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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

De outro mundo

  NUNCA soube exatamente como era o nome dele. Sempre ouvira ele sendo chamado de dido, seja lá o que isso podia resumir de um nome ou significar de um apelido. Acho que era algum chamado carinhoso para tatatatataravô na lingua dele, que eu também não sei qual era.
Enfim, ele era meu tatatatataravô, como eu já disse. Um "tatá" (menos um nível) do meu pai. Ele morava num lugar que sempre demorava muito pra chegar, com estradas de pedra e barro e a casa dele era muito feia. E era meio fedida também. Ele era meio fedido. Eu tenho quase certeza que ele já estava meio morto quando eu o conheci, mas ninguém nunca comentou sobre o fato. Eu nunca fui com a cara dele, então também não me interessei muito em perguntar mais.
Eu não me lembro de muita coisa além disso, mas lembro muito bem de como era o cheiro ruim dele e como as unhas dos pés deles eram enormes. E como ele gritou quando a baba tentou cortar as unhas dele. Ele tava sentado na cadeira lá fora e definitivamente, ele não queria que cortassem as unhas dele. (Até porque eu acho que, ao menos que a baba usasse um machado, ela não iria conseguir).
A baba era a outra tatá, esposa do dido. Eu também não sei o nome dela. E eu também não gostava dela. Ela era um pouco malvada, baixinha demais para o meu gosto (eu era uma criança e ela era menor que eu). Ela me beliscava e queria me levar a missa. Eu fui uma fez e foi talvez a coisa mais chata que eu fiz na vida. A igreja era escura e feia e o padre não falava português. Eu era pequena demais pra sair de lá sozinha e voltar pra casa, então fiquei até o final. Quando acabou eu disse pra baba que foi a missa mais linda que já tinha ouvido. Eu não podia respeitar de verdade um casal com esse nome, afinal.
O dido me deu um mundo, um dia. Eu não tinha nenhum até o momento então peguei pra mim. Não sabia direito para o que servia, então fui morar nele só tempos depois.
Quando eu cheguei naquele mundo, tempos depois, ele ainda era novo, e era do jeito que eu queria. Eu podia inventar o que eu quisesse, quando eu quisesse, com quem eu quisesse. Era só quisesse. O tempo foi passando e eu fui ficando por lá. E fui crescendo. O mundo que ele tinha feito pra mim quando criança continuou do mesmo tamanho, mas eu fui esticado ele por um tempo e depois eu tive que ir me encolhendo pra caber dentro dele. Mas tava bom ali, era do jeito que eu conhecia, e eu conhecia cada canto do meu mundo. E quem mais tem um mundo só pra si? Eu tinha.
Eu já estava quase ficando velha quando resolvi me perguntar porque diabos eu continuava morando ali naquele mundo que o dido fez pra mim um dia. Eu nunca gostei dele. Sempre achei as coisas dele feias e fedidas. Comecei a cheirar em volta pra ver se não tinha nada fedido por perto, e pra conferir se tudo era bonitinho mesmo como eu imaginava.
Não era.
Mas mesmo as coisas feias que existiam no meu mundo, eram minhas. E até ali, era tudo o que eu possuia. Todos os meus tesouros, minhas lembranças, meus sonhos... Fui conferir as minhas caixas, onde eu guardava tudo isso e só então eu me dei conta que todas as caixas estavam amassadas. Amassadas! Meus tesouros, meus sonhos, minhas lembranças, amassadas. Então pensei óbvio, esse mundo é pequeno demais pra todos nós, mas soou menos engraçado quando eu resolvi me mudar dali. Já era hora, vish, faz tempo.
Comecei então a andar por ai, procurando saber sobre outros mundos disponíveis. Andei um bom tempo até achar algum que me prestasse. Passei por alguns um tanto ridículos, e torci o nariz logo de cara. Festa estranha com gente esquisita, já diriam, e era bem isso. Tô fora. E continuei caminhando.
Depois de caminhar por alguns anos eu encontrei um mundo totalmente em branco. Parecia que ele tinha sido esquecido, deixado ali por alguém distraído, que o deixou cair sem querer porque tava meio apressado.
Bom, serve pra mim. Fui entrando e olhando, conferindo se não tinha nada ali mesmo. Não tinha.
Então, pra não apressar as coisas, sentei ali no meio do nada e comecei a olhar pro nada, pra imaginar por onde eu começaria e principalmente, como eu queria que ele ficasse no final. E já que ali fora não tinha nada pra olhar, resolvi tentar o outro lado pra ver se eu tinha uma boa idéia. 
E quando me dei conta, estava olhando pra mim mesma, lá pra dentro, e eu finalmente soube como eu queria decorar meu mundo novo. Meu mundo novo só meu, teria exatamente a minha cara. E isso fazia todo sentido. E era maravilhoso.
E quanto mais eu me conhecia, mais bonito o lugar ficava, e mais bonita também eu ficava lá. Tudo combinava comigo, eu fazia parte de tudo e sentia finalmente que tinha encontrado meu lugar. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fluxograma

Eu não lembro qual foi a última vez que te vi. Quer dizer, ouvi algumas coisas a seu respeito, mas eu sei que isso não é suficiente pra saber bem certinho como está você hoje em dia.
Pois veja, como vou saber o que é verdade, se não é só picuinha a outra ter vindo me contar como você engordou. E me disseram outro dia ter visto você entrar no prédio do curso de Culinária Especial, justo você (quem diria). E também sobre seu cabelo, quer dizer, é verdade que agora você prefere usar ele todo descolorido? Eu podia jurar que tinha ouvido você dizer eu loira, jamais, tá maluca, será que estou? Agora só falta alguém vir me dizer que você também está fazendo dieta e caminhada, aí vai ser oficial, não te conheço.
Mas bem, eu anotei os pontos principais em um fluxograma, coloquei uma porcentagem de variação de verdades, e acho que consegui chegar num resultado apropriado. Não sei o que levou mais tempo, checar as verdades ou as mentiras, mas foi fácil identificar porque as mentiras eram mais detalhadas e emocionantes. Até aproveitei pra desenhar um esquema com a sua vida de mentira, só pra você se distrair depois quando tiver tempo.
O desenho ficou bem aproximado, você vai gostar do resultado, e eu também fiquei bem satisfeita com o trabalho. A verdade é que a nossa vida fica sempre mais interessante pela boca dos outros. Não é uma maravilha? E você aí achando que tava pra morrer de tédio...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Procedimentos

Antes de começar a ler um novo livro:
- Leia com cuidado tudo o que estiver escrito por fora, especialmente as letras miúdas, por precaução;
- Abra a capa, dê uma boa cafungada na folha de rosto (e fique sempre atento as letras miúdas);
- Com cuidado, alise a primeira folha com a mão (com uma cafungada respeitosa agora) para estabelecer uma comunicação com o povoado contido ali dentro do livro (para melhores resultados, feche os olhos);
- Abaixe um pouco a cabeça pra prestar bem atenção e não perder nenhum detalhe do que eles vão falar (eles podem ser um tanto teimosos com os detalhes);
- Depois faça o Juramento Solene dos Nobres Leitores, pedindo permissão ao Povo de Dentro do Livro para entrar no mundo deles sem maiores problemas. 
- Só então caminhe para o primeiro capítulo. Lentamente porque, vai que o povoado lembre de mais alguma questão antes que você termine de abrir a porta...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Isso aí

Sacudia com cuidado a cabeça, apertava e abria exageradamente os olhos, inspirava e soltava o ar com toda força - é, não vai adiantar - tava tudo igual.
Passou a mão por trás da cabeça, arreganhou os cabelos, fez menção de arrancar tudo num puxão (não puxou), contraiu toda a cara, sobrancelhas, bochechas e pelo que sentia podia dizer que tava contraindo também as coisas lá por dentro da cabeça.
Claro que ainda não tinha pensado em levantar, quem sabe até ajudasse pegar o celular de cima da mesinha e ver que dia era e que horas, apesar de achar que isso não faria nenhuma diferença no momento. E também, ela ali do lado só diria, mas que raios de mesinha você quer agora? naquela voz meio embolada.
Eu não queria nenhuma. Não queria nem que ela estivesse ali. Mas estava tudo ali, dolorosamente firmando sua presença. Ela, a mesinha, o celular, o dia (sabe-se lá qual) com suas horas e minha cara contraída. Eu não podia fazer nada. Não sabia onde eu estava, onde eu estou, e que dia, se é que ainda é dia.
Manter o foco, eu pensava. Eu abria de novo os olhos e nenhuma das coisas a minha frente parecia sair da forma de nuvem - Nuvem.
Nada mais de arrancar cabelos e espremer a cara. É isso. Não sei como eu cheguei, mas estou aqui. Nuvem. Agora tá tudo certo, agora eu entendi... Entendi.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vômito

Comecei a vomitar sem que meu corpo tivesse dado aviso de isso fosse acontecer. Abri os olhos só depois que já tinha me encostado em um canto pelo chão. Se não fosse pela roupa toda suja que servia como prova, eu não acreditaria. Se não fossem pelos dias que eu contava estar sozinha, eu duvidaria. 
Mesmo fechar os olhos de novo não estavam servindo pra mudar o que eu estava vendo. A sujeira estava toda lá, porca e fedorenta espalhada pela sala. Talvez já fizessem dias e por isso eu não lembrava. Talvez o mal estar estivesse discretamente acomodado em qualquer canto do meu corpo e não quis incomodar publicamente. Talvez, e sim talvez, aquilo nem fosse mesmo meu. As roupas duras, as lembranças partidas, o choro escorrido marcado na grossa camada poeira. 
Não, não, nada disso era meu. 
Decidido isso, encostei a cabeça e apaguei de novo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Muita mobilidade e pouca noção

A mulher tava falando, mas metade dos que estavam ali estavam mesmo conseguindo escutar. Não que ela tenha criado uma atmosfera anti ruído com algum objetivo malévolo envolvido para pegar desprevenidos algumas dezenas de inocentes interessados dando sopa. E também não tinha nada a ver com o volume do microfone. 
Quanto aos que não ouviam, certamente não era por estar desprovidos de suas competências auditivas, mas sim muito provavelmente das sensoriais (de senso, do bom deles, especificamente) já que não conseguiam desgrudar dedos e olhos e sabe-se-lá-mais-o-que de pequenas, médias e relativamente grandes telas brilhantes.
Enquanto ela falava, os olhos e dedos se moviam quase com vida própria na platéia, e os olhos em volta reforçavam um pouquinho do constrangimento que os respectivos lábios retorcidos demonstravam.
Mas do palco ela prosseguia, maravilhosa e inabalável, derramando dela mesma pra quem quisesse (e também pra quem não quis) ver, ouvir, perguntar e aplaudir depois. 
Quem não ouviu, aplaudiu quando acabou, mas eu tenho aqui minhas dúvidas se eles sabem mesmo porque tavam fazendo isso. Talvez porque fosse (finalmente) a hora de ir embora.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pé na bunda e a terapia feminina da cura

Quando ele terminou de falar e 40 segundos após o silêncio constrangedor, eu tomei coragem e perguntei que raios significava tudo aquilo.
E sem nem pensar muito ele disse que só significava que até ele esquecer tudo o que tinha acontecido, ia ser assim. Um porre. 
Que lindo. A personificação de um porre, ao vivo e a cores, sentado na minha sala, perguntando que horas saía a próxima rodada de café (aquele já tava frio mesmo). Enquanto ele olhava (e será que eu não ouvi uma coruja piando lá fora?) eu gaguejava estrategicamente, pra dar mais uma chance de entender todo aquele rolo e responder aquele coração pré-faniquito.
Antes de eu terminar de abrir a boca, ele continuou. E quanto mais ele falava, menos eu entendia.
Ele não quis explicar bem o que aconteceu e pra ser sincera também tratei de abafar as trinta primeiras perguntas. Depois de quatro horas ouvindo a mesma história podia ficar um tanto constrangedor voltar pras partes básicas da questão que eu tinha perdido.
No final da noite (e não sei como) ele já estava oficialmente morando no meu sofá. O porre era ele e pelo jeito fui eu que acabei apagando em algumas partes.
Eu como uma boa exemplar do meu gênero, tratei logo de medicar o pobre coitado com brigadeiro, uns testes de revistas e uma coreografia nova da música velha (porém inesquecível) das Spice Girls. Sempre funciona. Bom, ainda não funcionou, mas nesse caso deve ser o gênero dele que complica tudo.
Pensei também em levar ele pra visitar meu cabeleleiro no outro dia e depois quem sabe passar comprar umas roupinhas novas. Tudo pra evitar a partida em direção a prateleira de cervejas do mercado (e as outras novas 4 horas de mimimi que viriam com aquilo).
Bobagem, não ia precisar de tudo isso. Pelo jeito ele não ia sair tão cedo daquele sofá. Ele dormia agora melhor do que eu seria capaz. Solidária, desliguei a televisão, joguei uma coberta por cima dele e apaguei a luz. 
Amanhã vai ser outro dia pra você também.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tá bem

Ele passou a noite no xilindró.
Aconteceu na rua qualquer coisa, ele fez que não era com ele e tratou rapidinho de carpir seu trecho.
Mas acontece que a onça que ele resolveu cutucar de vara curta era mulher. E pior, a mulher errada. Mulher do Seu Poliça.
Passou a noite no xilindró.
Então de manhã quando chegou em casa, deu de cara com a mulher e tratou logo de se explicar do grande mal entendido, que não era nada, ele só tinha enfurecido a mulher errada.
Acontece que a mulher nem quis saber como foi que o marido Dito Cujo tinha feito pra isso acontecer. E antes de conseguir se explicar direito já tava lá ele de novo, pra passar a noite no xilindró.
Dessa vez por crime reincidente, mexer com a mulher errada (que dessa vez era a que ele chamava de amor).
- Dito Cujo vai ficar bem?
- Ah vai. Só depende de bem o que... se for lascado, tá bem.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Uma luz no fim do banho

Fechei a porta liguei o chuveiro, tirei a roupa e joguei tudo ali por cima.
Sentei no tapetinho (pra não gelar a bunda) e fiz de conta que aquele box transparente me separava do resto do mundo.
Eu era a Rainha do Azulejo Branco e o box era o limite do meu castelo.
Então deixei que a água morna desse conta dos pensamentos espoletados, igual oxigenada na ferida ardida.
Até limpar bem o que tava sujo.
E quanta sujeira que saiu. Tinha água escorrendo até pelos olhos.
Então foi ensaboar esfregar enxaguar. E secar até que tudo ficasse como parecendo pronto pra outra.
E dai eu estava. Foi só arrematar com o perfuminho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Motim na noite de Curitiba

E no meio da noite, com a luz do poste entrando pela janela, ele desapareceu. 
Só o travesseiro amassado podia confirmar que o sono tinha mesmo estado ali um pouco antes.
Saiu e levou embora com ele todo o ideal de repouso e descanso que a dona tinha imaginado pra ela antes de deitar.
Pulou pra rua e foi andando e sem querer puxou com ele o fio de toda imaginação que ela guardava dentro da cabeça. 
Enquanto a linha se soltava acendia uma e outra (e outra) luzinha da idéia. E ela ficaria piscando sem fim suas luzinhas até que a noite fosse embora. Até o cansaço vencer a briga no tapa.
E no outro dia, ao perguntar porque raios a idéia não sossega quieta pra se manifestar depois, outra hora (em um horário de família de preferência), a cara-de-pau ainda alegou legítima defesa, já que não pode geralmente ser ouvida (de forma satisfatória, enfatizou) durante o dia, de tanto que a dona arruma o que fazer. 
Meu palpite gira em torno de uma ação em conjunto. Talvez um motim. Estamos aguardando o resultado das investigações.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Criminosa

Eu confesso, eu fui mexer na ficha dele.
Eu queria ver a ficha pra ver a data do aniversário pra ver o signo e pra ver se combinava com o meu.
Não importava muito se ele era boa gente, trabalhador e fiel, não claro que não. Eu também não ligava muito pro signo dele também, eu só estava querendo uma encorajadinha do universo, assim sem compromisso.
Então eu esperei todo mundo descer pro almoço, abri o arquivo e mexi na ficha dele. 
No fim das contas nem gostei muito do que descobri, porque não simpatizo nada com o que significa aquele aniversário. Enquanto eu refletia quanto meu esforço não tinha valido o crime, fui pega com a boca na botija.
A colega-amiga escapou da sobremesa porque tava de regime. Fiquei meio aliviada em olhar pra trás e ver que minha testemunha era uma mulher. Só uma mulher pra entender a importância de um ato extremo como aquele.
Quando eu terminei de explicar tudo ela ficou bem animada, até porque ele era alto e lindo e o signo combinava perfeitamente com o dela.
Aceitei a derrota com meio suspiro. O crime não compensa mesmo, afinal.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Depois que eu for

Não tive tempo de falar tudo que eu gostaria.
Ele sumiu, morreu, foi embora, pouco importa como foi. Na minha vida ele não existe mais. 
Só ficou ainda o que, talvez por causa do temporal, da pressa e das barras molhadas, acabou esquecendo encostado num canto. 
Talvez até tenha me deixado ali de propósito, como naqueles filmes que o mocinho só te deixa ler a carta colorida depois que ele estiver bem longe.
Eu que não deixei nada pra ele além de um olhar todo calado. 
Tudo o que eu senti guardei pra mim.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Escafedeu-se

Eu não sei bem como foi, porque eu cheguei na parte em que ele corria como um diabo corre da cruz. E como corria, aquele diabo. 

Parei em frente a porta meio sem entender pra onde ele tava indo com tanta pressa. Também não entendi como ele tava indo tão depressa. Só cheguei a tempo de ver o rastro que acabava de dobrar a rua.
Quem sabe ele tenha tido alguma ajuda (e aqui podemos concordar que ajuda talvez ainda não seja a palavra apropriada) pra sumir na curva e acabar com essa historia
(de amor)
até porque roupa suja se lava em casa e o diabo deixou todas bem largadas por aí (pra qualquer um lavar) 
Então quem é que pode me julgar por ter fechado a porta atrás de mim, sem esperar por nada mais que pelo café que estava por coar. Duas colheres de açúcar, as cortinas fechadas e um bilhete que não apareceu embaixo da porta mesmo depois de amanhecer. 
Nunca mais então acreditei em amores e diabos e roupas por lavar. 
Apenas o café continua real. Saúde.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pra frente

Totalmente consciente do caminho, ele ia. Não precisava ninguém dizer que ele fugia, apesar que seria de grande ajuda se grudassem as mãos na sua camisa, dessem com as costas dele em alguma parede áspera e dissessem de que ou pra onde ele fugia. Ele continuava apenas indo, seguindo o que já tinham dito que era intuição ou instinto, ou um outro nome bonito que também servisse de desculpa pra ele não parar. 
Ignorou as ofertas de café e chá que encontrou pelo caminho e nem mesmo aceitou as bolachas. Ensaiou um sorriso ou outro (obrigado), mas de verdade não estava muito preparado pra conversar. Não iria fugir também da conversa, nem do tema (seja lá ele qual fosse), só continuava andando porque achava que isso era o melhor a oferecer no momento. E com certeza ainda era melhor do que sentar naquele banco fresco embaixo da fresca sombra daquela árvore logo ali. Deu uma beliscadinha no braço pra afastar a idéia e continuou. É melhor mesmo seguir em frente. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Simpatia pra pereba




Colo de mãe cura tudo. 
Remédio, colo e cafuné é desde os tempos remotos, a simpatia mais certeira pros mais diversos tipos de perebas.
Até aquelas grandonas mesmo.
No colo da mãe a injeção ardida dói menos. 
E é sabido que com cafuné é bem mais fácil encarar aquele remédio danado de ruim.
Atenção mães, não tem nada mais importante que isso:
Remédio quando precisa, e colo e cafuné 3 milhões de vezes por dia.
É tiro e queda e tchau pereba.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Um zóio cá

E na curva do caminho, o marcador caiu do livro lá pro meio do ônibus.
Eu fiquei dividindo meu olhar aqui e lá aqui e lá medindo os palavrões pra levantar.
De repente me dei conta da vizinha de banco falando no celular, e da fulana lá na porta gritando confidências pra amiga (que se não era surda, agora...)
Um cara olhando esquisito pra mim. Eu olhando esquisito pro marcador me apurrinhando ali do chão.
De repente eu não sabia mais o que eu tava lendo. 
Respira. Eu estou aqui e agora. Ônibus. Livro.
(o marcador!)
Duas frases, um olho aqui e outro de fianco pro bendito, e percebo que eu tenho mesmo que pegar ele de volta; eu estou na metade  do livro e se usar a orelha, amassa tudo (dai não)
Aqui e agora eu sou um pé lá e outro cá, abaixa, se estica (e puxa) pra resgatar o tão nobre pedaço de papel.
Ufa. Aqui e agora tuuudo está bem. Pronto, agora expira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Número 33

Tava fazendo meu caminho da roça, sentada no ônibus, quando senti aquele perfume conhecido. O perfume que eu mesma escolhi pra dar de presente.
Por reflexo levantei o nariz do livro e de rabo de olho bem que parecia ele mesmo. Meu papi amado.
Eu sabia bem que não podia ser, mas virei o rosto pra olhar direito mesmo assim. Claro que não era. 
A mão até que parecia, era grandona, mas não aquela mão número 33. O cabelo meio grisalho e a pele queimada de sol. De rabo de olho convencia.
Faltava também meio metro pra cima e outro pros lados, mas pro faz de conta já tava bom.
Fiz que ouvi qualquer recado, curti o perfume, a presença. Baixei o livro e fechei os olhos e fiquei curtindo aquele agora.
Até abrir os olhos e não sentir mais nada. 
O cara ainda estava ali parado do mesmo jeito, mas francamente, como eu pude confundir...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Viva Bukowski

O bonitão chegou abrindo a porta, em seguida a geladeira, me encontrou jogada na cadeira olhando profundamente para o nada.
Ei - ele começou - não se cobre tanto assim. Deixa que eu cobro por você.
- Cara, você não entende. Eu não vejo nada, não ouço nada, nada clica. Nada clica, dá pra entender? Aquela tela branca pisca o ponteiro, me desafiando. Jogo um monte de letras, e então palavras e elas não combinam. Quando tento apelar pro bom e velho bloquinho (companheiro de todas as bolsas) quase posso ouvir a risada que vem daquela imensidão branca. Deixo tudo pra trás e saio andar por aí, olhando tudo, mexericando, perguntando e nada clica. 
É minha amiga, é por aí. Abre esse olho, apura esses ouvidos e bota a mão na massa. E se não tiver nada melhor, escreve aí do bonitão que chegou na sua casa abrindo a porta e em seguida a geladeira, que te encontrou toda jogada na cadeira pra dizer, ei não se cobre tanto assim... deixa que eu cobro por você.
- Muito engraçadinho você.
Ele virou as costas e foi pro seu mundo, eu virei as minhas pra ir pro meu e comecei:
"O bonitão chegou abrindo a porta, em seguida a geladeira..."
É bom voltar a escrever.

(Vale ver, "Você não consegue escrever uma história de amor", Bukowski)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Upa!

Ela devia ter uns dois anos.
Estava frio e ela estava no colo do pai, coberta por um daqueles casacos muito quentinhos com orelhas de ursinho. Aquelas orelhas de ursinho lhe caíam muito bem, inclusive.
Ela dava tapinhas no rosto do pai dando risada, enquanto ele tentava sem muito empenho se desviar desses terríveis ataques.
Então ela desistiu, colocou seus bracinhos em torno do pescoço dele e jogou todo o peso do seu corpinho nos braços dele.
Uuuupa, mas que abraço gostoso!
E o olhar dele dizia, ele tava falando a verdade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Acha que cola?


Me contou a história toda até o final, do jeitinho que ele tinha ensaiado.
- E ai, acha que cola?
Cola, cola. Vai lá que eu estou torcendo. Vai dar tudo certo.
- É... mas é que é meio mentira né? Não gosto disso, se eu esqueço um pedaço daí vai complicar tudo.
Complica nada. Vai lá que vai dar certo. E me liga quando tiver voltando.
Então dei aquela batidinha de leve nas suas costas, e ele pegou sua história, estufou o peito, abriu a porta e foi a luta.
Só quando já era tarde demais lembrou de ter deixado a cara de pau em cima da mesa. Bem que reparei que o telefone tocou mais cedo do que eu tava esperando. Mas agora pelo jeito não adiantava mais ir ajudar.
O coitado levou um chute bem no meio da coragem, muito antes de poder terminar de contar o causo.
Ouvi depois a mãe dele dizendo que já sabia que não ia dar certo e depois mais uns três vieram dizer também. Refogaram pra janta o que sobrou da esperança do cara com o resto da paciência que ele tinha trazido.
Encontrei ele num canto, sentei e falei tão mal da véia quanto eu consegui improvisar. Eu gostava dela. E ela nunca ia saber o que eu tava falando.
Agora ele parecia até mais aliviado, sentiu que não era o único desfavorecido pela estupidez desembestada daquela mulher.
Fui dormir todo orgulhoso da minha boa ação do dia. Eu tava ficando bom nisso.
Até que aquele imbecil resolveu contar tudo pra véia. Fizeram as pazes.
Agora era eu que tava ensaiando história.
- E ai, acha que cola?