segunda-feira, 14 de março de 2016

Não tem

Não tem buraco. Não tem vazio.
Todo peito é cheio - cheio de ser. amor e pelos.
Quem eu sou e você é, pode encher uma casa inteira
E enche mesmo, é só abraçar a coragem de ser

Não tem buraco, tem só sobra - e como sobra
Tem o-que-a-gente-é caindo pelas beiradas (derramando)
Semeando flor e também algum espinho onde a gente passa
Cada um com o pólen que contém na bolsinha do próprio coração

Não tem vazio, acredite em mim
O vazio é bicho papão escondido embaixo da cama
Que some quando a gente resolve abrir os olhos
E porque não abrir os olhos?





segunda-feira, 7 de março de 2016

Notícia do dia:

As pessoas não estão aqui para te agradar - especialmente se você não é uma pessoa particularmente agradável.
O que elas fazem da vida é problema delas, o que você faz com isso, é problema seu.
Ficou triste? Adivinha: problema seu.
Ofendeu? Adivinha de novo: seu.
Você tem sempre a opção de deixar o/a bocó  falando sozinho/a. Sugestão: Deixe.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Chovendo purpurina

Se sentia apaixonada.
Pelo o que a vida trouxe e talvez principalmente pelo o que ela tratou de levar de vez embora.
Apaixonada por ser ela mesma e cada vez ser um pouco mais o que ela sempre devia ter sido - ela.
Apaixonada pelas possibilidades, apaixonada pelo cheiro do mar e do mato e por conseguir olhar em voltar e encontrar tanta beleza. Por conseguir enxergar a beleza em um mundo que anda tão pronto pra briga.
Apaixonada pois mesmo sem saber que caminho seguir, saber que está sempre um pouco mais perto de chegar.
Apaixonada por entender que tudo aquilo que buscamos no outro é o que deixamos de dar a nós mesmos e devemos sempre sempre sempre florescer. Oferecer nossas cores, nossas flores e deixar nossas sementes. 
Por agradecer por tudo isso, se sente em casa. Dançando de meias na cozinha em qualquer lugar que esteja no mundo.


Se avia

De pernas para cima
Você espera que tudo o que você quer
Venha ao seu encontro, simples assim
Caminhar pelo céu meu bem, ainda não chegou bem sua hora
Bota essas pernas pro chão e vai
Segue

quarta-feira, 2 de março de 2016

na cartomante - ?

eu vejo voce culpando todo mundo pela sua tristeza. vejo sua vida com frutos pequenos e sem sabor. te vejo amarga lamentando como a vida foi injusta com voce, e mesmo depois da cabeleira toda branca, se enganando achando que fez alguma coisa para merecer o que queria. te vejo distribuindo culpas para que os então culpados se redimam e te tragam alguma satisfação, enquanto voce continua sem se esforçar para nada. eu vejo voce implorando atenção daqueles que te queriam bem, mas que cansaram das suas mentiras.
vejo a vida te deixando viver solta, pra ver se o tempo passa e voce se toca de que viver não é só receber, é preciso dar, é preciso errar para saber como se faz certo, é preciso arriscar e se jogar, porque ninguém vai fazer isso por voce.

Sobre as borboletas que não vêem flores

I.
Aquele frio na barriga
Que a gente sente quando
Vai atravessar uma porta
Que provavelmente importa

II.
Aquele segundo onde o coração
Pára e pula um pouquinho de susto
Só porque aquele bendito nome resolveu
Pipocar assim de repente na sua tela

III.
Aquele sorriso com 57 dentes
Só na parte de cima
Quando se está tentando disfarçar
E aquele total de 103 quando a gente admite que não consegue mesmo
(disfarçar)


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Talvez em outro céu

Ele me chamava de anjo
E parecia realmente acreditar no que estava dizendo.
Anjo meio caído, só se for
Sentada desajeitada no meio fio, toda largada
Cabelo doido roupa esquisita e aquele jeito
Matutando pra botar as ideias no lugar naqueles 10 minutos de um cigarro
Pra depois voltar pro batente e bater as asas.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Tava chorando?

Ele me olhou e reclamou da minha maquiagem meio borrada.
Olho todo preto.
Não me importei.
Afinal quem é que não deixa sua máscara cair de vez em quando?

(Ás vezes ao invés de cair, ela escorre. Acontece.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Bolas


O que ela queria mesmo, é ser livre.
Mas sabia que não chegaria nem perto da liberdade, enquanto não tivesse bolas para isso.
Remexendo nas gavetas, encontrou uma coragem um pouco vencida.
Por sorte, não por muito - ainda dava pra usar.
Martinha deve ter esquecido aí quando se mudou para mudar (seu) mundo.
Preparada, pintou sua cara na sua cor, aquilo que de pior achariam dela.
Bicha. Bruxa. Preta. Gorda.
E mesmo com tanto resmungo dizendo que o caminho certo era o outro lado, ela foi.
E nunca na vida ela foi tanto.
Bicha. Feliz. Bruxa. Preta. Gorda. Livre.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Modelito de hoje

Ela me despe por dentro - invariavelmente - em cada conversa.
Suas perguntas cavoucam de fininho meu silêncio, só pra ter certeza de que lá nas minhas entranhas, não tenha sobrado nada que eu não tenha contado à ela.
Ela é assim um pouco louca, mas sim, um pouco linda também. Dramática e tão inventiva que deveria mesmo ganhar um prêmio.
Insuportável quando ela decide que vai ser assim.
Então guardo minha distância e meus poucos segredos, mesmo eles sem importância alguma, só para não entregar à ela mais do que eu estava planejando.
Se eu me visto de silêncio, bem... foi a roupa que escolhi para hoje.
E tudo bem.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Pois veja como são as coisas.
Descobri que tá tudo bem se eu resolvo seguir o meu caminho.
Uns vão reclamar pra você, mas superam rápido.
E tá tudo bem também se eu penso meio esquisito, tem sempre uns mais esquisitos por aí.
Tá tudo bem se eu não sonho o que queriam que eu sonhasse, ele continua sendo um sonho perfeitamente aceitável - e tudo bem também se aquilo que eu mais quero nunca passou perto do que imaginavam pra mim.
Tá tudo bem achar que sucesso é uma coisa diferente pra cada pessoa, e que ser mãe não é obrigação nenhuma. Tá tudo bem ser verdadeira com o que sinto e digo, tá muito bem, porque o mundo anda muito mentiroso e ficando doente porque não se conhece mais.
Tá tudo certo em querer diferente.
Ufa.

Não era igual

Uma vez passei quase um ano tentando mostrar pra um cara
Que eu era diferente das outras.
Pensando aqui,
Acho que pra ele, meu problema era justamente esse.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ligeiramente possessiva

Você foi embora e a casa é toda minha outra vez.
Corri pra botar minha voz, meu canto, meu som, meu cheiro e minha cor em tudo que estava desbotado pelo seu olhar tão severo. 
Naquele banco, flores frescas e brilhantes para celebrar a vida - você lembra que cor a vida tem?
Teu grito tentou aquietar meu riso. Teu olhar criticar a minha dança. Tua língua maldizer minha criança. Me escondi de toda graça de tanto ouvir que ser feliz era pecado. 
Pecado mesmo é viver nessa gaiola moral - onde a moral só da seu nome e nunca as caras.
Você foi embora e a casa é minha agora outra vez. 
Então me esbaldo com gosto nos meus absurdos, na fumaça das ervas cheirosas, na música que me arrepia e meus pecados horríveis todos. 
Feliz como um passarinho se banhando na poça de lama. 
A cor da vida não pinta quem tem a alma preta e branca.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Que só vai ficar maior

Ela subiu no ônibus a caminho de volta praquele mundão onde ela vive.
Ela vive em todos os lugares, porque o mundo inteiro é todo dela mesmo.
Por isso fiquei tão feliz por ela incluir neste mundo grande o meu mundinho que ainda é um filhote.
Ela entregou os documentos, virou e me viu com as mãos no rosto.
Não chora, logo a gente vai se ver de novo. 
Só de ouvir isso eu chorei mais, mas sem tristeza nem saudade.
Chorava só porque ela é importante. E eu também, mesmo num mundo tão grande.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Conta outra

Ele me veio com aquela frase que, se você não ouviu ainda, posso te jurar que não demora. Porque não falha, ela vem.
(É que eu preciso ficar sozinho agora)
Escorria bem aquela porção de lágrimas enquanto eu tentava entender o que tava acontecendo, mas era isso mesmo.
(Não é nada com você, o problema sou eu)
Era isso mesmo. 
Quer dizer, não era.
Bom, talvez seja eu que não entenda que nada representa mais a vontade de ficar sozinho do que duas taças de vinho postas sobre a mesa.
Talvez só perca para um biquini pendurado no varal.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Não sou só eu.

Aquele dia lindo chamando lá fora.
- Ah não, vou ficar aqui jogando video game...
O mar todo dengoso convidando para um mergulho.
- Nossa, mas tô com uma dor aqui, ó...
O prato cheiroso fumegando na mesa do almoço.
- Sabe o que eu ando com vontade de comer?
Ô menina, que cara é essa?
- Ah, nada dá certo pra mim, não dá nem vontade de viver às vezes.
É menina, eu imagino. Até a vida fica com preguiça de gente com tanta preguiça assim.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

De novo

Te encontrei dentro do livro e no meio do filme.
No meio daquela conversa, onde parecia que não se falava de outra coisa.
Meti a mão no bolso e lá estava você, no papelzinho daquele dia que era só mais um dia.
Ali ó você na música que já mudou, no disco que continua tocando e teimando comigo..
Então desisto.
Entra, vem - te faço um café - temos bastante pra conversar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sentou pra descansar como se fosse...

Sábado.
Levantou da cama, passou café, pegou o livro e foi ler na cadeira preferida da varanda.
Terminou o capítulo, fechou o livro, encostou a cadeira, lavou a xícara do café, a deixou para escorrer e assim preparada, morreu.
Quis ir assim, sem muito reboliço. Não queria incomodação nem depois de morta.
Simplesmente sentou, fechou os olhos e se deixou ir.
Um tanto banal, mas totalmente livre. Dona da sua própria morte.

(e flutuou no ar como se fosse um pássaro...)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Muda sim

De uma enxurrada de coisas novas, ele foi rir justamente do meu amor recém descoberto por aquele livro de poesias.
Eu que nunca fui de dar muita trela aos versos (uma vergonha, ele diria)
Nem a cidade, nem o trabalho, nem a intenção que também é toda nova, ou os babados todos.
Nada disso surpreendeu aquele coração da cor de poeta.
Mas foi só eu me rasgar por aqueles versos e o riso veio.
É, a vida muda mesmo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Garage Sale

Hoje escrevo em nome de todas as tristezas que tenho guardadas. 
Não há mais espaço. 
Pelos cômodos de mim elas se empilham e se amontoam e eu me sinto uma acumuladora, esbarrando em uma e outra enquanto passo.
Acumulando sentimentos que já não me servem. Emoções que já foram.
Então, pelo bem estar de todas as tristezas que tenho no peito, eu declaro que chega.
Hoje começo essa faxina!
Hei de me despedir de cada uma com amor para que plantadas na terra, não me dêem frutos que não quero.
Agora vai, tristeza, vai viver. Você já não cabe mais aqui.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Precipitação

Quando você vir me perguntar, vou logo presumindo que você espera de mim a verdade e largar: não quero te ver porque dói.
Não quero te ver porque detesto essa distância. Porque também detesto fingir que é suficiente sorrir amarelo e falar sobre o tempo.
Adivinha, não é.
Eu sinto a sua falta. Quero conversar direito, saber de você, dos seus dias, dos seus planos.
A previsão do tempo eu vi antes de sair de casa.
(Mas que raios)


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Quem sou eu?

As mesmas pegadas no chão do apartamento. 
A mesma cara do retrato em cima da cômoda. 
Quem será o novo eu neste admirável mundo novo? 
Comentam as bocas que nada há de novo realmente, mas definitivamente, nada aqui reconheço como meu. 
A mesma cara, mas não reconheço aquele olhar, mesma boca mas não suporto aquele tom, o mesmo eu e mesmo assim, não poderia ser mais diferente de mim. 
Anos luz de distância daquela cara do retrato. Da cômoda. 
Mesmo assim estou aqui, colecionando essas fotos, esses eus que vão ficando pelo caminho. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Uma lenda que não contaram

Era tarde e o velho varria. 
Da janela eu via sua sombra e me irritava um pouco aquele barulho tão perto do meu travesseiro. 
Abri a cortina e mostrei a ele a cara mais amarrada que consegui.
- Ah vocês - ele suspirou. Um dia me pedem pra ir logo com isso e no outro, não suportam me ver indo. Eu não ligo. Alguém tem que varrer o que sobrou do dia e não é exatamente como se tivessem muitos candidatos para o cargo, não senhora. Alguém tem que fazer.
Cansado, inspirou longamente, um pouco decepcionado por eu ainda estar ali. 
- Agora vá dormir, que acabando aqui você sabe, não demora já começa outro.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

De outro mundo

  NUNCA soube exatamente como era o nome dele. Sempre ouvira ele sendo chamado de dido, seja lá o que isso podia resumir de um nome ou significar de um apelido. Acho que era algum chamado carinhoso para tatatatataravô na lingua dele, que eu também não sei qual era.
Enfim, ele era meu tatatatataravô, como eu já disse. Um "tatá" (menos um nível) do meu pai. Ele morava num lugar que sempre demorava muito pra chegar, com estradas de pedra e barro e a casa dele era muito feia. E era meio fedida também. Ele era meio fedido. Eu tenho quase certeza que ele já estava meio morto quando eu o conheci, mas ninguém nunca comentou sobre o fato. Eu nunca fui com a cara dele, então também não me interessei muito em perguntar mais.
Eu não me lembro de muita coisa além disso, mas lembro muito bem de como era o cheiro ruim dele e como as unhas dos pés deles eram enormes. E como ele gritou quando a baba tentou cortar as unhas dele. Ele tava sentado na cadeira lá fora e definitivamente, ele não queria que cortassem as unhas dele. (Até porque eu acho que, ao menos que a baba usasse um machado, ela não iria conseguir).
A baba era a outra tatá, esposa do dido. Eu também não sei o nome dela. E eu também não gostava dela. Ela era um pouco malvada, baixinha demais para o meu gosto (eu era uma criança e ela era menor que eu). Ela me beliscava e queria me levar a missa. Eu fui uma fez e foi talvez a coisa mais chata que eu fiz na vida. A igreja era escura e feia e o padre não falava português. Eu era pequena demais pra sair de lá sozinha e voltar pra casa, então fiquei até o final. Quando acabou eu disse pra baba que foi a missa mais linda que já tinha ouvido. Eu não podia respeitar de verdade um casal com esse nome, afinal.
O dido me deu um mundo, um dia. Eu não tinha nenhum até o momento então peguei pra mim. Não sabia direito para o que servia, então fui morar nele só tempos depois.
Quando eu cheguei naquele mundo, tempos depois, ele ainda era novo, e era do jeito que eu queria. Eu podia inventar o que eu quisesse, quando eu quisesse, com quem eu quisesse. Era só quisesse. O tempo foi passando e eu fui ficando por lá. E fui crescendo. O mundo que ele tinha feito pra mim quando criança continuou do mesmo tamanho, mas eu fui esticado ele por um tempo e depois eu tive que ir me encolhendo pra caber dentro dele. Mas tava bom ali, era do jeito que eu conhecia, e eu conhecia cada canto do meu mundo. E quem mais tem um mundo só pra si? Eu tinha.
Eu já estava quase ficando velha quando resolvi me perguntar porque diabos eu continuava morando ali naquele mundo que o dido fez pra mim um dia. Eu nunca gostei dele. Sempre achei as coisas dele feias e fedidas. Comecei a cheirar em volta pra ver se não tinha nada fedido por perto, e pra conferir se tudo era bonitinho mesmo como eu imaginava.
Não era.
Mas mesmo as coisas feias que existiam no meu mundo, eram minhas. E até ali, era tudo o que eu possuia. Todos os meus tesouros, minhas lembranças, meus sonhos... Fui conferir as minhas caixas, onde eu guardava tudo isso e só então eu me dei conta que todas as caixas estavam amassadas. Amassadas! Meus tesouros, meus sonhos, minhas lembranças, amassadas. Então pensei óbvio, esse mundo é pequeno demais pra todos nós, mas soou menos engraçado quando eu resolvi me mudar dali. Já era hora, vish, faz tempo.
Comecei então a andar por ai, procurando saber sobre outros mundos disponíveis. Andei um bom tempo até achar algum que me prestasse. Passei por alguns um tanto ridículos, e torci o nariz logo de cara. Festa estranha com gente esquisita, já diriam, e era bem isso. Tô fora. E continuei caminhando.
Depois de caminhar por alguns anos eu encontrei um mundo totalmente em branco. Parecia que ele tinha sido esquecido, deixado ali por alguém distraído, que o deixou cair sem querer porque tava meio apressado.
Bom, serve pra mim. Fui entrando e olhando, conferindo se não tinha nada ali mesmo. Não tinha.
Então, pra não apressar as coisas, sentei ali no meio do nada e comecei a olhar pro nada, pra imaginar por onde eu começaria e principalmente, como eu queria que ele ficasse no final. E já que ali fora não tinha nada pra olhar, resolvi tentar o outro lado pra ver se eu tinha uma boa idéia. 
E quando me dei conta, estava olhando pra mim mesma, lá pra dentro, e eu finalmente soube como eu queria decorar meu mundo novo. Meu mundo novo só meu, teria exatamente a minha cara. E isso fazia todo sentido. E era maravilhoso.
E quanto mais eu me conhecia, mais bonito o lugar ficava, e mais bonita também eu ficava lá. Tudo combinava comigo, eu fazia parte de tudo e sentia finalmente que tinha encontrado meu lugar. 

Brinquedo velho

Encostei ela num canto, que já tava murcha e meio sem graça.
Sentei do outro lado da sala e fiquei olhando ela ali, ocupando espaço.
Ei, volte aqui - ela me dizia - vamos brincar como a gente fazia antes.
Não sei, preciso esperar minha mãe chegar, você anda muito esquisita.

zói que pula

Tem coisa que não era mesmo pra gente ficar sabendo.
Mas acaba que descobrimos tudo, tim-tim por tim-tim.
Era bem mais fácil nem saber, fechar os olhos e dormir, como era antes.
Ah mas aí tenho pra mim que tudo faria menos sentido ainda.
Que as coisa tudo pula na frente do zoio
E o zoio tudo pula de desgosto depois.
Por isso é que tem zoio com medo de enxergar...

Momôzin


AQUELE CARA nunca entendia que às vezes eu não posso atender o telefone.
Que eu rejeitava a ligação 13 vezes seguidas (com intervalos de 20 segundos entre cada uma) porque talvez eu estivesse ocupada, ou talvez até tomando providências no banheiro.
Não. Claro que não era isso. Era sempre pessoal.
E foi só eu finalmente atender com meu mais meloso (e ensaiado) oi amor, pra ele dizer:
- Você não quis me atender, o que você tava fazendo, não vai mais falar comigo, isso é jeito de agir, assim não vai dar.
- É, realmente não vai dar.
- Ah amor, mas o que que foi, o que aconteceu, eu falei alguma coisa errada, momô?

Ilustração do Ceó - http://frasesilustradas.files.wordpress.com/

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

É madrugada.
Suas pernas estão loucas para mudar de posição. A vontade de ir fazer xixi cada vez mais urgente.
Então você lembra da última vez em que se mexeu na cama e acordou o gato. E das suas unhas Ginsu.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Careca to be

Me desculpe me despedir assim por meio de carta, mas eu não sei como iria reagir se te visse na minha frente. Estamos a tanto tempo juntos que não consigo me conformar com a nossa eminente despedida. Não me entenda mal querida, foram doces nossos anos, mas ambos sabemos que o tempo tem corrido rápido demais pra sustentar nossa situação.
Semana passada nosso amigo Cláudio proclamou nossa sentença: você está de partida e eu ficarei só, coçando o que resta e a lembrança lustrosa que ficará no seu lugar. Adeus para sempre às tesouras e maquininhas de raspar.
Mesmo agora eu já procuro evitar as lâmpadas pra não ser vítima da sua ausência e do reflexo. Até já comecei uma coleção de chapéus; ainda não usei, não tive coragem, não quero me sentir um traidor. Quero mostrar você pro mundo, cada fio, pra que o mundo saiba que eu não nasci careca. Bem, eu nasci, mas esse não é o ponto. Quero que todos possam lembrar de nós dois juntos, você brilhando ao sol toda sedosa ondulando conforme eu caminho. Você rodopiando enquanto eu toco minha guitarra imaginária. Tremendos parceiros. Amigos de infância.
Querida, espero que você me perdoe por nossos embaraços, e também por aqueles todos perdidos nos amassos. Vingarei sua queda, cabeleira minha.
E agora com este penteado derradeiro, eu levo a cabeça erguida, caminhando com a dignidade que me resta até que chegue (não) finalmente o fim. 
Com amor eu me despeço, querida. Em breve nós estaremos juntos.

Do sempre seu,
Eurípedes Donizete

terça-feira, 26 de junho de 2012

Dia 3

Ao vasculhar, empurro caixas, afasto as teias, desmonto e esbarro em pilhas do que já foi um dia meu destino. Sento num canto pra lembrar de cartas antigas, amigos que como eu se afastaram tanto quanto puderam daquele caminho interditado.
Antes de fechar a porta, um caco de vidro enfiado no pé - Não vá embora, a gente ainda pode dar certo...
Sabe o que é, Passado... não é nada com você, o problema é comigo. Mas a gente se fala.

Digerir

Ato de separar o que presta do bolo engolido de conversas, julgamentos e opiniões, daquilo que só serve pra cocô.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dia 2


Num canto empoeirado, um bolo de cabelo e pico-pico, junto com alguma coisa que se mexia meio mole.
Dei um chutinho pra confirmar, então me abaixei e mandei ver na assoprada.
Era meu, parecia; só que ainda era muito difícil de aceitar. 
Mas era ele sim, encaixava; e no que eu me lembro ele fazia um bom serviço batendo aqui no peito.
Mais uma assopradinha, esfreguei na blusa e mandei pra dentro.
Já era hora.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dia 1


Quando acordei estava estirada no chão. Dei uma conferida. Não, não estava morta.
Por algum motivo tinha ido dormir no lugar errado.
Tudo em volta era bagunça e esquecimento, como se interditado três anos atrás por um tiro que saiu pela culatra.
Quanto tempo eu tinha passado aqui, eu não sabia.
Ao andar pela casa, pisava e me lembrava um pouco, até que um punhado de cacos me trouxe à tona.
E como se ele dissesse meu nome eu o deixei cair no chão e fui procurar por mais.
Com sede do passado, desesperadamente eu bebia. 
Eu me lembro, eu me lembro.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Tiroteio

 Eu lembro de ter passado dias escolhendo músicas. 
Lembro de ouvir as que eu já achava, as que eu tinha esquecido e aquelas que meio mundo me indicou.
Lembro de ter ficado orgulhosa depois de selecionar. De curtir cada uma enquanto tocava.
Hoje quando escuto as mesmas músicas continuo achando que selecionaria todas tudo de novo. Daria dois (e vários) tiros com a mesma bala. 
Mesmo que a gente tenha sambado sambado e sambado em cima do que aquilo significava. 
Mesmo que o que sobrou do nosso momento seja só o orgulho de uma boa lista de músicas.
Bala boa é reciclável. Bam. Bam. Bam.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Na cartomante - 5

Eu vejo você chorando a saudade daqueles que você afastou mais vezes do que poderia ser perdoado. Gritando e negando a culpa a distância e a solidão.
Vejo você tentar sorrir diante da vida que a vida te trouxe no fim das contas, desafiando a sua impaciência diante daquilo que você ainda achava que podia ser alterado.
Só quando seus olhos descerem ao nível onde você guardou todos os outros, você vai se dar conta de quantos estavam por perto enquanto você achava que não.
- Minha senhora, mas que absurdo. Você não tem nada melhor pra me falar?
- Só quando você tiver coisa melhor a oferecer, minha menina...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Cor sim, cor não

A ação foi crescer e a reação é que agora cada um faz por seguir o seu caminho. 
Entre os percalços, a gente se encontra. E no espaço entre as boas novidades, nunca sei direito quem é você, nem o que te habita.
Onde afeto e a falta são vizinhos de porta, já não sei dizer se fingimos que somos juntos, ou se insistimos em fingir que não somos. 
Entre as opções, eu me importo e não, e o tempo passa. E também não. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

Boniteza gera pobreza

Entre os buzinaços, eu caminhava morena e linda debaixo do sol. Andando e seduzindo.
A alegria faz uma diferença considerável no visu, deixa mais bonita, mais magra e até mais alta. Pena que deixa a gente mais pobre tambem.
Que quando a gente liga o koleston diante das vitrines, não há porque eu mereço que seja suficiente pra tanta belezura.
(vocês aceitam visa?)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Bum

O velho estava sentado no meio fio na frente do posto comendo pipocas de um pacote rosa.
Era hora do almoço, mas ele estava sentado ali sozinho, ele e suas pipocas.
Sem falar nada ele amassou o saco cor de rosa já vazio e enfiou no canto do canteiro do posto e levantou.
Parou e olhou o saco que se desamassava de um jeito bonito, remexeu no bolso e tirou o maço, acendeu um cigarro e sentou de novo.
A bituca ele jogou no chão e pisou em cima, não era idiota.
Ele sabia que tinha mais no mundo do que ele, o saco rosa e a bituca. 
As coisas correm risco o tempo todo de explodir, dai bum.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tá no dicionário

Problema: marmanjo(a) de boa idade e boa aparência, dotados de talentos desejáveis e indecentes, frequentemente providos de aliança, colar de meio coração ou enrosco.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Pós Guerra

Na manhã pós TPM, o cenário é de entristecer.  
Você levanta farejando pra entender direito o que, onde e como aconteceu e principalmente, onde você estava enquanto isso.
Sua cara no espelho é o retrato do pós guerra. Os cabelos, quanta diferença.
Na gaveta de baixo o último chocolatinho. Aquele separado pra hora da última esperança.
Você estende a mão na direção dele - não, ainda não é hora - e fecha a gaveta.
TPM foi embora, agora é hora de juntar todos os baldes que você chutou durante esses dias.
Tirar o pé da jaca. Botar o banho na lista de prioridades.
O eterno recomeço dessa vida. Eis o verdadeiro significado.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Carta pra você (Batista e seus novos óculos)

Minha querida irmã,
Provavelmente esta carta vem te trazer algum transtorno. Sei que discutimos incansavelmente sobre esse assunto, e também sei que não colaborei em nada quando você precisou da minha companhia para fazer os exames. 
Eu vim pra reconhecer meu erro. Me perdoe irmã, eu estava errado. 
Se eu acabei falando o que eu falei, foi porque eu não via a verdade que estava a um metro da minha cara.
Mas outro dia, no churrasco na casa do padrinho, eu me dei conta do que você estava tentando me dizer há tanto tempo. Você precisa de mim, maninha. Por favor, faça o que for possível para remarcar sua cirurgia que eu farei o que for preciso para te ajudar a se livrar dessas pelancas. Me perdoe por te encher de falsas esperanças, mas isto está tão ruim quanto parece. Mas resolver isso agora é a minha prioridade. E que Deus nos ajude e que Nossa Senhora Santíssima olhe por nós.
Do seu irmão, 
Batista

quarta-feira, 14 de março de 2012

Muito amor

A amiga desembesta a cantarolar.
- Que isso amiga, tá feliz?
- Ai, Milionário e José Rico, sou apaixonada.
- Juro que se no caso de eu vir a casar com alguém que goste de Milionário e José Rico, Teodoro e Sampaio ou Roberto Carlos, eu peço divórcio na hora.
- Dai você manda ele direto lá pra casa que eu cuido direitinho do sujeito! Milionário e José Rico, sou apaixonada. Teodoro e Sampaio, sou apaixonada. Amado Batista, sou apaixonada! Ivete Sangalo, sou apaixonada. José Mayer também, sou apaixonada.
- Ué, o José Mayer é cantor agora?
- Não né, se ele cantasse daí que não teria sossego. Jura que você não gosta de Roberto Carlos? Sou apaixonada!

terça-feira, 13 de março de 2012

Carta pra você

Devia fazer bem uns vinte anos que não sabia de você, até que te vi outro dia na rua. 
Eu até achei bem estranho ver você caminhando. Você que mal sabia como se mexer depois de descer do carro. 
Eu lembro daquele carrão que você comprou e a babação toda que veio junto. 
Conta aí qual foi, você ficou pobre ou ficou gordo?
Aqui entre nós, eu dei uma boa engordada neste tempo, mas você tá bonito cara. Eu só tô achando estranho. Você não pode ter esse corpitho e aquele carrão. Com a nossa idade ou você tem um carrão e a barriga adequada pra que ele carregue, ou o corpão. Corpão anda de bicicleta, ergométrica pode ser, mas carrão não, nem vem.
E a filharada, posso apostar que você já tem até neto. Eu teria, se não tivesse castrado meu cachorro. O outro cachorro. O Roleta morreu de velho antes mesmo de eu terminar de ficar adulto.
Agora até já deu tempo de você se formar né, aliás, já deu tempo de virar doutor, desistir, chorar e começar tudo de novo. 
Não ficaria surpreso se você tivesse largado no meio aquele curso mais-do-que-chato que você fazia e trocasse por, sei lá, aquele curso na Itália que ensina a fazer sorvete. Eu com certeza largaria, ou provavelmente nem teria coragem nem de começar. E sabe que não é nada mau um tempinho na Itália, comendo um sorvetinho, um macarrãozinho a bolognesa. Minhas bichas até ficam animadas. Ai, ai, você sempre me dando idéias, Borges. Quem sabe não abro meu boteco e dai coloco seu nome nele pra fazer homenagem.
Não sei se você ainda mora no mesmo lugar, mas de onde era, minha casa é meio longe da sua pra ir andando. Mas se você resolver dar uma chance pro seu carro, passa aqui me visitar, ou também se você quiser, que fique pra quando for que tiver que ser, não é?
Mas seria legal, eu tenho treinado, e quero saber se ainda sou capaz de te vencer na figurinha. 
Então até mais meu caro,

Joaquim B.

terça-feira, 6 de março de 2012

Plim!

E quando menos você espera, a ficha caiu.
Você está sentado com seu livro dentro do ônibus a caminho de qualquer lugar, quando a ficha redondinha do seu entendimento se atira no chão. Dois segundos muito compridos pra explicar.
Talvez dê pra ouvir o barulho surdo que faz o estômago, se contraindo, e o canto da boca que se movimenta, dependendo, para cima ou para baixo. A ruga que aparece na testa pra confirmar tudo. Os segundos de puro silêncio como em respeito ao que acabou de ser dito.
Então os diálogos mentais que se seguem pra tentar des-saber, voltar atrás, recuperar o rebolado e fazer de conta que não aconteceu nada. Pra ver se cola o tal já tava assim quando eu cheguei.
A ficha ainda rolando no chão e o tremendo elefante cor de rosa na boca do estômago. E nada mais do jeito que era antes.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Coragem


CORAGEM é quando você pega seu monstro no pulo, escapulindo pela porta do armário e tranca a porta rapidinho, dá dez voltas de corrente, fecha com um cadeadão de respeito e ainda põe uma cadeira na frente pra garantir. E aí você esfrega as mãozinhas e comemora.
COVARDIA é quando você faz exatamente a mesma coisa, mas dá no pé e deixa pra comemorar a uns quarteirões dali.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Na cartomante - 4


- Eu vejo você lembrando seu amor de juventude, o grande amor da sua vida. Aquele amor pelo que você lutou, gritou e amaldiçoou tanto. Quem você quase perdeu por causa da vida e depois também por causa da morte.
Eu vejo você com seu grande sonho realizado, naquele vestido que deixa magrinha e as flores que deixaram realmente tudo perfeito. 
A tão esperada família sentada à mesa esperando você terminar de trazer o jantar. 
Mas eu também vejo o que ele nunca vai ter coragem de te contar.
- Como assim, ele vai ter outra? 
- Outra sim, perspectiva. Mas não se preocupe, você vai ter tudo o que sempre quis, só vai te faltar mesmo a certeza.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bolsa de valores


Neguinho parece gerente de banco olhando nossa prateleira de saldos.
Se eu fosse você, investiria mais nisso.
Se eu tivesse no seu lugar, daria mais valor praquilo lá.
Ah se fosse comigo...
O que branquinho nunca viu é a gaveta dos negativos. A pasta grossa dos bocados que vem inclusos.
Se num levante de faxina, jogasse tudo quanto é gaveta pela janela lá pra rua, aí sim. 
Aí qualquer um podia fazer melhor do nosso bocado mesmo. Até a gente.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Cherôôso!


Eu estava segurando um pacote de sfihas quentinhas no ponto de ônibus, que cheiravam bem à pressa de chegar logo em casa.
Enquanto eu esperava, uma mulher virou pra mim com uma cafungada meio invejosa. Ofereci a ela o meu mais simpático "é né?" e dei por encerrado.
Então numa piscada longa ou alguma falha na linha do tempo, eu estava totalmente integrada aos detalhes mais sórdidos da vida daquela mulher. E eu podia jurar que só tinha passado um momentinho.
Nos trinta minutos que se seguiram, eu me tornei alguém de opinião fundamental na vida dela.
Eu, que só dei uma risadinha porque ela achou minha sfiha cheirosa, já tinha até companhia pra voltar pra casa.
Hoje em dia você corre o risco de pagar o jantar inteiro, só porque achou que devia ser mais simpática.
É, não tá fácil pra ninguém...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Milagre do tamanho M

No ônibus a moça estava toda faceira de roupa nova.
Autoestima costurada em malha preta e gola canoa.
Enquanto o ônibus balançava, ela alisava o cabelo com a mão e colocava (e colocava) atrás da orelha. Mesmo de costas dava pra ver que ela estava toda sorrindente. 
O caminho da autoconfiança pagando apenas uma passsagem.
E o cabelo que levava uma etiqueta M grudada então, só deixava tudo mais esnobe.

(Ai que nojo)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Morrer bonito


Não, ela não ia se matar assim.
Escarafunchar as gavetas em busca da maior faca da cozinha e depois esfregar elas nos braços. Não, definitivamente não é este o estilo dela.
Ela não é do tipo que se mata sem antes depilar as pernas.
E duvido muito que ela se deixasse morrer com uma calcinha qualquer. Ela não correria o risco de morrer com uma calcinha meio sambada.
E antes do grand finale ela deixaria tudo em ordem, porque ela sempre diz que até pra morrer tem que ter classe.
Ela também jamais pularia de um prédio só pelo risco de chegar no chão em uma posição desprivilegiada. E descabelada, que horror.
Não, ela faria as unhas (todas as vinte), escolheria um perfume com fixador preparado pra eternidade, afinal ninguém simpatiza com defunto fedido (e Deus me livre de um nariz torcido).
Ela já deixaria encomendadas as flores na cor certa combinando com a roupa, esmalte e o corte do cabelo. Ela pensaria bem no corte de cabelo.
E quando ela enfim se decidisse, junto ao corpo ela deixaria mais instruções, telefones, possíveis roupas, sapatos e também os cílios postiços (que dão assim um tchan nos olhos fechados).
Duvido que ela aceitaria menos que isso.
Ela ia morrer do jeito bonito, ah ia sim.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Puca puca puca

INSEGURANÇA é quando você precisa falar muito muito muito sobre um assunto pra não esquecer se é de verdade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre a quietude das coisas


Você vem e me pergunta, e ai tá tudo bem? Tá tudo bem, eu vou dizer, porque outra resposta seria mesmo mentira. 
Mas também não é como se a vida estivesse assim animada, pertubadora, daquelas que chega abrindo a porta num frege e fazendo a ordem voar pela janela. 
Estou naquela vida que não te traz escolha a não ser ir pra frente. E que bom, vai tudo muito bem, muito obrigada. 
Mas entre os turnos alternados de comer, dormir e trabalhar, eu sinto falta. 
Sinto a falta que faz uma boa caraminhola na cabeça. 
A tal da pulga criada atrás da orelha. 
Enquanto meu pulso pulsa paciente, eu não tenho a menor intenção de esperar. 
Eu quero é ver o circo pegar fogo, chutar o pau da barraca, o balde e a calmaria toda. 
E ai sim meu amigo, quando você vier me perguntar, se abanque, que vou ter muita coisa pra contar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Não expulse seu sofá de casa


Não expulse seu sofá de casa.
Pelas ruas são muitos os casos.
Um porque ficou duro, outro porque ficou molenga. 
Porque ficou velho e porque (meu deus) não fica velho nunca. 
Porque ela sonha com o sofá de pelúcia cor de rosa bem no meio da sala.
Eis como me encontro: sem braço, meio furado e sem espuma. Sem nem um cachorro pra arrancar o que ainda me resta.
Abandonado na porta de casa, onde eles entram e saem toda hora e me olham constrangidos sem nunca reconsiderar e me botar pra dentro de novo.
Sem me dar um fim mais digno do que mereceria uma poltrona que se escapole pra trás toda vez que alguém vai se sentar.
Eu que trabalhei sem descanso por vinte anos e três famílias, vinte anos e três famílias e suas bundas e também as bundas dos seus queridos parentes. 
Era eu que estava lá em todos os Natais, em todos os aniversários, em todas as brigas, eu que fiz o cachorro dormir todas as noites, e se não fosse por mim, o bonito lá ja-mais teria conseguido aqueles beijos com a Laurinha.
E no entanto sou eu que estou aqui, na sarjeta da vida. Expulso de casa como um meliante. 
Agora só me resta apodrecer de tanto desgosto. 
(adeus, mundo cruel)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Shhhh


A hora do almoço é a hora da caça. 
Dos olhos atentos, dos movimentos precisos, da determinação implacável com água na boca.
Minha planta carnívora está faminta. Meu bebê está faminto.
De régua em punho, eu aguardo. Estou esperando aquela mosca e seus cinco minutos de bobeira em cima do meu balcão.
(Vem mosquinha vem, virar almoço de plantinha)
Então eu ataco.
Talvez meus instintos predadores sanguinolentos estejam um pouco atrofiados pelos milhares e milhares anos de evolução, mas eu gosto de uma boa briga. 
Mesmo que eu tenha que brigar com uma mosca. 
Uma mosquinha só não faz verão. A família toda veio pra cá passar as férias. Um pleft bem dado e a planta agradece o bocado.
Agora shhh, que ela ta vindo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Segredinho


Eu fiz um perfume pra ele e ele ainda usa quando vem me visitar.
Mesmo que seja só uma imitação daqueles que arrancam os olhos da sua cara antes que você possa sair da loja.
Quando chega, eu sei que é ele só pelo perfume, não preciso de mais nada pra ter certeza. Ele sabe disso também, é o nosso segredinho.
O vidrinho fica sempre guardado em um lugar estratégico dentro do carro. 
Só que agora não existe mais o carro, nem o vidrinho e nem ele.
Só o perfume quando ele vem me visitar.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Anti contagioso


Estava escancarada e torta, a boca.
Mesmo com a boca aberta dava pra ver o rastro do batom torto de quem saiu de casa com pressa.
E não dava pra ver os dentes. Um ou outro que saltava, até que sim. Mas talvez os outros dentes só tivessem saído de férias.
Era a visão do inferno em forma de bocejo. Pelo menos era isso que eu estava pensando antes dela terminar o movimento com um rugido.
Depois eu só pensava em virar a cabeça pro lado, porque alguém tinha me dito que bocejo é contagioso. 
E aí deusmelivre, longe de mim acabar pegando um bocejo feio desses.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Pisca piscas e Coca Cola


No meu país, faz sempre o maior calor no Natal. Exceto claro na minha cidade, que todo ano surpreende. Aquele vestido que você comprou especialmente pra ceia? É, não vai dar, começou a chover. 
O pinheirinho da maioria das casas que conheço não se parecem com pinheiros de verdade e se não me engano, também são de plástico.
Papai Noel não suportaria um dia no Brasil com aquela rouparada toda, nem mesmo aqui (continua chovendo)
Os únicos bonecos de gengibre que vi na vida ou são amigos do Shrek, ou são de pelúcia. 
Minha casa não tem chaminé. Isso faz com que eu também não tenha uma lareira onde pendurar minhas meias pra que Papai Noel as encha com presentes.
E sinceramente, eu gostaria de que meus presentes não coubessem todos dentro de uma meia.
Ao que parece, cantar "bate o sino" dentro das casas foi proibido pelo governo um pouco depois de eu ter nascido. Porque além de nunca ter cantado esta, acabei aprendendo uma outra, aquela versão sobre papel, jornal e outras coisas. Protesto típico.
Isso tudo sem falar no tal do Chester, que ninguém nunca viu andando pelo zoo.
Pelo menos os pisca-piscas e as propagandas da Coca Cola são reais.
Eu acredito num mundo onde os ursos polares tomam refrigerante. Onde o Papai Noel passa impertubável pelo nosso calor com aquelas roupas peludinhas, pilotando seu trenó cheio de significados. Acredito num mundo com chaminés para presentes. Em presentes maiores que as meias.
Acredito na magia que faz a gente esquecer por um momento que amanhã tudo vai voltar ao que era antes, e não tenho dúvida que vai ser mesmo tudo igual, só que mais bonito.
E ano que vem, quando a gente estiver quase por desistir de novo, oba, é Natal outra vez. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pernocas

Atenção, se você tiver pernas, por favor não mostre pra ninguém.
(pernas pra que te quero)
E mais importante, nunca saia na rua exibindo seus gambitos.
Buzinada, freiada, cabeça pra fora do carro, beijinho assoprado, assobio, beijo pra sogra, ô lá em casa, delícia assim você me mata. As pessoas se assustam e fazem isso, só porque te pegaram de calças curtas. Provavelmente porque não sabem ou não se lembram que elas também tem duas logo abaixo ou ignoram porque, né, melhor não saber.
Se a perna é bonita o alvoroço é porque ela é bonita. Se é branquela, bronzeada ou perna torneada de mulata, é por isso, isso e aquilo. E se é daquelas com ralado, roxo, arranhão do gato, varize, estria roxa no joelho ou uns furinhos ornamentais da celulite, causam reboliço do mesmo jeito.
Então até que se descubra o motivo de tanto furdunço, melhor conservá-las em recipiente fechado e protegidas da umidade e do calor. Fora do alcance das crianças.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Coçadinha


No dia bonito, ele brincava. 
Deitado na grama, oferecia sua barriga lameada pra cada um que passava por ali. Ele era imenso, peludo e caramelo, e ninguém parecia querer coçar aquela barrigona oferecida.
Então ele rolava de novo e saía pelo bairro, sem rumo, procurando uma graminha estratégica pra comover algum coçador de plantão.
Do universo paralelo de dentro de casa, eu gastava tudo o que tinha aprendido sobre educação e temperamento canino diante do berreiro. Mas a bichinha continuava gritando enlouquecida na janela. Então ela vinha, resmungava e voltava pra latir mais um pouco. Levantei pra ver e entendi tudo.
O parquinho de um mundo inteiro. Todas as coçadas que você conseguir ter. Todas as coisas do mundo a disposição do seu focinho, esperando que você cheire cheire cheire cheire. 
O peludo caramelo estava no meu portão esfregando todas essas possibilidades na cara da minha cadela. Ele corria pela rua como se nada na vida pudesse ser melhor que isso. 
É, adestramento nenhum ia ganhar essa. Nem ossinho e almofada. Deixa isso pro gato.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Primeiro dia do resto da sua vida

Imagine que você está sentado e velho na sua cadeira favorita. Aquela cadeira que é toda sua e só sua porque você nunca deixou ninguém sentar nela, e porque só ela acomoda perfeitamente suas costas doloridas. E na sala vazia da casa também vazia, você está sentado só esperando a sua hora chegar e levar embora sua idade e sua dor nas costas. E dai o vento abre a janela, você olha e a morte está na sua frente, dando aquela risadinha horrorosa a três centímetros da sua cara. E só quando ela vai embora você entende porque  diabos ela estava rindo. A dor nas costas continuava ali. 
Ou, espere. Não está mais. Mas você começa a se sentir muito triste porque acabou de voltar do velório do seu filho mais novo (que já tava velho, é verdade), mas de alguma forma sabe que ele vai estar amanhã no hospital e piorar um pouco, mas daqui uma semana nada disso vai ter existido, porque o acidente vai ser daqui a três dias e depois ele vai estar de volta na cidade onde ele mora, e por 16 anos não vai nem pensar em vir te visitar por causa de uma briga que vocês vão ter por causa de uma bobagem que eu não tenho permissão de contar aqui.
E nesse tempo, o enterro da sua mulher, a doença ordinária que foi melhorando rápido, a convivência meio distante e a intimidade, o casamento, a escola (e principalmente as tardes depois da escola), muito tempo que passa até que vocês nem se conheçam mais. 
No pátio da casa seu pai varre as folhas, sua mãe chega apressada do mercado com seu irmão mais velho. Sua comida favorita cheira e acorda seu estômago.
Aquela bola que antigamente era velha e toda estourada e que você acabou jogando fora, agora num pacote estampado esperando embaixo da árvore o dia chegar, exatamente como você lembrava. Então você fecha os olhos pra curtir este momento e tudo fica escuro. 
E então nem você existe mais. 
E aí a história acaba, mas só a sua.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Valentine



Eu não sei o que tem de errado com ela. Quando acordo para sair pro trabalho, ela não quer sair da cama. Não vem falar comigo, não quer saber se dormi bem ou se gostaria de companhia pro café da manhã. Tudo o que ela faz é continuar coberta até as orelhas, até que eu me canse e peça pra que ela saia antes de arrumar a cama. 
Eu nunca ganho beijo de despedida. Nem tampouco de boas vindas, apesar de ela aparecer na porta toda histérica quando eu chego em casa. Acho que eu devia ficar contente só com isso. Ela também acha porque quando eu comento sobre os beijos, ela dissimula, vira pro lado e começa a roer as unhas. 
Eu odeio que ela roa as unhas. É um hábito muito deselegante. 
De vez em quando ela vem sentar ao meu lado, mas eu ainda não entendo porque ela resmunga tanto. Ela gosta de dançar na cozinha. Ela sempre me chama pra dançar enquanto estou inventando moda nas panelas. Mas se eu a chamo pra dançar na sala, ela resmunga de novo. 
A verdade é que ela resmunga bastante. Resmunga pra porta quando ela está fechada e ela quer fazer xixi (ou outra coisa). Resmunga quando ela fica com frio a noite (ou de tarde quando vem o sono da beleza) e eu estou deitada em cima das (minhas) cobertas. Ela resmunga também quando a comida não tem a cremosidade esperada.
E sobre vestidos. Ela fala muito sobre vestidos. Ela me pede vestidos a toda hora. Além de morrer de ciúmes deles. Vestidos de verão ou vestidos chiques de inverno. Ela gosta muito de ser chique, por isso mesmo que ela não deveria roer as unhas.
Se bem que quando vamos passear ela esquece completamente isso sobre vestidos e unhas. Passeio é uma coisa importante e quase sagrada, pelo jeito dela. Ela fica mais feliz quando passeia do que quando compro um vestido novo. De certo porque não tem sentido um armário lotado de vestidos, se você só vai usá-los dentro de casa. É necessário expor a beleza. Ela gosta disso. Ela sabe que é chique e bonita e quando alguém fala isso pra ela, ela dá uma voltinha pra que você olhe melhor. Depois corre pro seu colo pra que você a agrade só por ela ser tão linda.
Eu sempre digo, é uma cadela essa cadela.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Assine aqui

E se a gente soubesse o que vem depois da linha pontilhada?
O sim que vem com a assinatura
Aquela coisa em 15 vezes ou até que a morte nos separe
(Até acabar o estoque)
Se a gente pudesse saber do desenho antes de ligar os pontos
Um ponto por dia, um dia de cada vez
E se a gente pudesse ouvir uma palhinha? 
Quem sabe pedir a nossa música num guardanapo e entregar pro garçom, será que ele entregaria?
E se eu tentar uma espiadinha só no titulo da próxima página... e se tiver em branco, é porque acabou?
E se a gente soubesse onde ia dar o fim da linha, será que ainda assim a gente iria?

Será que eu fui ou foi você que voltou?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Laços de família

Então ficamos assim, da metade pra cá você chama de primo, e a metade de lá de tio, estamos entendidas?
- Como assim, não dá pra ir ajuntando família assim, como quem cata moeda caída na calçada não, mãe.
Ara, não dá pra deixar gente sem família desse jeito. E essa montoeira de nomes aí só confunde a cabeça da gente. A verdade é que tio e prima resolve bem essa questão.
- Se você diz. Então como é que era?
Assim: da metade pra cá é tudo primo, e daí daqui-pra-lá é tudo tio, entendeu?
- Entendeu.
<------cá - sua idade - lá ------->

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fluxograma

Eu não lembro qual foi a última vez que te vi. Quer dizer, ouvi algumas coisas a seu respeito, mas eu sei que isso não é suficiente pra saber bem certinho como está você hoje em dia.
Pois veja, como vou saber o que é verdade, se não é só picuinha a outra ter vindo me contar como você engordou. E me disseram outro dia ter visto você entrar no prédio do curso de Culinária Especial, justo você (quem diria). E também sobre seu cabelo, quer dizer, é verdade que agora você prefere usar ele todo descolorido? Eu podia jurar que tinha ouvido você dizer eu loira, jamais, tá maluca, será que estou? Agora só falta alguém vir me dizer que você também está fazendo dieta e caminhada, aí vai ser oficial, não te conheço.
Mas bem, eu anotei os pontos principais em um fluxograma, coloquei uma porcentagem de variação de verdades, e acho que consegui chegar num resultado apropriado. Não sei o que levou mais tempo, checar as verdades ou as mentiras, mas foi fácil identificar porque as mentiras eram mais detalhadas e emocionantes. Até aproveitei pra desenhar um esquema com a sua vida de mentira, só pra você se distrair depois quando tiver tempo.
O desenho ficou bem aproximado, você vai gostar do resultado, e eu também fiquei bem satisfeita com o trabalho. A verdade é que a nossa vida fica sempre mais interessante pela boca dos outros. Não é uma maravilha? E você aí achando que tava pra morrer de tédio...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Procedimentos

Antes de começar a ler um novo livro:
- Leia com cuidado tudo o que estiver escrito por fora, especialmente as letras miúdas, por precaução;
- Abra a capa, dê uma boa cafungada na folha de rosto (e fique sempre atento as letras miúdas);
- Com cuidado, alise a primeira folha com a mão (com uma cafungada respeitosa agora) para estabelecer uma comunicação com o povoado contido ali dentro do livro (para melhores resultados, feche os olhos);
- Abaixe um pouco a cabeça pra prestar bem atenção e não perder nenhum detalhe do que eles vão falar (eles podem ser um tanto teimosos com os detalhes);
- Depois faça o Juramento Solene dos Nobres Leitores, pedindo permissão ao Povo de Dentro do Livro para entrar no mundo deles sem maiores problemas. 
- Só então caminhe para o primeiro capítulo. Lentamente porque, vai que o povoado lembre de mais alguma questão antes que você termine de abrir a porta...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Isso aí

Sacudia com cuidado a cabeça, apertava e abria exageradamente os olhos, inspirava e soltava o ar com toda força - é, não vai adiantar - tava tudo igual.
Passou a mão por trás da cabeça, arreganhou os cabelos, fez menção de arrancar tudo num puxão (não puxou), contraiu toda a cara, sobrancelhas, bochechas e pelo que sentia podia dizer que tava contraindo também as coisas lá por dentro da cabeça.
Claro que ainda não tinha pensado em levantar, quem sabe até ajudasse pegar o celular de cima da mesinha e ver que dia era e que horas, apesar de achar que isso não faria nenhuma diferença no momento. E também, ela ali do lado só diria, mas que raios de mesinha você quer agora? naquela voz meio embolada.
Eu não queria nenhuma. Não queria nem que ela estivesse ali. Mas estava tudo ali, dolorosamente firmando sua presença. Ela, a mesinha, o celular, o dia (sabe-se lá qual) com suas horas e minha cara contraída. Eu não podia fazer nada. Não sabia onde eu estava, onde eu estou, e que dia, se é que ainda é dia.
Manter o foco, eu pensava. Eu abria de novo os olhos e nenhuma das coisas a minha frente parecia sair da forma de nuvem - Nuvem.
Nada mais de arrancar cabelos e espremer a cara. É isso. Não sei como eu cheguei, mas estou aqui. Nuvem. Agora tá tudo certo, agora eu entendi... Entendi.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vômito

Comecei a vomitar sem que meu corpo tivesse dado aviso de isso fosse acontecer. Abri os olhos só depois que já tinha me encostado em um canto pelo chão. Se não fosse pela roupa toda suja que servia como prova, eu não acreditaria. Se não fossem pelos dias que eu contava estar sozinha, eu duvidaria. 
Mesmo fechar os olhos de novo não estavam servindo pra mudar o que eu estava vendo. A sujeira estava toda lá, porca e fedorenta espalhada pela sala. Talvez já fizessem dias e por isso eu não lembrava. Talvez o mal estar estivesse discretamente acomodado em qualquer canto do meu corpo e não quis incomodar publicamente. Talvez, e sim talvez, aquilo nem fosse mesmo meu. As roupas duras, as lembranças partidas, o choro escorrido marcado na grossa camada poeira. 
Não, não, nada disso era meu. 
Decidido isso, encostei a cabeça e apaguei de novo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Muita mobilidade e pouca noção

A mulher tava falando, mas metade dos que estavam ali estavam mesmo conseguindo escutar. Não que ela tenha criado uma atmosfera anti ruído com algum objetivo malévolo envolvido para pegar desprevenidos algumas dezenas de inocentes interessados dando sopa. E também não tinha nada a ver com o volume do microfone. 
Quanto aos que não ouviam, certamente não era por estar desprovidos de suas competências auditivas, mas sim muito provavelmente das sensoriais (de senso, do bom deles, especificamente) já que não conseguiam desgrudar dedos e olhos e sabe-se-lá-mais-o-que de pequenas, médias e relativamente grandes telas brilhantes.
Enquanto ela falava, os olhos e dedos se moviam quase com vida própria na platéia, e os olhos em volta reforçavam um pouquinho do constrangimento que os respectivos lábios retorcidos demonstravam.
Mas do palco ela prosseguia, maravilhosa e inabalável, derramando dela mesma pra quem quisesse (e também pra quem não quis) ver, ouvir, perguntar e aplaudir depois. 
Quem não ouviu, aplaudiu quando acabou, mas eu tenho aqui minhas dúvidas se eles sabem mesmo porque tavam fazendo isso. Talvez porque fosse (finalmente) a hora de ir embora.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pé na bunda e a terapia feminina da cura

Quando ele terminou de falar e 40 segundos após o silêncio constrangedor, eu tomei coragem e perguntei que raios significava tudo aquilo.
E sem nem pensar muito ele disse que só significava que até ele esquecer tudo o que tinha acontecido, ia ser assim. Um porre. 
Que lindo. A personificação de um porre, ao vivo e a cores, sentado na minha sala, perguntando que horas saía a próxima rodada de café (aquele já tava frio mesmo). Enquanto ele olhava (e será que eu não ouvi uma coruja piando lá fora?) eu gaguejava estrategicamente, pra dar mais uma chance de entender todo aquele rolo e responder aquele coração pré-faniquito.
Antes de eu terminar de abrir a boca, ele continuou. E quanto mais ele falava, menos eu entendia.
Ele não quis explicar bem o que aconteceu e pra ser sincera também tratei de abafar as trinta primeiras perguntas. Depois de quatro horas ouvindo a mesma história podia ficar um tanto constrangedor voltar pras partes básicas da questão que eu tinha perdido.
No final da noite (e não sei como) ele já estava oficialmente morando no meu sofá. O porre era ele e pelo jeito fui eu que acabei apagando em algumas partes.
Eu como uma boa exemplar do meu gênero, tratei logo de medicar o pobre coitado com brigadeiro, uns testes de revistas e uma coreografia nova da música velha (porém inesquecível) das Spice Girls. Sempre funciona. Bom, ainda não funcionou, mas nesse caso deve ser o gênero dele que complica tudo.
Pensei também em levar ele pra visitar meu cabeleleiro no outro dia e depois quem sabe passar comprar umas roupinhas novas. Tudo pra evitar a partida em direção a prateleira de cervejas do mercado (e as outras novas 4 horas de mimimi que viriam com aquilo).
Bobagem, não ia precisar de tudo isso. Pelo jeito ele não ia sair tão cedo daquele sofá. Ele dormia agora melhor do que eu seria capaz. Solidária, desliguei a televisão, joguei uma coberta por cima dele e apaguei a luz. 
Amanhã vai ser outro dia pra você também.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tá bem

Ele passou a noite no xilindró.
Aconteceu na rua qualquer coisa, ele fez que não era com ele e tratou rapidinho de carpir seu trecho.
Mas acontece que a onça que ele resolveu cutucar de vara curta era mulher. E pior, a mulher errada. Mulher do Seu Poliça.
Passou a noite no xilindró.
Então de manhã quando chegou em casa, deu de cara com a mulher e tratou logo de se explicar do grande mal entendido, que não era nada, ele só tinha enfurecido a mulher errada.
Acontece que a mulher nem quis saber como foi que o marido Dito Cujo tinha feito pra isso acontecer. E antes de conseguir se explicar direito já tava lá ele de novo, pra passar a noite no xilindró.
Dessa vez por crime reincidente, mexer com a mulher errada (que dessa vez era a que ele chamava de amor).
- Dito Cujo vai ficar bem?
- Ah vai. Só depende de bem o que... se for lascado, tá bem.