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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Assombração

Eu estou sendo assombrada. - Foi assim que comecei a contar pra ela.
E ela claro, já foi retrucando dizendo que tudo isso era por causa daquele seriado estúpido que eu andava assistindo. Não adiantou muito tentar explicar quanto eu achava que era um caso bem diferente. Mas ela continuou me dando corda pra falar, então continuei:
"A noite quando está tudo escuro e eu saio andar pelo corredor (sozinha e desprotegida), escuto uma voz fria sussurrando bem perto do meu rosto, dizendo assim: não vá, fique aqui onde você está." E geralmente é bem nessa hora que estou no quase ali pra começar alguma coisa nova. Ela me pega no pulo e eu volto correndo pro meu quarto.
- Ah, então você tinha razão - ela finalmente entendeu - isso é mesmo um caso de assombração. Eu conheço isso pelo nome de mesmice. Faz assim, da próxima vez que essa voz te sussurrar, manda ela catar coquinho que sempre dá certo. Não tem erro.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Brinquedo velho


Cheguei em casa e vi ela encostada num canto, há muito abandonada por mim.
Não tenho tempo nem vontade - eu dizia - mas agora vai ser diferente. Não foi.
Diferente era quando a gente dançava tresloucada na sala, canto dança e figurino, fingindo não ligar pra vergonha do vizinho se ele nos escutasse.
Diferente era quando de tantos planos, eu mal conseguia dormir.
Então sentei do outro lado da sala e fiquei olhando ela ali, só ocupando espaço.
Ei, volte! - ela me dizia - Não me deixe aqui sozinha, vamos brincar como a gente sempre fez.
Eu continuei olhando, fiz beicinho e sai dali direto pro que eu estava fazendo antes de sentar.
Cantar sempre foi minha sobremesa favorita. Hoje não consigo me lembrar o sabor que isso tinha.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Café da manhã


De manhã a mesa posta estava toda ali só me esperando.
Então sentei e comi com os olhos minhas opções. 
Adocei meu café e me servi. 
No primeiro gole, o gosto forte das palavras; aquelas que não descem, aquelas que não tem coragem de sair.
E pro recheio do pão, eu resolvi engolir só o que me saliva a boca. 
(mas as vezes acontece de vomitar o que faz mal)
O resto fica ai na mesa posta, pra outro dia, pra quem apetecer...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

De cama

EU OLHAVA pela janela e via tudo lá, as coisas como sempre estiveram.
O acontecer acontecendo, continuando. O meu também, inclusive. 
Só que enquanto eu olhava ali, eu tinha menos consciência do que acontecia em mim, pra botar reparo no que acontecia lá fora. 
Sentia saudade, vontade, o que quer que seja. Um punhado de coisas. Talvez o que eu tava sentindo tivesse até um nome feio.
E ninguém me via enquanto eu olhava. Quem sabe eu estivesse só sonhando. É, provavelmente era isso mesmo.
Eu estava sonhando que da minha janela pra dentro ninguém podia ver, nem me ouvir, mesmo que eu batesse com força a mão no vidro. 
bam. bam. bam.
Mas nada acontecia. Eu estava sonhando que as crianças ainda brincavam lá fora, com os cachorros correndo em volta, e os vendedores insistindo em insistir. Lá fora tinha sol, tinha barulho e tinha cor. 
Aqui dentro só tinha eu e a minha janela num fundo meio azul. 
Foi só um sonho sim. Mas já tá quase acabando.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mau tempo



QUANDO acordei, achei que tinha esquecido tudo.
Não sabia onde tinha enfiado a vontade nem a inspiração.
E eu tinha certeza de que eu tinha deixado tudo no lugar, antes de dormir.
Procurei nos armários, no meio das meias, nos bolsos da jaqueta e naquela bolsa que eu quase não uso.
Revirei a casa toda.
No fim, tava tudo escondido dentro da sombrinha pendurada atrás da porta.
Como eles foram parar lá é que não sei. Acho que queriam me fazer surpresa.
Fazer essa temporada de chuva que vem vindo, mais recheadinha de sabor.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Coisa de criança



QUANDO eu era pequena eu não gostava de ler (gibi acho que não conta)
Mas eu gostava de livro, achava tão bonito.
Eu me pendurava na estante pra ver os títulos (e aqui você pode imaginar a alegria da minha mãe quando eu fazia isso) até escolher um.
Dai então eu sentava no chão e botava a mãozinha na capa, fechava os olhos pra me concentrar e tentava adivinhar tudo o que podia estar escondido ali.
Mas fui vencida. Tive que começar a abrir os livros pra descobrir o que tinha dentro.
Hoje eu sou grande, mas eu ainda quero uma estante enorme (e cheia) pra me pendurar...


(Madame Gaston, mas que horror!)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Bonito ser feio

Veja a que ponto chegamos.
Antigamente, qualquer pessoa em seu perfeito juízo concordaria em resumir em uma única palavra minha situação neste momento: descabelada.
Mas hoje em dia, com essa sociedade deturpadora de valores, a sentença máxima que os descabelados conseguem é: uma pessoa de personalidade forte, com estilo e ligeiramente selvagem.
Num nível superior, claro. Eu ainda me encaixo no cabelo sincero.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Troca de turno

A LUZ do poste apagou assim que eu passei embaixo dele.
Obrigada - eu disse - deixa que eu assumo a partir daqui.
E continuei andando, achando a maior graça da minha piadinha...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Preconceito

PRETO assim, não gosto. Olha isso.
- Ui! É mesmo, que horror...
Ai vida, não dá! O que eu vou fazer com esse tempo?
- Amiga, com o céu preto desse jeito, o que você faz é alugar uma nau, um jet ski... 
(ou ir pra casa a nado, é mais heróico)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sobre perder



QUANDO o vento sopra e leva embora 
  a página com a melhor parte da história 
 e você continua sentado aí porque sabe que não pode (não deve ou não adianta) sair correndo atrás.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Pesquisa Científica

Foi comprovado.  
O Instituto de Pesquisas de Genética Masculina realizou uma vasta pesquisa nos últimos anos e as nossas dúvidas foram esclarecidas:  homem não aperta a descarga porque tem pobrema. Falha no sistema. Veio com defeitinho.
É, pois é. 
Porém meninos, há esperança. Também foi comprovado pelo Instituto, que o ato de dar a descarga após usar o vaso sanitário não causa nenhum dano ao usuário, como se pensava até então. Eles fizeram várias experiências e 100% dos voluntários saíram dos testes totalmente sem ferimentos. Não é fantástico?
Um viva para a ciência!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ah, esse Jerico...

CRIAÇÃO é um bicho esquisito.
Você acorda e enxerga tudo diferente. E claro, tudo fica lindo.
Tudo é possivel. A vida é linda mesmo como dizem por aí.
Pra cada canto que você olha, uma idéia nova.
Você já sabe a cor que vai usar, e onde aquilo tudo vai ficar depois de pronto. Já fez mentalmente até um texto com ilustrações sobre o processo de criação pra mostrar depois pros seus amigos.
Tudo isso só porque teu santo criador cruzou com outro ali na esquina no caminho pra padaria.
Ou porque acordou com o encosto da criatividade.
Tanto faz, enquanto dura é muito bom. E depois deixa uma saudade...

sábado, 2 de julho de 2011

De novo

ESCREVI no caderno minhas mágoas, todas 
  pra ir resolvendo uma por vez. 
Pra riscar da lista. Desacumular.
Mas tudo que vejo enquanto a lista aumenta, é o número de vezes que eu me deixo magoar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Só uma idéia

Ele veio dando aquela risadinha que eu já conhecia,
cochichou, cochichou
Tapou o riso na boca e saiu correndo.
Ah Jerico véio, ninguém te segura mesmo né...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ela já volta

- ALÔ? Oi, não, ela não está. A esperança deu uma saidinha. Foi passear no sol e comprar flores. Ela volta logo, eu acho.
Eu to aqui enquanto isso, fazendo o que sempre fiz, da maneira que sempre fazia...
Enquanto espero esse comercial passar.
Mas ela já volta, quer que eu peça pra ela te procurar?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Vamo vamo vamo vamo

Meus olhos não queriam abrir.
O celular não queria parar de tocar.
Meu corpo não tava lá com muita pressa de se mexer.
Mas meu sono, assustado, foi corrrendo embora.
Era um motim.
Mas eu, precavida que sou, obviamente tinha um plano. Fiz minha melhor voz de General e comecei:
ATENÇÃO TODOS OS COMANDOS - ATENÇÃO TODOS OS COMANDOS
Olhos, pé direito, pé esquerdo e bom humor: SENTIDO!
Roupa, sapato, café: CONFERE!
Cama, cabelo e louça na pia: DEIXA QUIETO E SAI DE FININHO!
Chave, beijo nas cadelas e uma jujubinha pra adoçar: AO TRABALHO, ORDINÁRIOS!
Mais umas horinhas e acaba essa trabalheira! 
MAAARCHEEEEEEE!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Enquanto isso, no picadeiro...

EU VINHA andando, super concentrada na morte do bezerro, quando ouvi:
- Uau, uma domadora de elefantes!
Tive três segundos para virar, pensar e responder:
- Ai, droga! É mesmo! Esqueci minha cartola em casa, obrigada!


(e sai correndo)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Metade do que?

O BABADO já estava rolando, e o público estava devidamente acomodado nas poltronas vermelhas de veludo. Tudo muito chique, com direito a roupas esquisitas (porém de gala) e todo aquele aparato chiquetê indiscutivelmente inútil (acho um tédio, uah)
Dai a luz do palco acendeu, o mestre de cerimônia tomou seu lugar e ligou o microfone (um minuto de atenção, senhoras e senhores)
Meu sorriso engasgou na metade quando eu ouvi que era meu nome que ele estava chamando (não pode ser)
Só tive coragem pra correr até o cantinho do palco e cochichar pra ele:
- Ei moço, você tá enganado. Ainda não é minha vez. Mais um pouquinho e já já eu fico pronta, tá?
Claro que eu tentei não ligar muito pra cara feia (mas muito fina) que ele fez. 
Voltei pro meu lugar do jeito mais elegante que eu consegui. Eu não ia subir ali só com a metade, mas de jeito nenhum, imagina.

sábado, 11 de junho de 2011

Quem não pede não ganha

EU ESTAVA sozinha em casa, pé de meia maranjada até o joelho, armada de brigadeiro na colher de pau e virada pro sol.
Então eu sentei no sofá e vi um filme engraçadinho mais esparramada do que precisava. Que era pra compensar.
Depois fiz minha dancinha clássica em cima do sofá e depois ainda fiz um solo com minha super guitarra imaginária, num show para milhões de pessoas dentro da minha sala.


Não, eu não fiz nada disso. Mas eu quero. (a gente já tá chegando?)


(A/C Deus:
Ô paiê, me arruma um dia desse assim que eu tô na precisança. Beijo).

sexta-feira, 10 de junho de 2011

E a cabeça não fosse grudada no pescoço?

FOI SÓ eu virar e começar a fazer o caminho pra casa pra ouvir
- Ei! Volte aqui! Espere!
E ficar no mesmo lugar, esperando
- Suas estrelinhas! Aqui! Você esqueceu elas comigo!
Pra pensar o quanto mais eu tinha esquecido ali com ela...