostrar pra um cara
Que eu era diferente das outras.
Pensando aqui,
Acho que pra ele, meu problema era justamente esse.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ligeiramente possessiva

Você foi embora e a casa é toda minha outra vez.
Corri pra botar minha voz, meu canto, meu som, meu cheiro e minha cor em tudo que estava desbotado pelo seu olhar tão severo. 
Naquele banco, flores frescas e brilhantes para celebrar a vida - você lembra que cor a vida tem?
Teu grito tentou aquietar meu riso. Teu olhar criticar a minha dança. Tua língua maldizer minha criança. Me escondi de toda graça de tanto ouvir que ser feliz era pecado. 
Pecado mesmo é viver nessa gaiola moral - onde a moral só da seu nome e nunca as caras.
Você foi embora e a casa é minha agora outra vez. 
Então me esbaldo com gosto nos meus absurdos, na fumaça das ervas cheirosas, na música que me arrepia e meus pecados horríveis todos. 
Feliz como um passarinho se banhando na poça de lama. 
A cor da vida não pinta quem tem a alma preta e branca.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Que só vai ficar maior

Ela subiu no ônibus a caminho de volta praquele mundão onde ela vive.
Ela vive em todos os lugares, porque o mundo inteiro é todo dela mesmo.
Por isso fiquei tão feliz por ela incluir neste mundo grande o meu mundinho que ainda é um filhote.
Ela entregou os documentos, virou e me viu com as mãos no rosto.
Não chora, logo a gente vai se ver de novo. 
Só de ouvir isso eu chorei mais, mas sem tristeza nem saudade.
Chorava só porque ela é importante. E eu também, mesmo num mundo tão grande.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Conta outra

Ele me veio com aquela frase que, se você não ouviu ainda, posso te jurar que não demora. Porque não falha, ela vem.
(É que eu preciso ficar sozinho agora)
Escorria bem aquela porção de lágrimas enquanto eu tentava entender o que tava acontecendo, mas era isso mesmo.
(Não é nada com você, o problema sou eu)
Era isso mesmo. 
Quer dizer, não era.
Bom, talvez seja eu que não entenda que nada representa mais a vontade de ficar sozinho do que duas taças de vinho postas sobre a mesa.
Talvez só perca para um biquini pendurado no varal.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Não sou só eu.

Aquele dia lindo chamando lá fora.
- Ah não, vou ficar aqui jogando video game...
O mar todo dengoso convidando para um mergulho.
- Nossa, mas tô com uma dor aqui, ó...
O prato cheiroso fumegando na mesa do almoço.
- Sabe o que eu ando com vontade de comer?
Ô menina, que cara é essa?
- Ah, nada dá certo pra mim, não dá nem vontade de viver às vezes.
É menina, eu imagino. Até a vida fica com preguiça de gente com tanta preguiça assim.