Mostrando postagens com marcador Contos da vida operária. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos da vida operária. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sequestro relâmpago da motivação

O ônibus parou no terminal e ficou.

Ficou parado de portas fechadas com todo mundo dentro.
O povo lá dentro se mexia e resmungava para descer, mas portas continuavam seladas.
No que pareceu muito tempo, mas no timing perfeito antes de qualquer escândalo, o cobrador se levantou da cadeira e, se ele tivesse o aparato ali naquela hora, com certeza bateria o talher no copo para começar o seu discurso.
Então a multidão que (ainda) se mexia parou por dois segundos, vendo aquele cara se levantar.
Ninguém combinou, mas todos seguraram a respiração até que ele terminasse de falar:
- "A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem!" Tenham um excelente dia pessoal!
Dez segundos de absoluto silêncio e então calmamente ele voltou a se sentar. E todo mundo olhou pro coleguinha do lado em busca de saber o que fazer.
Enquanto os ombros iam abaixando as portas também iam se abrindo, para finalmente libertar os sequestrados.
Saíram aos montes, os assustados, surpresos e os ofendidos, todos se virando para mais uma olhadinha para o que acabava de acontecer.
Inacreditável, de onde saiu esse cara? - eu ouvi um cara dizer - Será que ele é assim todo dia?
Não sei querido, mas algo me diz que amanhã teremos sua resposta...


(Ps: a resposta era sim.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

All the single ladies



Ônibus alimentador tem inveja de Ligeirão. Pela rua esburacada ele desafia o velocímetro (e o equilíbrio dos passageiros também)
Em pé ao lado da janela, na vaga do cadeirante (que é minha neste minuto) o vento entra e selvageia meus cabelos. E enquanto eu me seguro, treino meu olhar intenso para o horizonte.
Ah, se tivesse mais espaço, um colant e minha luvas, já começaria a cantar.
All the single ladies (all the single ladies)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pipoca

Aquilo chacoalhava mais que chacoalhão de mãe depois daquela nhaca.
Quando eu entrei no ônibus já tinha uma comentando algo sobre o estômago querer saltar fora do corpo.
Achei um exagero, mas mudei de idéia assim que fiquei sentada.
Eu bem que tava tentando conversar, levar na esportiva, mas a fofoca tava disfarçada de gagueira e enganando muito bem (e-e-e-e-ent-a-a-ao a-a-a-a vi-i-i-ida co-co-como t-t-ta)
Não tinha jeito, até porque era bem importante manter o esforço pra permanecer sentada (que tava difícil).
Meu próprio dia de pipoca, estourando na panela alaranjada do boqueirão. Desfilando na passarela esburacada da vida.
No terminal, a porta abriu e foi só gente se pipocando pra fora seguido daqueles que tentavam se pipocar panela adentro.
Ah, terra firme. Não via a hora.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Raios e trovões



EU AINDA não aprendi a gostar de dia de chuva.
Talvez porque eu nunca consigo dormir e depois não sei como (se eu não dormi), não consigo acordar. 
O cabelo vira aquela paçoca, a sombrinha - que serve pra que mesmo? - molha a mão que tá cheia de creme e vira uma meleca.
O sapato deixa molhar a meia, e que se não molha a calça, o carro passa e te dá um belo de um chuá. E depois passa o ônibus (e chuá)
A bolsa que molha, que molha o livro que molha o celular, que daí fica o dia inteiro dando faniquito.
O joelho molhado. A jaqueta molhada (e curta) que pinga na bunda. É, na bunda mesmo. 
E o capuz que fica guardando água pra depois.
O All Star que escorrega (e que se leva tombo, molha a bunda de novo)
Em dia de chuva todo mundo tem mais pressa e ninguém anda. 
Congestionamento de sombrinha embaixo da marquise. Congestionamento de gente na cidade inteira. 
Ainda bem que sombrinha não tem buzina.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sr. Gentil

O ÔNIBUS estava parado no sinaleiro e eu, a uma boa corrida até o ponto. 
Calculei as minhas chances e desisti, nããããão, eu não tava no páreo pra encarar aquela pernada. 
Então conformada com meu destino, fui caminhando normalmente, quase como se não estivesse vendo aquele ingrato passar sem me levar junto.
E quando olhei bem, tava lá ele, bem paradão no ponto (batendo o pezinho)
E continuou parado até que tivesse colocado eu e minha vergonha pra dentro do ônibus. 
- Não quer ir embora hoje não é? Achei que ia ter que dar a ré pra você me alcançar.
(É, pois então...)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Capitão Boing

OS PASSAGEIROS estavam se juntando num time.
Um cochichando estratégias pro outro, explorando posições pra continuar em pé 
  enquanto o ônibus treinava as piruetas que aprendeu um dia antes no grupo de balé.
A cada sinal fechado sete freiadas em sequência, e um strike (10 pontos!)
Nada disso, jogo errado - ele virou pra me corrigir.
Vocês nunca brincaram de vivo ou morto? Se prepara aí que tamos chegando no sinal...
Vivo! (freiada)
Vivo! (freiada)
Morto! (freiada) (poft) 
Mas vocês não acertam uma, hein? De novo!

sábado, 23 de julho de 2011

Sabadabadu

SÁBADO bem de manhãzinha ainda é sexta feira à noite pra alguns.
Praqueles que ainda juram amor eterno pro pega da noite no degrau da entrada do bar (enquanto a mulher termina de varrer a porta da frente)
Pro cara que errou a curva e macetou o carro no poste (e não sei como andava o carro, de tão velho, e não sei como andava o cara, de tão bêbado)
E enquanto esses ainda seguram o que resta da noite de sexta, as lojas já vão abrindo as portas.
O lixeiro bota a vassoura nas costas pra ir embora.
A cidade abre os olhos.
É oficialmente fim de semana.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Rotina

Pi-pi-pi Pi-pi-pi Pi-pi-pi
Pi-pi-pi Pi-pi-pi Pi-pi-pi
Pi-pi-pi Pi-pi-pi Pi-pi-pi

5:50 da manhã. Sexta feira.
45 segundos é o que preciso pra voltar pra realidade. Opa, sexta feira. Maravilha.
“Obrigada Pai por este dia, me tire por favor dessa preguiça destruidora que eu estou sentindo e que o fim de semana chegue logo. Amém.”
Hora de sair da cama.
O gemido da cama sincroniza com o primeiro latidinho na porta - eu sei que você já acordou, mamãe! - já vou... perai...
Quando eu abro a porta, eu nem abri meus olhos ainda, mas as duas já estão com todo o pique, me dando abraço e beijo e toda alegria que elas acumularam durante noite. É muito amor, mas eu aguento (tão dificil)
Então eu pego as duas e derrubo pra coçar aquelas barriguinhas antes que elas se enfiem na minha cama enquanto eu me arrumo.
Agora sim, o dia já pode começar! Bom dia!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A revelação

A mulher chegou e sentou do meu lado, botando o salãozinho em polvorosa:
- Vocês ouviram no rádio? O marido descobriu que a mulher dele arrumou outra, e dai disse que ia entrar ao vivo ao meio dia pra revelar umas verdades. 
- Revelar o que meu deus do céu... - uma começou.
- Ah, que é gay, tenho certeza.
- Ou que arrumou outra. 
- E que não vai embora sem levar os sapatos dela. 
- Que ela é o amor da vida dele e ele não vai deixar ela ir.
O salão inteiro destrinchava as possibilidades.
- Ai gente, não sei! Tava esperando que vocês pudessem contar pra mim, não pude ouvir meio dia!


Ah não, e agora???

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Essas mulheres

Eu desci a plataforma para esperar o próximo ônibus, 
  olhei em volta para escolher meu lugar. Escolhi o sol, claro.
Parei ao lado de uma cadela que tomava seu banho de sol de olhos fechados. - Bom dia, tudo bem?
Tudo.
Acho que ela não tava a fim de muito papo. Deve ser TPM.
Mal abri meu livro e ela já estava dando uma bufadinha. Que que é?
Ah essas mulheres, quem entende?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Só no sapatinho

Ponto de ônibus.
Uma fila enorme de carros parados no sinal fechado.
Do nosso lado, um carro branco com um super equipamento de som. 
Daqueles que bom-bomba.
O velhinho do meu lado começa a dançar, joelho pra cima joelho pra baixo
(joelho pra cima joelho pra baixo)
E ai, em três segundos:
Ele olha pra mim e o joelho pára onde tava (joelho pra baixo)
A mão dá uma coçada no queixo, a cabeça vira pra lá e o joelho vai voltando pro lugar bem devagarinho pra ninguém perceber que ele não tava lá antes.
Dai foi minha vez de olhar pro lado e segurar o sorriso pra dentro da boca.
Pode dançar, ué...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Super poderes

Eu mal tinha sentado no banco da janela e tirado o livro da bolsa, quando o sujeito que sentou do meu lado começou:
Mas que livro grande você tem...
E continuou, jogando verde e o resto todo do arco-irís junto.
Até deja-vu comigo ele tinha tido. Mas ah vá. 
E quando eu disse não pro convite pro cinema, ele disse que ia usar todo seu pensamento estratégico pra me convencer sair com ele. 
Mas ah vá número dois, que eu vou usar então do meu pensamento criativo pra sair dessa em dois tchum, meu rapaz.
Mas fui salva pelo gongo, ele desceu antes que eu. 
Cada maluco...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Liquidação rapa-estoque

CORRA! Garanta já o seu!
O gerente acabou de informar que temos apenas DOIS graus no estoque pro dia de hoje! 
O resto já foi tudo...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Corpo de Ballet Biarticulado Boqueirão

Primeiro ligue o som. 




A MÚSICA que tocava ali não combinava.
Não combinava com os rostos meio murchos do fim do dia, mais murchos com aquela luz que dava seus últimos suspiros.
Nem com aquele trânsito todo parado atrasando nossa vida.
Também não combinava com o ciclista tremendo de frio debaixo daquela chuva.
Nem o furor da música clássica foi suficiente pra levantar o astral daquele povo. 
Tava até parecendo de propósito, aquela música. Aquelas caras. 
Até a cor do fim de tarde nublado tirava sarro daquela alegria toda. 
Mas o maestro nem ligou. 

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sabe aquele barulho?

O nariz funga e o corpo chia

A cabeça dói e a voz nem sai
Solidário, até o ônibus espirra quando abre suas portas.
(saúde)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ô ilusão

TINHA terminado o livro na viagem da manhã, 
  e voltando agora, não tinha nada pra ler.
Vou então, estudar as músicas que preciso pra depois. 
Foi só pegar o macinho com os fones e engatar 
  que cheguei a conclusão que seria muita inocência minha 
achar que eu conseguiria desembolar aquilo antes de chegar onde eu devia.
E foi mesmo. Mas como teimoso é quem teima comigo, eu tentei.
1x0 pro fone de ouvido. 
Viu porque do livro?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Meu trabalho


AQUELE ponto preto ali é o Bidu.
O meio do pátio. É bem onde ele gosta de ficar.
É onde sempre bate sol, onde (quase) ninguém resiste não trocar umas palavrinhas com ele quando passa.
Claro que o patrão é um dos que consegue resistir muito bem a isso.
E também o caminhão de areia que chega todo dia dando aquele FÓÓÓÓN no soninho de beleza do peludo. 
Mas o Bidu continua firme e forte, aprimorando o bronzeado no caminho do portão.
Claro que ele tem sua moradia própria dentro do condominio canino que fica aqui do lado.
Mas o sol do pátio é muito melhor, pra que desperdiçar...
Então o Bidu só levanta um pouco a cabeça pro lado e dá uma resmungadinha simpática, como quem diz:
Passa ai depois tá, que agora tô no meio de uma coisa...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Luz de cima

SÓ COMEÇA a anoitecer depois que eu perco o ônibus.
E contra a luz e a favor da miopia, não enxergo muito mais que uns faróis passando por mim. (farolzinho farolzão)
Não me assusto se um dia eu acenar pro motorista errado, 
  só porque vi aquelas luzinhas da esperança chegando.
(É 2,50 né?)

Mas moça...

TAVA AGARRADA no postinho do ônibus como se estivesse numa montanha russa.
(é, talvez estivesse mesmo meio parecido)
Ela não deixava ninguém se segurar, ninguém passar 
 e bem pediram com licença antes de tentar 
  a infálivel tática do empurrão.
Nada. Ela continuava imóvel.
Pelo jeito ela não pensava em se soltar tão cedo dali. 
Já pensou quando recolherem o ônibus as 23:57 no terminal do Capão Raso, e ela ainda agarrada ali, só faltando gaguejar
- Na-a-a-aooo, tô bem aqui! Eu vou ficar! Podem ir!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Diversão não tem hora



EU PERCEBO que estou chegando num nível crítico de seriedade quando reparo os outros brincando com a rotina mais do que eu costumaria brincar.
Tipo uma mulher que tava se segurando no poste ônibus,
  e se movimentando toda exagerada conforme o balanço
Como se tivesse num daqueles brinquedos de play center. 
(iuhuuuu)

*
Sério, vejam esse depósito de maravilhas: icanread.tumblr.com