domingo, 29 de janeiro de 2023

Um sopro na correnteza

 Foram dias estranhos. Talvez ainda sejam e seja eu quem não está acordada o suficiente ainda para perceber. 

Eu não tinha nenhuma palavra em mim, fosse pra escrever ou falar. Passei dias falando apenas o necessário. É um bom exercício, eu acho. 

No entanto a mente...ah, a mente. Essa não para nunca. Imagens, sensações e palavras. Enxurradas delas, nenhuma que prestasse. 

Ainda sinto o peso da mente sobre meu peito, mas com uma intensidade menor o suficiente pra me trazer de novo aqui. Pra arriscar um passo pequeno que seja, a mais. 

Estamos no dia 29 e eu acabei de terminar meu vigésimo livro. A maioria deles com 600 páginas, o maior dele com mais de 800. Dizer que eu me isolei é eufemismo. Dizer que eu fugi desesperadamente da minha própria cabeça é nada mais do que a verdade. 

Não tenho certeza se quero voltar pra realidade. Ela não tem me feito sentido nenhum, assim como falar com qualquer pessoa que seja. Sou eu que tenho que resolver, que encontrar a saída. Eu que tenho que abrir o caminho até encontrar a luz no final desse túnel interminável. 

Ando me arrastando pela vida, com o corpo fraco e a mente em frangalhos. Uma carcaça ambulante. Sorte a minha ser uma carcaça bem teimosa. A única e talvez a mais preciosa sorte. Pelas numerosas vezes em que quis enfiar a cara no travesseiro até não conseguir mais respirar, estar aqui é um ato de resistência onde eu sou meu próprio herói e feitor. Eu sou tudo isso, apesar de não ser nada mais que um sopro nesses últimos meses. 

Vamos ver o que o dia de hoje me reserva. 

Me deseje sorte. 

Até qualquer dia. 

sábado, 21 de janeiro de 2023

Bueiro

 Saúde mental é um tesouro. 

Que eu não tenho.

Tô aqui na tentativa desesperada de me autoterapeutizar, ver se escrevendo eu acabo largando alguma ideia que faça algum sentido pra eu seguir mais pra frente. 

Minha cabeça tá confusa, meu corpo dói. Meu peito tá apertado, tô amarga, mau humorada, sem vontade. Só de pensar em ver gente já me sinto cansada. 

Ontem pedi pra irmos almoçar fora e ficar dando voltas sem ter que resolver nada. Obviamente que isso não funcionou, acabou que passamos em vários lugares pra comprar coisinhas que estavam faltando, uma pequena romaria. Meu plano depois de ir almoçar era passar um pouco na praia, sentar ali por alguns minutos e simplesmente contemplar. Não consegui nem atravessar a rua. A praia tava cheia de gente, som alto, carros passando. Dei meia volta ali mesmo, não consegui lidar com aquela coisa toda. 
Também tinha me proposto a finalmente comprar uma peça de roupa que seja, e também não rolou. No horário que eu fui, já estava fechado, e quando eu estava voltando, a br tava tão parada que não compensava fazer outro caminho a não ser o de casa. Então o passeio resolveu pra exatamente nada. Voltei pra casa, pro meu quarto e pro livro, não estudei e não fiz nada pra me divertir além de ler. 

É um saco porque tudo virou cobrança. Até o fato de ler de mais ou o que eu tô lendo. Me deixa, caralho. O que eu faço pra me divertir, quando eu faço e porque não estou fazendo. Parece que tem uma enorme lupa em cima da minha cabeça me analisando pra mim mesma o tempo todo. Minha vontade de pedir ajuda é exatamente tão intensa quanto a vontade de continuar em silêncio. Minha vontade é ir passar algum tempo em algum lugar totalmente isolada, sem me preocupar com absolutamente nada, se eu vou arrumar a cama, se eu vou estudar, se eu vou tomar banho e lavar o cabelo, se eu tenho faxina pra fazer ou o quando eu pretendo comer de novo. 

É um luxo que não tem como. O tempo tá passando e quanto mais eu penso, mais eu vejo que mesmo nesse emaranhado de pensamentos e sentimentos, tá tudo no lugar. Se eu tivesse com uma agenda incrivelmente cheia de afazeres, eu provavelmente estaria procrastinando todas e surtando. Eu preciso melhorar primeiro, de novo. Preciso estabilizar minimamente pra ser capaz de executar algum plano. Eu estou completamente sem saída. Não sei pra que lado atirar, não sei o que tentar, não sei com quem falar. 

Eu tô me sentindo avulsa. Existem pouquissimas pessoas em quem eu confio. Menor ainda é o número de quem eu confio e me sinto a vontade pra falar. E mesmo assim, não tem um lugar onde eu me sinta em casa, pertencente. Sempre parece que estou por um fio. Sempre cuidando, sempre esperando algo dar errado. Sempre cuidando pra não incomodar. Em casa muito menos. Ouvi minha irmã me chamando de "aquele ser dos infernos" de alto e bom som pelo telefone aqui na minha janela, a menos de dois metros de mim, sem nenhum constrangimento. Com minha mãe eu não posso contar muito, primeiro porque ela é a primeira a botar um balde de água fria em qualquer conceito novo, se agarrando a isso como se disso dependesse a dignidade dela. Outro dia ela me falou que me amava e eu chorei, porque não tenho nenhuma lembrança dela falando isso pra mim sem que fosse respondendo depois de eu ter falado. As únicas pessoas que expressam algum orgulho por mim são tão próximas, que parece que a opinião delas é parcial e tendenciosa. Como se não fosse possível acreditar, e aí eu não acredito. 

Eu enxergo a burrice em deixar que pessoas que não me conhecem tecer opiniões sobre mim para daí eu acreditar. Essas pessoas teriam tão pouco pra avaliar, e tão bem poderiam pegar qualquer segmento da minha vida, bom ou ruim, e não necessariamente o resultado disso seria bom. 

As pessoas que realmente conhecem minha caminhada, minhas dores, meus desafios e vitórias são justamente aquelas que eu não acredito, porque nem tão no fundo, eu acho que elas falam isso só pra me ajudar a levantar a bola. 

Não dou lá muita importância para as críticas também, a não ser que elas ressoem com as minhas próprias, o que não é lá muito difícil já que eu sou campeã invicta em me massacrar diariamente. Não ligar para críticas ou elogios, e sim na própria avaliação, isso é um objetivo. Talvez eu já faça isso, mas como eu disse, minha autoavaliação é péssima em todas as áreas. 

O que eu faço direito, de verdade? O que é constante, consistente na minha rotina? Me autocriticar e ter crises, isso com certeza. Todo o resto é maleável. Não é todo dia que eu como, não é toda noite que eu durmo, e se eu peco nas necessidades básicas, você pode bem fácil seguir o raciocínio e ver em que buraco eu me encontro. 

Tô escrevendo aqui até meio surpresa, porque hoje eu tentei rezar e não saiu uma palavra. A cabeça tão confusa, nublada, o corpo estrebuchando, não consegui formar nem uma frase. Pelo menos aqui eu consigo me concentrar e aliviar a corrente de pensamentos. 

O que tava ajudando não tá mais. Talvez eu tenha me perdido em alguma prática que eu não fazia ideia do quanto tava ajudando, ou talvez fosse o período do mês, a lua, a minha vibe. Mas tá tudo muito intenso, muito pesado. Como se a sensibilidade estivesse maior e eu sentisse tudo. Pela primeira vez em sete anos, eu não tô minimamente animada para começar as atividades do terreiro. Essas férias sempre eram longas e eu ficava ansiando pelo retorno e hoje se eu pudesse escolher, nem ia. Eu posso sim escolher ficar em casa, mas eu sou mais disciplinada que isso. Eu sei que lá eu posso ter alguma ajuda, ainda que de novo, eu não me sinta pertencente ali, não tenha alguém que eu confie o suficiente para me sentir a vontade de me abrir. Já fiz isso várias vezes e várias vezes o sentimento foi, não me entenderam. 

Acho que é por isso, olhando meu mundo em volta, que eu me sinto tão sozinha. Não é por ânsia de contato físico ou nada do tipo, é por contato mental. Acolhimento emocional. Me sentir pertencendo a um lugar onde eu posso ser natural. Eu falo cochichando dentro da minha própria casa. Eu faço minhas coisas escondidas atrás da cortina fechada. Eu só canto quando não tem ninguém em casa. As vezes eu me sinto mais livre, mas num geral não. 

Eu realmente não sei o que fazer, não sei por onde começar. Sei que ficar quieta não vai fazer nada de bom por mim, mas tem horas que isso é tudo o que eu consigo. Tá na hora de eu me salvar de novo e eu não tenho nada das mãos a não ser um palito de picolé, não premiado. 

Talvez eu devesse quebrar a ponta, afiar e enfiar no olho pra acabar logo com essa história. 

Me deseje sorte. 


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Shh...

É, faz um tempo que não venho aqui. Não tenho tido vontade de falar com ninguém, nem com você. E apesar da minha cabeça estar vazando com conversas internas e reflexões inúteis, eu só quero ficar preenchendo minha mente com histórias. Então tô lendo loucamente. Por sorte ou não, tenho acertado uma fila de livros bons, inlargáveis, que ajudam nesse objetivo. Também são ótimos pra me ajudar a passar noites em claro, nem sono eu tenho sentido. Dormir tem sido um esforço consciente.

Ficar acordada também tem sido um esforço consciente. Eu sinto meus lábios enrugando pra dentro, do sabor amargo que tenho sentido. O coração pesado, a falta de vontade, pensamentos que me perseguem. 

E no cansaço dos dias e noites sem dormir, perdi totalmente meu ritmo. Parei de escrever aqui, tô estudando igual meu nariz, faz quatro dias que estou tentando terminar uma única aula. A porta que comecei a pintar tá do mesmo jeito há duas semanas. Nem preciso começar a contar sobre minha casa. 

Tomar o cogumelo me ajuda, mas ele me deixa ligada, então pra ver se durmo, tenho pulado as doses. Sigo tomando as tinturas, a do dia e a da noite, mas nem isso tem segurado minha onda. Ou talvez essa seja eu com a onda segurada. Todo esse caos por causa dos hormônios, e eu que lide com o rebote. Até eu pegar o ritmo de novo, já vai estar naquela fase de novo. E assim a gente vive, meu Brasil. 

As vezes é um saco ser eu. Inferno, na maioria das vezes é. Talvez eu devesse seriamente parar de contar tudo o que tenho feito pra melhorar, porque isso só faz parecer o quanto tô ótima, tentando, sobrevivendo. Tem sido daqueles dias que nem o básico bem feito tá saindo bem feito. Tá sendo feito, fim. E o que eu posso deixar pra depois nem entra na agenda. 

E não tem ninguém me cobrando, o que é ótimo, mas o que também me deixa definhar a perder de vista. Mas eu mesma fico me cobrando, preciso trabalhar, preciso ganhar dinheiro, não quero viver assim, não dá mais pra viver assim, quando que eu vou me levantar pra vida, quando que eu vou botar em prática as coisas que planejei, será que eu deveria ver um psiquiatra, será que eu deveria mudar de terapeuta, mas caralho, não tenho dinheiro pra escolher essas coisas, então eu deveria me esforçar pra trabalhar, procurar clientes, divulgar e parecer muito feliz porque eu tô fazendo o que sempre sonhei. 

Sem saída. Sem esperança. 

Mesmo nos dias melhores, eu não fiz lá grande coisa pra avançar na direção que eu supostamente quero. Então o problema realmente é depressão e ansiedade ou simplesmente porque sou muito cagada, desmotivada e preguiçosa? Será que eu quero as coisas do jeito fácil, enquanto tá todo mundo se lascando mas fazendo de um jeito que eu olho e acho que essas pessoas é que são sortudas, porque tá tudo fácil pra elas. 

O labirinto da mente fede. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã ou qualquer dia. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Tudo

 Eu tenho dentro de mimos mais terríveis tesouros e as mais belas maldições. 

Carrego dentro de mim o caminho, o retorno, o tempo e o destino. O ponto final e a vírgula. 

Alguns dias são interrogação, em outros eu mergulho profundamente em um mar de exclamações. 

As vezes vôo alto pelos abismos, descanso minha cabeça entre as nuvens e perco o ar enquanto eu respiro. 

Já fui semente quebrando a casca e a terra desesperada pra nascer. Já destruí cidades inteiras enquanto caminhava pelas ruas, encharcada de vento. 

Já fui folha que caiu da mais altas das árvores, pra me estatelar no chão tão suavemente quanto um bebê colocado no berço pelos braços de sua mãe.

Alguns dias sou o Sol que congela os ossos e em outros vejo queimar os lábios dentro da minha geleira. 

Eu sou tudo ao mesmo tempo e ao mesmo tempo eu não sou nada disso. 

Eu sou a doença e a cura, a dor, o rastejo, a dança e a remissão. 

Sou a vitória e o choro de quem ficou em casa durante a guerra esperando notícias que não chegaram nunca. Sou também a letra e a língua cortada daqueles que ousaram falar demais. Sou algo estranho, algo de novo e um sentimento tão velho quanto o tempo.

Um emaranhado de pensamentos e a cacofonia do mundo cegando todos os meus sentidos.

Eu não sinto nada e sinto tudo ao mesmo tempo. 

QI´s altíssimos e emoções abissais

 Eu tenho terapia daqui a pouco e tô pensando no que eu vou falar. Eu ando meio perdida, essa é a verdade. Mas o fato de eu estar sempre caminhando, sempre tentando alguma coisa, de alguma forma faz com que minha terapeuta ache tudo ótimo, o aprendizado que eu tenho com a minha visão das coisas, a forma como eu lido com as coisas, o fato de eu estar me movimentando - mesmo que as vezes minimamente - o que rapidamente faz ela concluir que não, eu não tô perdida de maneira alguma. Então muitas vezes eu deixo muito tempo passar entre uma sessão e outra, porque eu acabo não vendo sentido em conversar. Eu tô sempre buscando uma resposta, e eu vejo a armadilha disso. A resposta sempre está e sempre esteve dentro de cada um. Mas eu acho reconfortante ver gente falando sobre coisas que me são naturais, gente dando nome pros meus bois. Na esperança que essas reflexões me façam encontrar uma resposta, um caminho, uma luz que me mostre o passo adiante. 

O passo adiante no entanto, é continuar caminhando. Continuar observando, continuar buscando a lição. Fazer o que dá, não o melhor que dá. Não dar tudo de si porque nada compensa esse gasto. O melhor de mim tem que vir pra mim, pra minha saúde e pra viver emocionalmente bem. 

Eu sei que a resposta não tá no outro e que ninguém vai me dar de bandeja aquilo que eu preciso. Se me dessem talvez eu nem enxergasse, até. É por isso que as vezes a conexão perde o sentido de ser e nessa brincadeira, eu também perco a conexão comigo. Com a minha centelha, com aquilo que faz a minha alma vibrar. Quando eu me conecto com a minha parte bonita, eu me conecto com todo o resto. Quando eu encaro meus escuros, eu não vejo mais nada. 

Quanto mais luz, mais sombra. Ontem eu tava lendo um livro de um grupo de estudos que estou participando e o livro dizia um pouco sobre karma, e que algumas pessoas acabam tendo problemas recorrentes mais graves para liberar esses karmas de um jeito mais rápido. Forjada a ferro e fogo, me disseram uma vez. Parece chique, parece exclusivo, talvez fosse pra eu me sentir especial de alguma forma, mais forte. Eu sei que sou forte pra caramba, mas a carcaça também cansa. A força esmorece, mesmo que ela nunca saia realmente de dentro de mim. Eu tô sempre lendo alguma coisa, procurando uma direção, sempre buscando uma atividade que me coloque em movimento, alguma coisa em movimento. Mas é um esforço imenso pra chegar apenas no ponto de partida onde aparentemente a grande maioria está. Então que chances eu tenho de fazer algo a mais, sair do raso?

Tem um cara falando sobre superdotação na internet. Que não tem a ver com QI´s altissimos, aparentemente, apenas uma intensa curiosidade sobre tudo. Capacidade de pensamento abstrato e a falta de conexão que isso traz, por não poder ter uma conversa dessas com qualquer pessoa. O quanto isso tá relacionado com tdah e outras patologias emocionais e mentais. Eu me identifiquei quando ele falou que dificilmente uma pessoa superdotada vai achar que é superdotada simplesmente pelo fato de se achar tão estranha, ter uma autoestima tão minada pelos anos de estranhismo pela vida afora, que o simples termo super-dotado parece uma piada. Parece mesmo, mas o discurso me pegou. Sempre tive facilidade pras coisas que me interessam, enquanto os estudos formais sempre me soaram inúteis e simplesmente eu não gravava. Hoje em dia, não sei se por estresse, pelo uso de remédios, meu cérebro fritou. Tenho dificuldade de entender alguns pensamentos, dificuldade de ler algumas coisas, mas ao mesmo tempo consegui ler vários livros em uma lingua que eu ainda tô tentando dominar. 

Pode ser uma resposta, pode não ser. Pode ser só mais um fato que vou juntar naquela pilha e não fazer nada com ele. 

Pode ser só meus hormônios que deram uma surtada e eu fui pega desprevenida. Pode ser um monte de coisas. Pode ser também só mais uma confirmação do quanto eu tô cansada dessa vida e do quanto eu não tenho nenhuma solução em vista ainda. 

Me deseje sorte, 

Até amanhã quem sabe. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A ladeira tá logo ali

 Eu tô meio estranha de novo. Desde que o ano começou, tenho dormido mal, demoro pra dormir mesmo morrendo de sono, tenho sono cortado e tenho acordado com dor no pescoço. Aí claro, não tô prestando. Deixei de escrever, deixei de estudar, deixei de lado meus projetos e tava fazendo só o mínimo pra manter a missa acontecendo. Pode ser tpm, pode. Deus sabe que sou refém dos meus hormônios da felicidade, mas com certeza a falta de sono não tá ajudando. Ou minha cabeça. 
Porque claro, já fiquei contabilizando quantos dias eu tenho para terminar o curso, e que eu não tenho exatamente dois dias para terminar cada aula do jeito que eu quero. Fico vendo cada coisa na minha casa piscando em neon me lembrando que eu não fiz, a lista de tarefas se repassando aqui na tela mental só pra dizer que eu tô atrasada no rolê. 

Eu sou a pior coisa que pode acontecer comigo, e se eu deixar, também a melhor. 

Não tá um caos, ainda. Mas eu conheço os sinais e sei que eu tenho que reforçar minha vigilância pra não sair rolando ladeira abaixo nos próximos dias. É incrível como as coisas se amarram e se justificam umas as outras. Não faço as coisas porque tô extremamente cansada, mas as coisas ficam aí me lembrando que querem ser feitas e o tempo continua passando.

Dai me sinto uma fraude, derrotada. 

Aproveitando esse lampejo de consciência, vou tentar fazer diferente hoje. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

E agora?

Eu tenho noção de que sou velha há muito tempo. Não de idade, não de aparência, mas de costumes, vontades, hábitos e forma de pensar. Mas volta e meia acontece alguma coisa que me faz me sentir como uma criança, seja pela ingenuidade, fragilidade ou simplesmente pela falta de habilidade em lidar com alguma situação ou emoção. 

Eu tenho sido firme em respeitar minha vontade e especialmente, em não deixar ninguém abusar da minha boa vontade e disposição. Claro que a pessoa número um, campeã invicta nesse aspecto é minha irmã. Ela não é conhecida pela organização que ela mantém, nem sequer limpeza. Ela deixa muito claro que ela não se importa com isso, é claro, ela quer as coisas limpas, desde que não seja ela segurando a vassoura. Já larguei mão de tentar manter a parte comum limpa porque ninguém parece ter o mínimo apreço em desviar das suas preguiças pra manter o lugar organizado, mesmo que a pessoa tenha passado dias organizando aquilo. Águas passadas. 

Bom, ela me pediu pra ajudar a organizar a casa dela porque ela vai receber um amigo. A casa dela tá apocalíptica há vários meses, com a desculpa de que ou ela está muito mal para conseguir limpar (o que eu entendo) ou que está muito ocupada produzindo para usar o tempo pra isso, o que eu também entendo. Acontece que eu já ajudei ela outras vezes e o desfecho é sempre o mesmo, eu acabo fazendo tudo ou a maior parte, porque ela trabalha por cinco minutos e vai ver o celular, "precisa sentar um pouco" e empilhando desculpas até que eu tenha terminado tudo sozinha. E não dura nada, a visita vira as costas e ela continua a zona de onde parou. Então só isso já não é grande motivador. 

Também tem o fato de que no geral, ela me trata mal. No geral, ela me trata bem quando ela tá bem com a vida dela, o que não é comum, ou quando ela quer alguma coisa. Tivemos dias legais ultimamente, e me deixa triste o fato de acabar nisso, ela pedindo alguma coisa porque estamos bem. 

Hoje e amanhã eu tenho que atender, com horário fixo, e também tenho que dar conta das minhas coisas que acumularam por aqui. Tive cachorro hospedado até ontem, que mijaram por tudo e por consequencia, os gatos também, porque afinal, eram intrusos na casa deles. Então meu plano de hoje era começar a limpar essa bagunça, atender, voltar pra casa e continuar, depois atender de novo e no intervalo estudar e fazer minhas coisas. 

Eu finalmente comecei a fazer umas pinturas no gatil que eu queria há muito tempo. E no meu tempo livre, eu quero fazer isso. 

Aí a parte onde me sinto infantil é justamente essa. Me custa ajudar? Não. Só me custa o fato de eu me botar em segundo/terceiro lugar pra ajudar alguém que eu não quero e que muitas vezes nem merece. Isso me parece um preço bem alto. Eu expliquei que eu tenho essas coisas pra fazer e a resposta foi a de sempre, aquela revirada de olhos, deixando bem claro que ela tá pouco se fodendo pro que eu tenho que fazer, que a minha prioridade deveria ser ela. 

Só que eu peço ajuda da minha mãe quando eu preciso, quando eu não consigo. Mas nunca pedi ajuda porque fiquei meses bagunçando e sem mexer um dedo pra mudar isso. Eu sempre tõ tentando manter a ordem, afinal eu me sinto e sou responsável por várias vidas aqui, que não tem nada a ver com os meus desarranjos emocionais. E é sempre uma ajuda, nunca ninguém teve que fazer tudo por mim enquanto eu estava lá, me fazendo de sonsa enquanto alguém arrumava minhas merdas. 

Então isso me pega de um jeito estranho, me irrita, me faz me sentir usada e puta da cara. Ofendida. Ao mesmo tempo que eu não quero discussão, porque qualquer argumento com ela sempre, invariavelmente acaba em discussão, eu também quero falar tudo isso pra ela. Mas não sei exatamente com quem estou sendo injusta. Eu tenho argumentos pra todos os lados, o meu e o dela. 

De qualquer forma, mesmo que eu ajude, eu vou me certificar de que seja uma ajuda e não um abuso. Mas eu vou tentar me esquivar do jeito que eu puder. 

Me deseje sorte,

Até amanhã, quem sabe.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Feliz Ano Novo e tal

 Não sei direito como me sentir nessa data, sempre foi a festa que eu menos gostei. Num geral, odeio ficar acordada até muito tarde, especialmente se o apelo é apenas esperar o reloginho virar pra meia noite, comer uns bagulhinhos em volta de um monte de gente que também tá querendo dormir. Ou que já tá rolando de bêbado.

Antigamente eu tinha que ficar acordada, mesmo que a comemoração fosse mínima, dentro da minha casa, porque eu tinha que ficar cuidando dos animais que morrem de medo de fogos. Tinha toda uma preparação e a gente ficava acordada até mais de 1h, porque sempre tem os retardatários que soltam fogos uma hora depois. Aqui no interior tem muito menos barulho, e na teoria a barulheira dos infernos foi proibida. Na teoria, infelizmente.

Também tem o lado que, mesmo sabendo que é tudo um contínuo, que a gente só vai seguindo, e que essa marcação é só mais uma – tem uns três tipos de ano novo pelo ano só pelo que me lembro agora, eu não deixo de ter uma sensação de angústia.

Me sinto como se estivessem me entregando um pacote, um cheque aparentemente em branco, mas que se você olhar bem, tá escrito em letras incrivelmente miúdas. Me traz ansiedade pensar o que aquele próximo bloco de tempo reserva, até porque eu sou gata escaldada. Sempre penso se vou perder alguém, humano ou peludo, e se eu devia estar aproveitando melhor a companhia de alguém que nem sei que vou perder. Já me sinto de antemão ingênua e impotente de ficar acordada até mais tarde, comemorar, fazer planos, para no fim aquele ano vir com uma voadeira e me destroçar.

Então eu prefiro ignorar. Só seguir o baile e não pensar em blocos de tempo e o que eles podem trazer pra minha vida.

Ah, eu sei, não são só de mudanças ruins que a vida vive. Mas gata escaldada tem medo de água fria também. Numa vida onde as tragédias parecem ser tão mais potentes que as vitórias, talvez esteja certo. Talvez porque as vitórias sejam mais silenciosas que as derrotas. E de novo, numa vida onde a média tá sempre baixa, qualquer perda faz um rombo no placar. Provavelmente é ignorância minha.

Vamos caminhando pra ver o que vai dar.

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Festividades ligeiramente apocalípticas

 Realmente, ontem fiz muito mais do que achei que daria conta. Tive que dormir no meio do caminho, mas depois foi que foi. Hoje eu só quero ficar paradinha e assim permanecer. 

Um pouco porque tive um sonoro despertar com Quito e Severino se embrenhando nas cortinas, rosnando e se unhando, 5:45. Levantei e coloquei o Quito pra fora. Separei a Bigi pra dar a comida dela que é diferente dos outros gatos, coloquei o Severino no gatil. A Pérola fugiu duas vezes do quarto porque queria a comida da Bigi, que por sua vez não queria a própria comida e quando voltei do gatil, ela já tava acabando com a comida da amiguinha. Ela come porção controlada porque está com cistite e eternamente de dieta. Coloquei água para esquentar e fui abrir um café cremoso que eu ganhei, que imediatamente explodiu na minha blusa, mãos e pia. Aí fui provar o café e provavelmente o ranço entrou em ação nesse momento, porque achei bem ok. Liguei o computador enquanto novamente a Bigi tentava comer a comida que não era dela, ao mesmo tempo que eu tentava convencer a Muga de parar de comer sacola e vir comer o caralho da comida que eu coloquei pra ela. O dia começou festivo. 

Mas já passa. Já vai passar e logo desce a disposição pra eu continuar o que comecei ontem. Tenho fé. Se nada der certo, vou ler meu livro. Quero encerrar o ano com 130 livros e ainda tô no 128. Não quero terminar o ano num número feio, até porque provavelmente não vou ler tanto assim nunca mais na vida. Acho que não mesmo, aliás, eu espero que não, considerando que eu só li esse tanto porque passei muito, mas muito tempo deitada na cama ignorando a vida. Então eu espero humildemente que não. 

Hoje já não acordei tão corajosa quanto ao meu trabalho. Enquanto estava na cama tomando coragem pra levantar, achei um perfil que fala de gatos com uma proposta massa, mas vendo os comentários já me bateu aquele ranço. O perfil tem menos de um mês e muitos seguidores mesmo. Mas é aquela coisa, vídeo informativo, cheio de edições e coisa assim. Eu gosto de me expressar por foto, por texto. Mas nem vou me alongar muito aqui pra não dar trela pras minhas amebas. O foco no momento é o pet sitter e é isso, até que eu trabalhe isso melhor em mim pelo menos. 

Preciso melhorar a vibe desse dia. Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Feito foguete

Hoje acordei me sentindo como se eu pudesse dar um jeito na minha vida, mesmo sabendo que não é assim que as coisas funcionam. A vida não é uma coisa que você vai lá e resolve, eu sei.

Mas acordei com aquela disposição de mudar alguma coisa e provavelmente vai ser algo bem besta como faxinar e mudar alguma coisa de lugar. Nada melhor para clarear a mente como deixar as coisas organizadas, eu preciso começar por algum lugar, afinal. 

Eu vou fazer isso, organizar aqui me dá uma mínima sensação de controle sobre minha vida, mesmo sabendo que tem 29 gatos que pensam que organização é algo a se subestimar. Vou começar por aí e ir desenrolando. 

É isso, me deseje sorte

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Querência das braba

 Meu Deus que parece que quanto mais eu durmo, mais cansada eu fico. 

Acordei super disposta hoje a voltar a dormir. Se eu conseguisse, até tentaria. Mas tõ aqui bravamente tentando um ritual de invocação de disposição, porque senhor amado, dói tudo e a fadiga tá de matar. Hoje três dos quatro grupos de hóspedes vão embora e tem o último pet sitter, então basicamente já posso me considerar de férias. Férias, haha. Como se eu trabalhasse tanto assim e como se mesmo sem um trabalho que me pague, eu não trabalhasse tanto todos os dias. Mas vocês entenderam. 

Para o Ano Novo tenho exatamente nada de clientes, o que por um lado é bom, porque eu nunca curti ficar esperando o reloginho virar, me massacrando para ficar acordada até a noite. E também é bom porque a grande esmagadora maioria dos hóspedes tem medo de fogos, e aí eu TENHO que ficar acordada até bem mais que meia noite pra ficar vendo como eles estão e acudindo os desesperados. Aqui no interior não tem muito, mas tem... poucos dos meus filhos aqui tem medo, então é bem mais tranquilo e dá pra ficar de boa. Eu lembro que teve um ano que a gente tava tão cheio de hóspede, que nós três ficávamos fazendo ronda a toda hora, com os vidros fechados, ventiladores no talo pra abafar o barulho e também pelo calor, musiquinha relax, algodões no ouvido e foi um caos. Era sempre um dia muito longo, porque a gente já tava na lida desde muito cedo e não tinha hora pra dormir. Dessa parte eu não tenho saudades. 

Mas né, sabendo que o povo gosta de festar no Ano Novo, é meio triste saber que ninguém dessas pessoas lembrou da gente. Mas tudo bem, me aguarde. Eu vou levantar essa baiuca de novo e se Deus quiser daqui um ano vou ter que chamar até gente pra ajudar. Ou quem sabe aconteça algo completamente diferente e eu esteja feliz da vida vendendo limonada. A vida tem dessas surpresas. 

Vamos ver se hoje eu volto a estudar minhas coisas, transcrever meu curso e ver mais um pouco daquele do Neilzin. Eu tomo cuidado com esse porque é eu ver aquele bagulho, me dá uma vontade louca de escrever - ou seje, não posso assistir aquilo em qualquer horário remotamente perto da hora que eu pretendo dormir ou é insônia na certa. E tem duas noites só que eu tenho dormido direito, não quero abusar da sorte. 

Eu me acho meio retardada porque quando eu começo a ficar bem, eu quero fazer tudo e quero fazer tudo ótimo. Isso é um perigo, porque querendo fazer tudo ótimo, eu provavelmente vou começar a procrastinar e ficar frustrada e acabar não fazendo nada porque me cobrei muito. Então o foco ainda está sendo transcrever meu curso, erguer meu negócio - ainda que tenha um monte de ações pra isso que eu nem parei pra pensar direito. Mas tudo isso enquanto mantenho os pratinhos girando por aqui. Então não quero inventar muita moda, tenho que dar uma segurada, porque quando eu tô assim eu acho tudo interessante. Quero aprender a tocar meu ukulele, quero melhorar meu canto, quero voltar a escrever meus contos, quero deixar a casa em ordem, quero tomar minha tintura direitinho, quero dar as tinturas específicas pros gatos que precisam (e aqui entenda que pra isso eu preciso isolar esses gatos em cada tomada), quero terminar minha cortina, quero fazer a fonte verde, quero fazer o curso que eu achei do Neil, quero ler mais sobre ocultismo, quero ter clientes a ponto de ter uma segurança financeira e quero ter tempo pra ler meus livros. Várias coisas dessas são pontuais e poucas são obrigações, e nem quero que seja. Quero respeitar meu tempo, meu processo, meus dias ruins e tudo isso. Um dia eu consigo, no outro não e tá tudo bem, tem que estar tudo bem. É uma cobrança ridícula que já deu mais do que hora de eu me livrar. 

Mas é isso aí, me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Cura milagrosa de 200 fios 100% algodão

 Se existe milagre neste mundo, é o milagre de uma boa noite de sono. 

Os passarinhos cantam, o sol brilha, as folhas estão verdes lá fora e até meus gatos estão sossegados. Aleluia meu pai. Ontem foi o última dia dos dias mais corridos e hoje a correria é pra desfazer os arranjos. Tutores vindo buscar seus pimpolhos, eu e Possante se embrenhando nas quebradas pra levar os outros pimpolhos pra casa. Tô visivelmente menos agitada. 

Ontem comecei a ler um livro novo, depois de finalmente ter terminado aquele que fiquei lendo a semana toda. Eu já tava de saco cheio, parecia que a história estava se enrolando, mas não sei se é porque estava mesmo, ou porque eu só tava conseguindo ler pouca coisa por dia. Além do pouco tempo, eu estava muito cansada a noite e quando ia ler, já estava caindo de sono e não conseguia prestar atenção e tinha que ler duas vezes cada coisa pra conseguir captar a informação. Com a cabeça agitada eu não conseguia parar pra ler de verdade aquilo e ficava me interrompendo pra levantar fazer sei lá o que. 

Eu não sei se hoje vou conseguir voltar a estudar, talvez hoje ainda seja corridinho. Esses dias eu não estudei porque apesar do tempinho que fiquei em casa, não queria me cansar além do que precisava, mas não quero perder o pique da minha tarefa. Eu tô animada pra voltar e também começar as outras tarefas que me propus. Quero mesmo, de verdade, tentar levantar meu negócio de novo e fazer movimentar. 

Também decidi que vou tirar uma parte do meu ganho desse final de ano pra fazer umas prateleiras pros gatos. Das coisas que listei pra eles pra um futuro tão próximo quanto possível, essa com certeza é a mais importante, ainda mais com todos os quartinhos/isolamentos fechados com hóspedes. Eles ficaram sem lugar algum pra se esconder e alguns são muito medrosos. 

Ontem falando isso pra minha mãe, obviamente ela começou a questionar dizendo "mas você tem tantos nichos" e eu achei isso incrível, porque... a leitura dela é igual a de muitas pessoas que me ouvem reclamar do meu gatil. Eu tenho exatos 4 nichos e dois deles estão na parte onde tem os hóspedes. Ou seja, o "tanto" de nicho é apenas dois. E nem todos os gatos gostam, porque não tem rota de fuga fácil. Então minha idéia é fazer um circuito tão grande quanto eu puder pagar, pra além de aumentar o espaço vertical deles, dar rota de fuga (de mim, inclusive) e esconderijo pra esses belezinha. 

Queria muito ser muito cheia da grana, comprar um terreno do tamanho de um estádio de futebol e telar tudo. Plantar um monte de árvores de verdade pra eles subirem, fazer casinhas pelo terreno, plantar um monte de coisas legais pra eles comerem, cheirarem e se esfregarem... fazer um laguinho com aquelas carpas sem vergonhas, com uma cachoeirinha pra ver a gataiada fazendo zona. Grama... gente, como eles amam grama. Essa casa que eu moro me mostrou que eu mesma não preciso de muito mais do que isso aqui, pra mim. Se eu fosse adicionar alguma coisa aqui em casa, provavelmente faria um quarto ligeiramente maior e melhor disposto, mas de resto tá perfeito. Mas eles sim, eles precisam de mais espaço pra se esconder e ficar de boas curtindo um sossego enquanto os outros ficam chacoalhando seus coqueirinhos correndo e metendo o louco pela casa. 

Eu sei que eu vou morar aqui por um tempo, mas sei também que eu vou sair quando eu puder. Dai eu fico de novo naquela coisa de "será que eu invisto aqui", mas como no momento não tenho perspectiva alguma de sair, vou sim investir aqui, porque também tem o fato de quanto mais tempo eu ficar, menos provável vai ser minha saída. Não por apego, mas por causa da minha mãe. Cada vez ela tem mais dificuldade, tem essa depressão que ela se recusa a ver e por consequência fazer algo por isso, tem a relação péssima dela com a minha irmã. Nada disso é minha responsabilidade, mas eu não conseguiria sair daqui e deixar minha mãe com uma casa inteira nas costas pra lidar. Só preciso achar um jeito de ajudar sem que eu carregue ninguém, nem deixe minha saúde ou prazer de viver no balcão pra pagar essa conta. Não faço ideia de como fazer isso, mas eu confio que as respostas vem quando a gente precisa delas. Por enquanto vou viver o dia de hoje e agradecer pela noite de sono e pelo humor reconfigurado. E ler o livro novo que tá massa. E trabalhar um pouquinho. 

É, tá bom já. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Acordei um Grinch

 Olha lá, chegou o Natal. 

Eu não sei o que eu esperava que acontecesse no Natal. Talvez eu tivesse naquela esperança de ter um dia com aquela magiquinha infantil, a casa decorada, luzes piscando e uma vontade gostosa de comemorar. 

Eu acordei mau humorada hoje. Faz três noites que não durmo direito. Ou demoro pra pegar no sono ou acordo cedo demais ou fico acordando de madrugada... ou tudo isso junto. E juntando com a rotina desses dias que tem sido de dias completos, eu tô esculhambada. Enquanto eu escrevo pra tentar diluir esse veneno correndo aqui dentro, uma das minhas gatas quer comer e tá fazendo frescura porque os outros estão perto, querendo comer também. Todo mundo já comeu, mas estão cercando ela como se não comessem desde o Natal passado. Uma está de dieta e não pode comer mais do que a quantidade designada, aí o outro veio e começa a brigar com ela pra disputar. E a gata que ainda não comeu porque tá de frescura, fica subindo e descendo dessa mesa, lambendo minha mão, meu ombro, o teclado e nem olha pra comida. Mal escrevi um parágrafo e já interrompi mais de cinco vezes. Não ajuda muito eu estar irritada. Também já sentaram no mouse e quase fecharam esta janela. 

Tirando minha óbvia ressaca de sono, tô cumprindo meus objetivos. Tô trabalhando com leveza, tô fazendo meu quase melhor e fazendo tudo o que precisa. Mas o Natal em si... tá difícil de engolir.

Não decorei minha casa nem minimamente, nada. Comprei um presente que eu nem podia porque eu de alguma forma consegui convencer minha mãe de trocarmos presentes e comprei um pra ela porque eu tenho certeza de que ela comprou algo pra todo mundo menos pra ela. Não foi porque eu podia ou queria, porque o clima tava péssimo, mas numa tentativa de evitar uma cara de cu e um clima de manipulação emocional. Super massa.

Mas tá tudo meio virado mesmo, eu acho. Tenho vivido esses dias no meu mundinho sem acessar os mundos paralelos, mas de vez em quando o pára raio fica desavisado e acaba pegando alguma coisa. Eu preciso dormir, pelamordedeus. 

O lado positivo é que hoje é o último dos piores dias, a partir de amanhã as coisas começam a ficar menos corridas, aí quem sabe minha cabeça desliga e eu consigo dormir. Mas por via das dúvidas, além da tintura da noite vou fazer um chá de sossega leão e tentar a sorte. Eu só preciso dormir, daí aguento o babado. 

Me deseje sorte, e sono.

Até amanhã, quem sabe

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Pessoal demais pra ser publicado mas que eu publiquei mesmo assim

 Caraca, é chegar essa época em que a gente fica na correria verdadeira que me bate umas coisas. 

Ao mesmo tempo que eu fico grata por ter alguns clientes, ainda que muito menos do que nos anos anteriores, me dá três tipos de negócio ao ver como isso pega na dinâmica aqui de casa. Minha mãe fica mega nervosa, fala alto, dá uns surtos, fica mau humorada, dramática e reclamona. A ponto de não existir mais respostas de "sim" ou "não", é sempre um discurso que se segue após uma pergunta simples e repleta de suspiros. 

Minha irmã, por outro lado, acha que tudo vai dar errado. Ela aponta para todas as possíveis falhas que podem acontecer, e bate o pé como se aquilo estivesse prestes a acontecer. Coloca vários impedimentos de horários, de rotinas, de gerenciamento de espaço, além de não contribuir com nada. Ela nunca cuida de nenhum hóspede que vem - ela mal cuida dos bichos dela o ano todo, é verdade. Não ajuda, só reclama, põe defeito e reclama que a gente não tá fazendo as coisas que ela queria que a gente fizesse por ela. 

Eu já levei pra terapia várias vezes como isso me desce mal. Meu trabalho já esteve melhor, já consegui em algumas épocas pagar por várias contas da casa além das minhas. Mas nunca senti delas o sentimento de "pô, que legal, o negócio tá fluindo" ou "massa, o que a gente pode fazer pra melhorar". Foi sempre um fardo, um troço pesado, um favor que elas estavam fazendo pra mim, mesmo na época em que todo mundo recebia dinheiro pra isso. Hoje em dia nem eu ganho dinheiro, tudo o que eu ganho vai basicamente para pagar as contas. Eu sei que eu mesma já dancei essa música várias vezes, me sentindo completamente igual, mas eu consegui ficar consciente disso e tentar reverter. Afinal é o trabalho que eu já tenho, já existe, já sou conhecida e procurada por isso. Então quem sabe vale a pena investir um pouco mais nisso aí pra ver se ainda sai alguma coisa boa. 

Não sou contra ninguém ir buscar seus caminhos, mas me dói o fato de ninguém nunca ter cogitado esse trabalho como opção, sempre soou como um favor feito a mim, mesmo. E em outros momentos ouvi minha mãe falando pra gente pensar em algo para trabalhar juntas, e dai eu penso... mas que raios? Porque não isso? Porque não tentar fazer isso dar certo, assim de coração? Metade da porcaria do trabalho é brincar e ser feliz, caceta. Ninguém precisa relar numa planilha se não quiser. Eu mesma não faço uma planilha há anos. Nenhuma delas tem que dar aquela rebolada para conversar com tutores exigentes, chatos, as frescurinhas que sempre aparecem e que a gente tem que sorrir e acenar como em qualquer trabalho. E dentre as opções acredito mesmo que a nossa não é tão ruim assim, podia ser muito pior. Se eu fosse obrigada a passar meus dias num escritório com certeza eu viveria muito mais irritada com tudo. Tirando essa semana de Natal e Ano Novo, a gente faz nossos horários, temos tempo pra nós, não tem chefe, não tem várias coisas que o mercado de trabalho normal tem. 

E certo, eu passei um ano e meio sem divulgar esse trabalho, então o volume diminuiu drasticamente. Mas é algo que bem feito, pode sim dar dinheiro e ainda ser algo divertido e leve. Essa constante rejeição bate em mim as vezes e eu fico me sentindo uma bosta. Como se eu tivesse atrapalhando todo mundo, porque todo mundo quer só que o dinheiro venha enquanto segue jogando gardenscapes ou lendo mangá. Isso me irrita num tanto que não tá escrito. A sensação que eu não sou suficiente, competente ou agradável, independente do que eu faça. Isso me dá uma vontade do caralho de sair e me virar sozinha, mesmo sabendo que nesse momento isso não é uma opção e nesse momento eu dependo ainda delas, inclusive para trabalhar. 

Porque enquanto eu tô lá na rua, nas casas atendendo, alguém tem que ficar aqui recebendo os hóspedes que vão chegar, alguém tem que estar em casa no horário do remédio das crianças que estão aqui. Aí eu acabo fazendo das duas uma: ou eu assumo todas as tarefas possíveis porque tô puta mas tentando manter a pose, ou eu largo de propósito algumas tarefas e deixo elas bufando - enquanto eu tento também manter a pose. Nos dois cenários eu acabo drenada em algum ponto, durante esses dias ou quando eles passam. É por isso que eu queria acabar com o hotel e mudar de trabalho para algo que eu fizesse sem elas. 

Pra fazer o hotel oficialmente eu precisaria construir e até nisso a gente não concorda. Porque se for pra construir algo que os hóspedes não fiquem bem de verdade, eu não quero. Eu sei que sou meio megalomaníaca e queria um baita hotel com quartos amplos cheio de bagulhada e áreas de recreação perfeitas em que a manobra dos animais fosse mais fácil. Eu sei das minhas condições financeiras, mas eu também tô ligada na maldição do provisório. O provisório fica pra sempre, e aquele espaço sem atrativo nenhum acaba fazendo exatamente isso, não atraindo ninguém. 

Então aí fico nessa sinuca de bico, porque vale mesmo a pena pensar em economizar para construir algo massa se provavelmente a realidade desse hotel maravilhosos funcionando vai ser a mesma desse caos mal humorado que a gente já vive? Pra eu construir e ao mesmo tempo, conseguir pagar alguém... eu nunca consegui isso antes. Nunca consegui ganhar o suficiente para oferecer pra alguém um salário oficial que seja. Os salários distribuídos antes eram apenas as divisões dos ganhos. E aí eu mesma caio sozinha na armadilha do "eu não vou dar certo", de não ser suficiente, de não ser competente, etc etc. 

Mas o que eu tenho por enquanto é a opção de tentar manter a pose, sem fingir coisa nenhuma. Tentar de verdade levar esses dias mais leves e fazer o melhor que eu puder - talvez como uma última tentativa de pegar um ar antes de afundar esse trabalho para sempre, não sei. Mas o que eu tenho em mãos hoje é isso e eu vou agarrar com todas as minhas forças. Que Deus me ajude. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Bolas de neve no segundo dia do verão

 Olha, pra ser sincera tá dando tudo certo. Tá um caos aqui na cidade e de verdade já estaria mesmo se não fossem essas chuvas e o estrago que elas fizeram. Temporada, né? Enche de gente, as estradas ficam lotadas de gente apressada demais pra começar o sossego e que acabam desenrolando uma bola de neve de acidentes, carros parados e gente apressada inventando novos palavrões. 

Descobri um novo caminho para chegar no centro, então eu e Possante estamos indo até bem perto de onde Judas perdeu suas incansáveis botas já furadas, que é uma estrada muito bonita além de ser bem emocionante. Toda de barro com lugares bem estreitos e invariavelmente cheia de buracos. Ela passa por volta do morro, então é toda verde e tranquila, e eu fui curtindo aquela paz até que começaram a chegar uns apressadinhos querendo me podar - na estrada de terra, molhada e lisa e também esburacada. Pode ir, irmão. Eu não sou a pessoa mais lerda no volante, mas em uma estrada que eu não conheço e nessas condições, sem sinal de telefone pra pedir ajuda caso eu precise, não obrigada, eu vou devagar devagarinho. Possante já passou muitas aventuras nos últimos dias e o coitado ainda tá com a buzina fanha do mergulho do outro dia. Talvez eu devesse levar ele ao pediatra, mas Possante é um cabra forte, tem resistência e imunidade. Só Deus e eu sabemos o que ele já superou. Nem o mecânico ficou sabendo. 

Mas tá dando tudo certo, ontem foi bem corrido e quando chegou a noite, queria morrer dormindo, mas meu sono tinha outros planos e me deu uma insônia de presente. Acabei dormindo mesmo assim, umas duas horas depois, mas ainda sinto que eu venci essa. 

Daqui até o começo do ano vai ser assim, não sei o que eu vou conseguir fazer dos meus projetos pessoais, mas tá tudo bem. Meus últimos meses foram de especialização no Básico bem feito e é isso. As vezes nem tão bem feito e é isso também. Mas tô fazendo questão de tomar meu tempo pra cada coisa, me sentir ali ou aqui nesse momento, fazendo o que eu tô fazendo com quase tudo o que eu posso. Quase tudo, porque eu tenho que deixar uma sobra pro fim do dia. Acho que meus livros nunca duraram tanto. Faz dias que eu tô na mesma história e eu tô lendo uma sequência, então parece que eu tô num livro enorme. Nunca me intimidei com isso, mas é estranho estar num mesmo universo tanto tempo seguido. Isso não é bom nem é ruim, é só diferente. Meus dias estão mais longos e também mais curtos ao mesmo tempo, estar presente num dia totalmente preenchido, mais ou menos se ligando no horário mas também nem tanto, deve ser essa a razão. 

Por enquanto seguimos viva e confiante. E também estamos cansadas, mas vivas e confiantes. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

São Pedro no hospital psiquiátrico

 Ontem foi um dia bizarro aqui na minha cidade. Rolando o feed de notícias só se via água. Enxurrada correndo por dentro das casas, carros submersos, estradas alagadas e bloqueadas, teve até um incêndio gigantesco que fez os bombeiros tirarem todo mundo das casas da região por causa da fumaça tóxica. Abrigos improvisados, tratores resgatando pessoas ilhadas, um cenário de apocalipse de um filme meio tosco. 

Mas aqui pra mim, tenho certeza de que nos bastidores de tudo isso, tinha um São Pedro muito irritadinho quebrando copos pelas paredes do Céu, jogando tudo pelo chão como um astro de rock das antigas num quarto de hotel. Porque ali pelas tantas, a chuva parou do mesmo jeito que veio e o Sol apareceu como se só tivesse perdido o horário do ônibus para chegar no trabalho. Meu celular não despertou, ele disse. A gente sabe bem como a tecnologia nos deixa na mão na hora que a gente mais precisa. 

Hoje o dia está brilhando, as folhas estão verdes e felizes depois de tanta chuva. O pato foi embora junto com as garças, a procura de um novo toró para se esbaldar. Não julgo, o céu de uns é o inferno de outros. 

Então oficialmente começamos a temporada dos atendimentos de final de ano. Vai ser mais corrido que a minha rotina normal, mas também não vai ser nenhum descalabro. Talvez até dê pra eu continuar minha rotina de escrever e estudar diariamente, mas já deixei a disposição todas as colheres de chá para a ocasião. Vou usar disso como ensaio para ver se consigo trazer a leveza para esses dias mais pesados, ver se consigo manter o equilíbrio e a alegria quando sim, a população aqui de casa já está flertando com o modo surto. Bom, talvez nunca nem tenham saído desse modo. Tudo bem. 

Pequenos passos, pequenas metas, andar devagar e fazer uma tarefa por vez. De preferência seguir assim até que se faça tudo, mas se não fizer também, faço outro dia. Minha última meta desse ano é terminar o ano sem surtos e provavelmente essa é uma meta que vai se estender para todos os recomeços que eu passar, coincidindo com viradas de calendário ou não. É uma boa meta. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Sigam-me os bons

Jorge Ben Jor disse uma vez e disse muito bem - moro num país tropical. Além de ser abençoado por Deus e morar num lugar bonito por natureza, uma beleza, isso quer dizer que a chuva desce com uma vontade muito autêntica - e também dizem que pra descer todo santo ajuda. 

Esses dias de ausência foram também de muita emoção, mas emocionada mesmo eu fiquei quando por muito pouco fiquei com o carro parado no meio de uma inundação. Possante e passageiros passam bem, mas fiquei tremendo por quarenta e cinco minutos direto depois que chegamos em casa. Em um ponto entre a BR e a minha casa, tem um lugar que sempre inunda, um espaço de 10 ou 20 metros de adrenalina que só os fortes sobrevivem. 

Já na chegada da minha viagem a Curitiba, fui atender uns gatinhos e passando por esse lugar, suamos um pouco, mas passamos. Chegamos numa BR totalmente parada, mas com paciência e um metro de cada vez, chegamos ao nosso destino. Mas era na volta meus amigos, que a verdadeira emoção nos aguardava. Chegando no trecho fatídico, não 20 metros, mas pelo menos o dobro de trecho de inundação. Uma fila de três carros estava parada ali, o primeiro da fila dando a ré e desistindo covardemente do destino. Os outros dois carros cedendo ao clima de derrota e se alinhando ao canto da estrada. Mas o Possante nada teme, então encaramos a água e agradecemos mentalmente as nossas mães pelas aulas de natação durante a infância. Antes de enfrentar nosso inevitável caminho, proferimos palavras para os desistentes que podiam ser ouvidas tanto quanto incentivo quanto troça. 

SIGAM-ME OS BONS

E partimos. Seguíamos confiantes, o Possante dando braçadas vigorosas, os passageiros tremendo e orando para todos os santos que não estivessem com seus baldes na mão mandando água pra cima de nós e fomos. Quando estávamos pela metade, Possante quase se foi. Do seu pulmão mecânico cheio de água saíam ruídos de desespero, mas ali dentro os passageiros continuavam emanando suas palavras de encorajamento e confiança - vamo rapaz, vamo vamo vamo, o que injetou uma súbita descarga de adrenalina no Possante e finalmente ele conseguiu. Os passageiros respiravam aliviados, com tudo o que era tremível em seus corpos devidamente tremendo, aos berros comemorando a vitória com seu Celta incrivelmente 4x4 e ainda mais surpreendentemente anfíbio. 

Mas o encorajamento é uma força poderosa e transmissível e ao olhar pelo retrovisor, os carros que tinham desistido, faziam seus caminhos atrás de nós, dando buzinadas de comemoração e vitória. 

Não saio mais de casa tão cedo. Eu deveria estar indo até o centro neste momento, atender os gatos de ontem, mas graças a Deus a cliente tem uma vizinha prestativa que vai atender eles por mim hoje, então posso ficar ilhada aqui dentro de casa. E é assim mesmo que estamos. Piscinas naturais e cachoeiras se formaram no meu quintal durante a noite. Os gatis cheios d´água. Surgiu um pato do nada e ele tá bem feliz, como um pato na goteira. Juntou uma família inteira de garças, que já estão em clima de Natal e brigando umas com as outras por qualquer motivo. Meu quintal inteiro está embaixo d´água e nem que eu quisesse tinha como chegar até o carro. Bem, até tinha, só que nadando. 

Mas lembrando da última vez que isso aconteceu - nem faz tanto tempo, porque eu já escrevia aqui - eu tenho uma coisinha para agradecer. Apesar da bagunça, do caos que me espera se essa chuva persistir - por causas dos pet sitters de fim de ano, a semana de trabalho mais importante do ano pra mim - eu estou bem. Quis vir aqui antes para não quebrar meu ritmo, mas aquele sentimento que sempre vem me visitar em dias de chuva e goteira não vieram hoje. Não estou empolgadíssima para meter a mão na água suja e limpar tudo, mas também não tô sentindo nada que me impeça. Mais uma vez vou apelar para os meus fones para me ajudar na função. 

É nessas horas que eu consigo acreditar que eu realmente estou melhorando. Se é por causa da tintura que minha mãe fez, ou por escrever, ou sei lá porque, não sei. Mas tá funcionando e eu quero manter assim, acreditando e seguindo - até embaixo d´água. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Um bagulho meio esquisito

 Ontem a noite me bateu um negócio que até estranhei. Passei o dia tão agitada, fazendo as coisas, mas meio que fazendo cosplay de barata tonta, começando uma coisa pra largar ela no meio do caminho depois de ter começado outra e repetido este mesmo ciclo. Consegui concluir quase tudo o que eu queria, no entanto. Mas quando chegou a noite e eu fui sentar com meu livrinho, eu não conseguia ler, porque minha cabeça ficava indo longe a cada duas frases, e eu tinha que voltar uma página toda pra entender o que eu tava lendo. 

Comecei a ver um filme, pra ver se me ajudava a focar mais, mas é um saco ter que ficar interrompendo o filme toda vez que eu preciso levantar. Acho que tô mais conformada em interromper a leitura, me incomoda menos. Enfim. 

No final das contas, perdi um bom tempo no instagram vendo bobagens e foi aí que o bagulho bateu e foi inesperado. Senti uma agitação, mas toda diferente do que eu tava sentindo durante o dia. Senti um bagulho muito parecido com esperança e confiança. Minha mente foi reunindo a Assembléia e eles que já estavam em polvorosa, pior ficaram. A diferença é que dessa vez eram boas ideias, bons pensamentos. Pensamentos me dizendo que eu sou capaz, que eu consigo sim fazer um plano a médio ou longo prazo. Um plano que me dá esperança de viver uma vida mais estável e de talvez trazer pra mim aquilo que ando querendo faz tempo demais. 

Faz alguns dias que eu voltei a estudar. Pra falar a verdade eu decidi pela tarefa Hercúlea (ou seria Alcídica?) de transcrever o curso sobre gatos. São mais de 60h de vídeo, é trabalho pra cacete. Não ousei contar pra ninguém porque eu sei que a partir do momento em que eu "me gabar" sobre isso eu vou perder a disposição. E eu tô determinada a reter cada pedaço daquelas informações, porque eu tenho um caderno todo que eu escrevi enquanto assistia o curso pela primeira vez, mas muito se perde, né? Muito se distorce pelo nosso entendimento. E minha memória nunca foi lá muito memorável. Não pelo motivo certo, pelo menos. Então decidi por essa tarefa e continuo firme, fazendo todos os dias, igual aqui. 

É engraçado a súbita disposição que a gente sente sobre um assunto imediatamente após desistir dele. Foi assim quando eu fazia tricô também. Eu tava tão cansada e cheia de tricotar por meses a fio, fazendo peças que eu não queria estar fazendo, só porque tinha me comprometido com os clientes. Quando eu fechei a loja, passaram poucos dias e eu já estava lá tricotando recreativamente, animada e faceira. 

Eu não estou animada e faceira transcrevendo o curso, mas o sentimento mudou. Considerando que eu passei o mês de novembro inteirinho com o corpo completamente travado, emoções no fundo do poço e um ânimo já muito esquecido no canto do porão, decidir por uma tarefa tão grande como essa, que vai me levar meses, é uma puta vitória. Não tô animadissima em relação a isso mas também não tô com ranço, tô assistindo como se fosse a primeira vez, mas sem o chicotinho a espreita como foi antes. O chicotinho ficava ali do lado, esperando a informação vir e bater no meu peito me dizendo "você faz tudo errado, caralho". Sem chicotinho dessa vez. 

Eu ainda tenho aquela parte de mim que quer depois de tudo isso, fazer uma lista com todos os pontos em que eu ainda erro, e ir corrigindo um por um, ostentando cada check. Mas tem outra parte de mim, mais inteligente eu acho, que sabe que no meu contexto, é bem próximo do impossível fazer todas os requisitos serem cumpridos com sucesso. Não quero me cobrar demais. Quero sim dar o melhor que eu posso dar para os meus gatos, assim como já venho fazendo, e vamos considerar aqui que esse melhor nem sempre é a mesma coisa sempre. Saúde mental é um bagulho muito louco que caga com tudo. Mas eu tenho essa honesta vontade de fazer eles realmente felizes com uma vida rica e feliz, sem esquecer de me fazer feliz também. Talvez essa seja a tarefa realmente Hercúlea. 

Pois bem, ontem olhando o instagram, encontrei um perfil de catsitter muito honesto, simples e engraçado e me fez flertar um pouco com essa possibilidade. Encontrar a graça de novo dentro do que eu faço, encontrar a alma, a alegria, o humor.. e também a parte profissional e estratégica. Me deu vontade de estudar certos perfis que conheço, recolher informações e ver o que funciona. Acho que sou capaz, mesmo que o timing não seja propício por ser fim de ano. Fim de ano eu tinha que aproveitar pra fazer mais dinheiro quanto for possível, mesmo se eu me lascar um pouquinho. Mas talvez seja justamente o contrário, talvez o fato de eu só poder fazer esse estudo depois que o fuzuê do fim de ano passar, me dê o tempo e a calmaria necessária pra realmente planejar com tempo tudo direitinho. Eu tinha me dado 7 meses pra fazer a coisa acontecer, mas de verdade, eu posso me dar o tempo que eu quiser. Eu posso desistir ou posso tentar fazer dar certo, independente se leve 10 meses ou um ano e alguma coisa. Não precisa exatamente cumprir meu prazo. O prazo é bom pra botar as coisas em perspectiva, chamar pra ação, mas não precisa ser mais uma cobrança inútil dentro da minha cabeça já muito perturbada. 

Então vamos ver o que vai ser, vamos ver como eu consigo me manter mentalmente, vamos ver como as coisas vão andar. Mas por hoje eu tô sentindo essa esperança, essa vontade de agir. Tenho sentido há alguns meses a imensa vontade de viver, de sair desse buraco que eu vivo - no sentido emocional - mas quase nunca encontrava em mim a vontade em forma de ação, vontade suficiente pra fazer acontecer alguma coisa, porque sempre tava alguma coisa doendo, incomodando, agoniando. Ainda tem, claro, mas como eu disse, alguma coisa mudou. Espero que dure tempo suficiente. Espero que eu aprenda dessa vez. 

Mais do que nunca, me deseje sorte. 

Vou ficar ausente por uns dias porque estou indo viajar, mas provavelmente vou escrever algo no celular pra postar depois que eu voltar. 


quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Diabética da dialética

 Se tem uma coisa que me irrita e muito é cu doce. Uma pessoa que se faz de mole e ofendida diante de uma situação que não poderia ser mais cotidiana. Talvez me irrite não só pela falsa fragilidade que a pessoa tá interpretando ali, mas pela falta de leitura da situação ser absolutamente real. 

A pessoa pega uma bala perdida no meio de uma conversa e reage na defensiva quando não tinha nada pra se defender. 

E eu não tenho dificuldade nenhuma em ignorar isso e continuar meu baile. Na verdade, é justamente o que eu faço. A irritação não passa desapercebida, no entanto, então talvez eu precise dar uma melhoradinha nessa minha ignorância. 

Hoje o texto é curtinho porque quero fazer um monte de coisas hoje. Não vai ficar ofendido você também por causa disso...

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Ouvi NOFX e fiquei rebelde

Textinho de emergência aqui.

Conversando agora aleatoriamente sobre panetones, a seguinte frase foi proferida:

A gente tem que seguir a tradição, é por isso que esse mundo tá assim, ninguém mais segue a tradição. 

Eu não me aguentei e na lata respondi "mas que pensamento burro hein?"

Obviamente eu recebi uma cara de olhos vidrados, chocada com minha resposta e emanando "você é uma decepção pra mim" por todos os poros. Eu fiquei olhando a cena, e minha cabeça foi rapidamente listando os argumentos. 

É claro pra mim que as coisas tem que mudar, e elas vão continuar mudando, porque elas sempre estiveram assim. Eu não sei que mundo ela projetou quando ela disse isso, mas é importante dizer que ela é bolsonarista então tradição pra ela tem um peso político muito forte, porque é onde eles tiram a desculpa pra todas as atrocidades que eles fazem acontecer.

The christian love their guns

Se as ideias nunca mudassem, ela mesma jamais poderia ter cursado a faculdade que ela tanto se orgulha. Provavelmente estaria até hoje trancada num relacionamento abusivo onde eventualmente ela iria apanhar ou se for puxar pela lembrança as ameaças, coisa bem pior. Ela também não poderia ter casado de novo com o amor da vida dela, diga-se de passagem. Esse estilo de vida que ela tem também não seria possível, porque largar o núcleo familiar e ir morar na praia com um monte de gatos é um guarda chuva de absurdos. Divorciada? Heresia. Um monte de gatos? Deve ser bruxa, manda pro forninho, aproveitamos e assamos uma pizza. Andar por aí com as pernocas de fora também não ia dar, porque deixar de usar saias eletivamente foi uma conquista do pensamento rebelde. Ela não poderia nem ir pra urna votar na merda do herói que ela clama e escolheu, porque né, mulher não pensa, tem que ficar em casa se arrumando pra aguentar o marido grosseirão (que é só grosseirão, abusivo é coisa moderna, então não pode. 

Mano, nem Jesus que é Jesus seguiu as regras. Não sei se você já ouviu falar dele, mas ele é até que famosinho nas redes sociais e tem uma credibilidade mais ou menos. Mano, nem ele. Jesus andava com as putas. Andava com os ladrões, abraçava os leprosos, tava cagando e andando pro povo que tava achando ruim. Ele tava preocupado se Maria ia aprovar a Maria Madalena como legítima norinha? Não, porque também Maria tava ligada que todas as nossas decisões tem seu lugar, todas elas levam para o nosso aprendizado. Alguns doem mais, alguns doem quase nada e deixam a gente felizão. Então que que eu vou ficar me preocupando com tradição? Se muitas delas são só coisas que a gente continua fazendo ou porque não sabe porque começaram a fazer isso e continuam fazendo só porque é assim, ou continuam fazendo porque são obrigados. 

Levar flores no cemitério no dia dos mortos é uma tradição. Uma tradição que não faz sentido nenhum pra mim, então eu não faço, mas eu cresci indo todo novembro ver umas lápides de concreto cheia de umas flor horrorosa de plástico. Mas dai tá tudo bem abandonar uma tradição se ela me convém, né?

Eu também odiava ser obrigada a passar a noite de Natal com minha família, mesmo que fosse um festival de cara de cu. Ninguém queria estar lá. Eu queria poder ter aceitado os convites que eu recebia, ir comemorar de verdade e ficar feliz de verdade numa data que é pra celebrar a alegria, a vida. 

Obviamente que eu sigo algumas tradições que eu nem tô lembrando agora que tô acalorada. Mas eu não sou contra que as tradições evoluam, que as ideias mudem. Se o mundo tá uma bosta agora, olha pra trás pra ver que ele nunca esteve muito melhor. Inclusive eu sou grata pela ausência de fogueiras para mulheres solteiras que compactuam com gatos, essa ideia eu particularmente sou bastante agradecida por ter sido alterada. Mas pensa nas ferramentas de tortura cabulosas que existiam, nos porões que eram o home sweet home dos sentenciados, pensa nas mortes estúpidas que houveram porque simplesmente não havia conhecimento sobre saúde e higiene e muitas práticas e matérias primas eram vistas como "do mal". Eu posso continuar falando um bocado sobre a importância que as coisas mudem. E tem uma frase que não lembro de quem é, mas que cabe muito bem aqui é "eu não tenho medo que as coisas mudem, eu tenho medo é que elas permaneçam iguais."

Intellectually sprayed

Se você olha pra trás e vê um mundo melhor é porque o seu contexto também era diferente. Provavelmente você tinha seus pais te protegendo do mundo e você não tinha lá muita coisa pra se preocupar com o mundo acontecendo lá fora. Viver sempre foi díficil, especialmente quando se tinha que ir pro meio do mato procurar comida e não tinha fogo pra fazer aquela lasanha. A vida devia ser especialmente difícil sem lasanha. Então o problema não é o jovem de hoje, não é o excesso de telas, não é o pensamento rebelde transgressor. O problema sempre teve aí, fazendo suas aparições em diferentes formas e nomes e épocas. O negócio sempre foi tentar viver o melhor apesar de tudo isso. Se adaptar, porque até Darwin já dizia que isso era legalzinho e talvez fosse interessante tentar essa parada aí. 

Be the victim of our own design

Os rebeldes tem razão. 

E o que isso tudo tem a ver com panettones? É porque eu queria comer o panettone de caixa azul no Natal e o verde no Ano Novo, mas não pode, porque é tradição. Verde é Natal. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe