terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Burnouts múltiplos e um céu cheio de estrelas mortas

 Todas as vezes que me deparei com a frase "cada pessoa é um universo" - e eu dei de cara com essa frase um bom tanto de vezes - minha cabeça logo viajava para o significado mágico da coisa. A palavra universo pra mim é quase sinônimo de mágica, magia. Como se as milhares de estrelas fossem pó de pirlimpimpim que vagam pelo céu, só brilhando e existindo e deixando tudo bonito, enquanto planetas de várias cores ocupam seu lugar decorando o Espaço. Mas a gente já sabe mais que isso, nessas alturas. A gente já leu, já estudou, já assistiu seriados suficientes pra saber que não é exatamente assim que a banda toca. 

Muitos daqueles pós de pirlimpimpins já morreram faz tempo, mas por alguma razão a gente continua enxergando a suas luzes. Mas se o meu Possante além de 4x4 e hibrido também fosse espacial, eu com certeza veria um verdadeiro caos ali em cima. Estrelas que explodem sem razão aparente, sóis com uma temperatura capaz de deixar o inferno se roendo e também um frio que curitibano nenhum jamais viu. Buracos negros que engolem tudo ao seu redor, silêncio, caos e vácuo. A biologia/magia da vida, aparentemente sem vida e ao mesmo tempo, vivendo desesperadamente. 

"O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima." Existe uma correspondência entre as leis e fenômenos de todos os planos de existência e de vida. O microcosmo humano é governado pelas mesmas regras que o macrocosmo universal e vice-versa."

O caos, o silêncio, a beleza e a natureza na sua forma mais primordial, crua, explosiva. As mãos que seguram a marionete que chamamos de casa. Assim como é em cima, é embaixo, e agora entendo melhor o que "cada pessoa é um universo" quer dizer. 

O que eu sou, com minhas bonitezas e feiuras, minha leveza e o caos, a magia e a melancolia que habitam meu olhar. Tudo aquilo que é meu, mais aquilo que tomei emprestado daqueles que eu escolhi ter por perto. Meu gosto musical, meus rolês favoritos, meu jeito de conversar, meus livros favoritos que muito antes já eram favoritos de alguém, tudo isso eu peguei emprestado, eu aprendi tudo isso um dia, provei, gostei e coloquei no meu bolso pra usar mais tarde - e sigo usando. 

Eu sou e carrego um universo de coisas comigo - no sentido infinito - e todas essas coisas vão e vem em estações, algumas mais longas que outras. Não sei dizer pra que lado fica meu suposto Sol, o que rege minhas estações e me faz murchar ou florescer. Não sei quem o que ele é ou se existe e muito menos o que eu supostamente deveria fazer se um dia eu chegar a entender se isso existe mesmo. 

Mas se até as estrelas já aceitaram que não podem só ficar lá brilhando pra sempre, eu posso me acalmar e aceitar também que as coisas vem e vão e tá tudo na mais absoluta ordem mesmo dentro do caos. Se minhas explosões fazem acertar meus pedaços no meio da cara do outro, também meu brilho quando ele der as caras, vai fazer sua mágica. E talvez seja esse brilho resistente, que fica viajando anos-luz mesmo depois do bum! derradeiro, seja justamente o que vai me lembrar do caminho de volta pra mim. 

Eu não quero chegar a lugar nenhum com essa viagem, não tem conclusão nenhuma e a diretoria ainda tá lá deliberando se vão aprovar uma nova temporada. Só sei que podemos esperar caos, explosões, silêncios, calmarias e pó de pirlimpimpim. A embasbacadora beleza e a fúria do viver. 

Nos desejo sorte. 

Até amanhã, quem sabe. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Renas, bonecos de neve e luzinhas piscando bem brega

 Eu juro que tô tentando. 

Acordei as 5 da manhã, não levantei. Fiquei até as 6h lendo e quando levantei percebi que fui atropelada durante a noite. Terreiro né, amores. A dor sempre vem na segunda feira. Ok, tomei meu café, botei café pros pretos velhos, tomei meu adivino e esperei a coisa funcionar. 

Aí tive uma vontade louca de levantar pra colocar as coisas em movimento. Quero fazer algo pro Natal. Assar biscoitos, pensar em uma comidinha diferente pro nosso almoço. Quem sabe até posso presentear umas pessoas com os biscoitos. Eu gosto de dar presentes, mas é frustrante fazer isso quando se tem zero reais. Esse ano usei uma boa cota para dar presentes criativos sem gastar quase nada, então ainda tenho guardado uma forcinha e um carinho pra fazer umas bolachinhas. 

Mas olha, assim que eu fui espalhar a ideia pela casa, já vi a cara de "nossa mas vai fazer uma bagunça/ vai dar um puta trabalhão/olha a quantidade de louça que a gente já sujou ontem" que minha pica natalina broxou na mesma hora. 

Eu tô cansada, tô com dor no corpo, tô de tpm e continuo deprimida, mas eu queria fazer. Eu quero ser mais forte que isso. Vim aqui, limpei minha casa, acendi umas velas, fiz uma oferendinha pra ver se a coisa aqui em casa se anima. Faz três anos que não comemoro Natal, é sempre nós três cada uma com uma cara de cu pior que a outra, a gente come e volta pro quarto. Como se não tivesse nada pra comemorar. 

Tem, óbvio que tem. Se você pode olhar pra trás e ver que passou anos em sequência vivendo dias difíceis, é porque você continua na ativa, nem que seja pra reclamar deles. A gente tá vivo, tá todo mundo vivo, tá todo mundo com os pratinhos cheios. Nossa casa é uma zona, bagunça, pelo, ração e alguns fluidos pra todos os lados, mas é nossa casa. Nossa. Finalmente a gente não tá mais morando de favor esperando a hora que o dono vai ter um surto e tirar a gente daqui. Nossa. Ainda falta pagar um bocado, mas o papelzinho que diz "pode sentar sua bunda aqui que daqui ninguém te tira" já está devidamente em nossas mãos. 

Eu sei, não é assim que funciona, já falei aqui o quanto me sinto ingrata. Uma pessoa pode ser privilegiada o quanto for e ainda se sentir uma merda, e as vezes justamente por este motivo. O que me assusta é saber que mesmo eu tendo consciência, que eu tenho um transtorno diagnosticado, que eu faço terapia, que eu tomo remédio, que eu procuro manter minha rotina o mais mental friendly possível... mesmo com tudo isso eu tenho dias bem bizarros. O que me deixa de cabelo em pé com quem não tem essa consciência e vive achando que foi só um dia ruim e que a vida é assim mesmo. Tá, nesta altura do campeonato eu já sei que a vida não é só campo de girassóis e céu azul, eu sei, já entendi. Mas quando acontece em sequência, quando teu corpo tá tentando de mostrar de todo jeito que tem algo de errado... porque que a gente enfia isso num canto e deixa pra lá?

A galera aqui se ofende quando eu sugiro certas coisas. E aí se a pessoa não se ajuda, não tem o que a gente possa fazer. Só resta tentar achar um jeito de tentar viver bem apesar de tudo isso. Tem dias que eu consigo, tem dias que é fácil e tem dias que eu tenho que passar cada momento ligadíssima. Hoje é um dia desses. Mas eu ainda quero Natal. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe. 

domingo, 11 de dezembro de 2022

Três quilos de molho de tomate

Os antigos diziam que a gente colhe o que planta. E é por causa da sabedoria antiga que hoje ninguém vai receber minha atenção total. 
Alguns meses atrás minha irmã começou uma horta. Plantou de tudo. Algumas coisas deram certo, outras nem tanto, mas algumas coisas deram certo demais. Eu digo certo demais quando de repente você se vê obrigado a colher três quilos de tomate cereja e dai você dorme, acorda e a horta continua parecendo enfeitada pro Natal com tanta bolinha vermelha. 
Peraí que vou lá mexer o trem.
Hoje já saiu uma panelada de caponata de berinjela, também da horta, junto com os pimentões e temperos verdes que colhemos. Como mesmo depois da caponata, ainda tem tomate pra caralho e estou cozinhando tudo pra fazer um molho pronto. Tem manjericão e alfavaca também. O cheiro tá uma delícia. 
Também estou colhendo com tudo isso um par de pernas inchadas de ficar a manhã inteira tirando talos, lavando, descascando e cortando um mundaréu de legumes e folhas, depois de ter limpado a casa, meu gatil e o gatil da mana que tá viajando. 
Do molho de tomate pretendo colher bons momentos no futuro, mas antes vou, amém Jesus, atender um cliente em Barra Velha. Geralmente não vou até lá, mas quem precisa faz o que precisa. 
Eu gosto cada vez mais dessa vida no mato. É domingo, hora do almoço e tudo o que eu consigo ouvir é meu peru Glumercindo dando show e uma passarinhada muito louca. 
Já volto de novo. 
Passarinhada muito louca, de verdade. Minha casa não tem forro, pelo menos nas áreas fora dos "containers", então a passarinhada tomou conta. Tem passarinho voando por cima da gente o tempo todo. Ontem um filhote caiu do ninho e meus gatos ficaram literalmente o dia todo ali na função de tentar pegar o filhote. Não tem como, porque é tudo telado com tela fina, mas ninguém diz pra um gato o que ele consegue ou não fazer. Então eles ficaram ali das 7 da manhã até a noite vigiando o pobre coitado.
Hoje enquanto eu cozinhava, eu vi de relance o Quito dando um mega pulo e uma passarinha voando baixo e dando na cara dele. Só segundos depois fui perceber que o Quito estava com um filhote na boca. Tirei o coitado dali assim que eu vi, mas tenho quase certeza que ele não vai sobreviver. Ele não voa ainda, então se não morrer pela abocanhada, vai morrer de fome. Mas eu achei um sarro a passarinha dando na cara do meu filho e dou razão pra ela, porque ele foi um sem vergonha de pegar o bebê dela desse jeito. O passarinho caiu de lá de cima e ele pegou, mas mesmo assim.
Quase que me esqueço da panela.
Não tentem fazer molho de tomate com camisetas brancas, ok? Espirra pra caralho e vai ficar parecendo que você acabou de matar um boi. Só tô dizendo.
Esqueceram de mandar o email para o Quito avisando que gato persa deveria ser pamonha. Ele provavelmente é o gato menos pamonha de todos os 68 gatos que moram aqui. Ele é o campeão invicto, serial killer licenciado que já matou ratos, aranhas, passarinhos e rãs em larga escala. Outro dia vi minha gata Bigi, que é de longe a mais gorda que eu tenho, dar um pulo muito alto pro peso dela na tentativa de pegar um beija flor ingênuo. Eles dois passeiam na horta todos os dias, pra emagrecer e chacoalhar as pelancas, então eles ficam sempre espertos porque sempre tem algo pra caçar. Acho divertido. 
Finalmente desliguei a molho. 
Um desavisado que ler isso aqui, pode até achar que cozinho muito, mas a verdade é que eu gostaria de cozinhar mais. Mas minha audiência aqui é muito seleta e eu sou aventureira demais pro gosto dessas freguesas. Quase fui expulsa de casa uma vez por fazer um refogado de casca de banana - que ficou divino, por exótico que pareça. 
Mas claro, aí eu fui perdendo a prática e hoje é bem mais trabalhoso conseguir acertar o ponto certo do tempero. As vezes paro pra pensar como eu me alimentaria diferente se eu morasse sozinha de verdade. Não tem muito o que me impeça cozinhar pra mim, eu tenho cozinha aqui dentro da minha casa, mas invariavelmente eu teria que compartilhar, o que faria minha mãe esperar que eu fizesse algo que todo mundo ia gostar. Então juntando a preguiça e tudo isso, não faço. 
Pelo menos por enquanto. Tem várias coisas que eu quero ainda botar em dia pra me sentir dona da minha vida. Meus dias tem sido de reflexão e planejamento, mas é bem esquisito planejar algo e saber que isso depende de alguns fatores que talvez não mudem nunca. Enfim, vamos seguindo esse baile. 
Me deseje sorte
Até amanhã, quem sabe.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Malvada porém fofinha

 São 6 horas da manhã, eu acordei as 4:23. Fui dormir cedo ontem o que significa que eu não li muito a noite. São 6 horas da manhã e já tem um trator buzinando pras vacas saírem da frente para ele passar. Não sei que raios essa máquina foi fazer ali essas horas, mas se eu fosse a vaca chamaria meu rebanho pra dar uma assuntada no trator só por ter me acordado com uma buzinada na cara. 

Estão fazendo piada porque o Brasil perdeu a copa, dizem ser por causa do cara que jogou o gato da mesa. A piada é engraçada, o gato rindo no velório do Brasil e vários memes. Mas não sei se algum estúpido vai reacender a antiga ladainha de que gatos dão azar, são do diabo, gatos são traiçoeiros e essa merda toda. Nem dá pra dizer que essa lenda acabou um dia. Justo o gato que sempre foi sinônimo de fartura, prosperidade e fertilidade. A origem dessa história é muito mais legal do que a que conta como os gatos começaram a ser demonizados. E eu tenho que admitir que quando isso aconteceu, a humanidade se lascou com a peste negra. 

Mano, não mexe com a porra dos gatos. Não importa quão místico você seja e a visão espiritual que você possa ter dos gatos, deixa essa merda de lado. Ninguém sabe se eles podem realmente ter poderes místicos e vagar entre os planos e coisarada. E nem importa. Gatos são seres racionais. Assim como cachorros, cavalos, coelhos e... ratos. Todo e qualquer animal que tenha cérebro - incrivelmente o menos racional desses animais somos nós, porque sinceramente olha quanta merda que a gente faz. E também já foi provado que nem precisa ter cérebro pra ser considerado racional. Polvos e caranguejos também raciocinam. Obviamente, você não pode esperar que um gato escreva um soneto e use aquelas fórmulas matemáticas na sua rotina, mas vamos confessar - você também não usa. Eu nem lembro pra elas servem. 

Nossos cérebros são tão, mas tão parecidos, que até hoje os ratos são utilizados em pesquisas da medicina, pelo funcionamento, pela ação de medicamentos. Aquelas experiências de laboratório onde o rato precisa resolver enigmas só mostram o quanto a gente subestima a inteligência dos animais. Hoje e desde muito tempo já existem guidelines internacionais dizendo o que você deve fazer ou não com um bichinho, um guia do bem estar animal. Mas é lógico que jamais vão incluir os ratos nessa, porque se fizessem, olha a merda que ia dar. Então a gente continua achando que rato é praga, que rato traz doença, que rato é sujo e tá tudo bem matar eles. É mais confortável pensar disso do que acreditar que eles sentem, pensam e sofrem. Porque olhar pra eles como seres, como seres que tem raciocínio e emoções vai pegar pesado demais. Até você já levou doença pra algum lugar e ninguém deu uma vassourada na sua cara. Meu ápice foi ser fechada no meu quarto durante meu período radioativo, mas foi só. Já me ameaçaram de morte, mas acho que sou muito fofa pra ser realmente assassinada. 

Talvez não exista nada a se fazer por enquanto. Como esperar que o humano respeite (só respeite) seu em torno natural se a gente não respeita nem o coleguinha? Ou pior, não respeitamos nem a gente mesmo. Tem os mais evoluídos né. Aqueles que batem no peito juram de pé junto que já foram pra 5ª dimensão e logo depois vão dar uma intimada no padeiro porque não tinha mais sonho de creme. Inclusive não sei nem o que esse povo tá fazendo por aqui ainda. Não sei porque não morrem de uma vez e vão lá encarnar em outro lugar, virar anjo sei lá, porque pra cá eles não voltam mesmo. Aqui é bom demais pra eles. 

Entre os malvados assumidos e os malvados enrustidos, eu fico com os honestos. Pelo menos dali a gente sabe o que esperar. Um cara que calou todas as sombras na justificativa de ser melhor acabou criando a bomba nuclear emocional. E tem muitas esperando só a hora de explodir. Eu não sou flor que se cheire, aperta bem meus calos pra ver se eu não liberto o Hulk. Eu sou essa coisa fofinha, mas por dentro eu xingo igual marinheiro - pensando bem, não sei se eu engano alguém com essa, mas deixa pra lá. 

Ainda não sei como me deixar sentir, mas eu tô tentando não reprimir nada. Não vou sair xingando todo mundo que eu queria, o que é uma pena, mas eu comigo aqui dentro, tô tentando ser mais honesta. Não quero ser mais uma vítima dos meus abalos sísmicos emocionais. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

5 da manhã

 Deixa eu contar um negocinho aqui. São cinco da manhã agora, a gente vai ver o amanhecer juntos, olha que lindo. Bom, não exatamente o amanhecer, porque já tá claro, mas não o suficiente pra dispensar a luz acesa. Já faz um tempinho que estou acordada e tá tudo bem, porque eu fui dormir as fucking 8 da noite. Eu passei noites dormindo pouco e agora que consegui voltar a dormir, quero dormir até acordar. 

Meu corpinho é bem minha cara mesmo, quando dorme, dorme 8 horas bem certinho. Não tem essa de virar pro outro lado e continuar dormindo até meio dia. Se eu vou dormir mais tarde eu continuo acordando no horário de sempre, como se meu corpo já estivesse acostumado a minha própria doutrinação. Na hora de ir dormir eu sou vidaloka, mas pra acordar eu sou um reloginho. Exceto se eu tenho algum compromisso logo cedo e preciso contar com a minha astúcia matinal - aí não tem jeito, eu sempre "dormiria mais". O que é uma mentira descarada, porque, corpinho... eu te conheço. Você só tá fazendo drama. 

Ontem foi legal, plantei umas mudinhas que eu queria. Estou aos poucos fazendo um jardinzinho para os gatos (e pra mim também, oras), porque a gente adora e planta dá aquela cara de conforto, de lugar gostoso. Mesmo que aqui seja uma casa no meio do mato e tudo o que eu vejo pela janela é verde, ter dentro de casa é outro rolê. E os gatos adoram ter o que cheirar e eventualmente mastigar e destruir. Mas até que tá durando, eles estão cuidando bem. Mas pra isso eu preciso colocar lá quando as mudas já estão mais crescidas, então faço o berçário aqui dentro, que a turma de dentro é mais civilizada (as vezes). 

Eu vi uma guria que fez uma fonte pros gatos dela com plantas aquáticas e eu achei a ideia maravilhosa, porque deve incentivar muito mais eles a tomarem água. Todo esse processo tá sendo lento, porque eu vou tirando muda do meu quintal e esperando crescer, esperando um vaso vagar ou ter um dinheirinho pra comprar um vaso grande. Essa fonte verde aí na teoria precisa ser em um vaso de barro bem grande, porque as plantas aquáticas se alastram com facilidade e eu não sou assassina de plantas. Odeio ter que podar, então assassinar metade de uma planta porque ela se alastrou, não quero. Mas, o que eu tenho no momento é uma bacia de barro média, então vai essa mesmo. O objetivo é fazer alguma coisa, me dar ânimo fazendo alguma coisa. 

Mas logo a tarde eu senti o exato momento onde chegou uma voadeira mental da minha mãe. Na hora eu senti o alerta "corre daí" e fui pra casa. E sem surpresa nenhuma, a noite eu tava vendo uns pensamentos que queriam espaço na minha cabeça. 

Eu tentei escrever esses pensamentos aqui, mas eles são muito horríveis pra ficarem registrados, não consegui, apesar de serem uma possibilidade. Mas se a gente tem essa força criativa que nos move, a criatividade da vida é intangível e eu espero ser surpreendida por ela. 

Eu quero construir a minha vida. Eu tenho quase 40 anos e tenho a total sensação de que minha vida começou a pouco tempo, mas eu já comecei no meio do caminho - atrasada. Não tenho nada que me sustente além de um trabalho no momento falido, minha saúde mental/emocional é de chorar e o gasto mensal com meu estilo de vida "gateira extrema" é o mais enxuto possível - mas é de chorar também. 

Tem meses que eu não compro uma bala que seja. Não sou ávida consumidora de balas, mas dá pra entender o raciocínio. E pelo terceiro ano seguido, decidimos não ter Natal. Digo, comemorar do jeito que as pessoas comemoram. E acordei pensando em como poderemos fazer o Natal com um significado mais genuíno, porque é o que dá pra fazer e talvez seja uma oportunidade interessante. Mas eu tenho bastante certeza que vou precisar de força pra isso, porque eu provavelmente estarei sozinha nessa vibe. Eu não ligo de não ganhar presentes, claro, ganhar presente é algo super legal, especialmente quando é de alguém que te conhece e sabe do que você iria gostar. Mas tem aquela história do sapo na panela né, e enfim, você vai acostumando a não ganhar nada nunca. Físico, embalado num papel de presente, pelo menos. 

Mas eu quero viver esse Natal, resgatar o significado e o amor pela vida. Dentre a lista de objetivos desejáveis, vou começar enfeitando a minha casa, mesmo sabendo que vou passar mais tempo catando a decoração debaixo da cama por causa dos gatos. Ao mesmo tempo que isso me dá uma preguiça danada, catar aquelas caixas lá de cima, provavelmente cheias de aranhas, arrumar tudo pra depois ter que guardar. Eu preciso resgatar esses significados, essa magia, essa vontade de viver. 

Tenho passado esses dias melhores, mas o abismo tá logo ali pra me lembrar que não dá nunca pra não ter cuidado. Não dá nunca pra deixar de olhar pra trás e também olhar pra frente e pra todos os lados porque o próximo tombo pode vir de qualquer lugar. E se parece meio assustador viver assim, é porque é mesmo. Não tem drama nenhum, exagero nenhum. Quem já esteve lá sabe exatamente o cheirinho do fundo do poço. E esse cheiro eu senti ontem quando aqueles pensamentos me invadiram. Não dá pra relaxar. Me deixar sentir as coisas não significa mergulhar de cabeça no redemoinho de lamentações, até porque AGORA eu não tenho como mudar as coisas mais importantes aqui. 

O que eu posso mudar é o como e isso eu venho tentando, uns dias mais outros menos, mas sempre tentando. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Desisti

 Eu quero começar a escrevelança de hoje com um texto que encontrei por - vamos chamar de coincidência, mesmo sabendo que não existe isso - que me tocou de um jeito tão honesto que eu quero deixar ele guardado neste meu potinho de palavras particular. O texto foi escrito por ninguém menos que meu deus de adoração de preferência - Neil Gaiman - e eu vou fazer o melhor possível pra traduzir suas palavras, só que não garanto nada que eu não traduza isso com meu coração, o que neste caso serve bem também.

"Credo

Eu acredito que é difícil matar uma ideia porque ideias são invisíveis e contagiosas, e elas se movem bem rápido.

Eu acredito que você pode colocar suas próprias ideias contra ideias que você não gosta.  Que você deve ser livre pra argumentar, explicar, clarificar, debater, ofender, insultar, esbravejar, tirar sarro, cantar, dramatizar e negar. 

Eu não acredito que queimar, matar, explodir pessoas, esmagar suas cabeças contra pedras (pra deixar as más ideias saírem), afogá-las ou até mesmo rendê-las vão funcionar para conter ideias que você não gosta. Ideias se espalham por onde você não espera, tipo mato, e elas são difíceis de controlar. 

Eu acredito que reprimir ideias espalham ideias. 

Eu acredito que pessoas e livros e jornais são reservatórios de ideias, mas queimar pessoas que seguram as ideias vai ser tão falho quanto explodir uma bomba nos arquivos de um jornal. É porque já é muito tarde. É sempre tarde demais. As ideias já estão por aí, se escondendo nos olhos das pessoas, esperando nos seus pensamentos. Elas podem ser sussurradas. Elas podem ser escritas pelas paredes no meio da noite. Elas podem ser desenhadas. 

Eu acredito que as ideias não precisam ser corretas para existirem. 

Eu acredito que você tem todo o direito de ser perfeitamente crente que imagens de deus ou profetas ou humanos que você reverencia são sagradas, incorruptíveis, assim como eu tenho o direito de ser crente da sacralidade do discurso e da santidade do direito de tirar sarro, comentar, argumentar e afirmar. 

Eu acredito que eu tenho o direito de pensar e dizer coisas erradas. Eu acredito que o remédio para isso seria argumentar comigo ou me ignorar, e eu usaria o mesmo remédio para as coisas erradas que eu acredito que você pensa.

Eu acredito que você tem o absoluto direito de pensar coisas que eu acho ofensivo, estúpidas, absurdas ou perigosas, e que você tem o direito de falar, escrever, ou distribuir essas coisas, e eu não tenho o direito de matar você, te aleijar, te machucar, ou tirar de você a liberdade ou propriedade porque eu acho suas ideias ameaçadoras ou insultantes ou incrivelmente pavorosas. Você provavelmente acha que as minhas ideias são bem imundas também. 

Eu acredito que numa batalha entre armas e ideias, as ideias vão, eventualmente, vencer. Porque ideias são invisíveis, e elas permanecem e algumas vezes, elas podem até ser verdade. 

E ainda assim, elas se movem."

Eu viajo para um cenário extremamente mágico quando essas coisas acontecem. Sinto que o ar muda, começo a respirar estrelas quando percebo que o mundo exterior fala com meu interior. Num geral esses dois mundos andam tão paralelamente que quando o mundo de cá resolve estender a mão e o mundo de lá estende a mão em retorno, eu não consigo não sentir mágica. Conexão. 

Esse texto dele pode até ser meio besta, talvez ele pudesse ter resumido todas essas palavras com um simples " pensa o que você quiser e não enche o saco de ninguém, velho", mas acredito que sendo quem ele é, e segurando em cima do pescoço aquela cabecinha maravilhosa, ele simplesmente não consiga. 

Talvez ontem eu tenha encontrado uma interseção do fluxo, talvez tenha sido só sorte. Mas hoje comemorando a incrível meta de quatro dias razoavelmente ok, eu prefiro sentir que eu fui vista e ouvida de alguma forma. Que se por algum motivo o panteão sagrado do universo estava me ignorando até agora, por algum motivo alguma das minhas ações fez um deles erguer uma sobrancelha e olhar na minha direção. 

Não quero enganar ninguém, começando por mim mesma, tudo continua igual, mas não posso deixar de admitir que tá tudo diferente também. E quanto mais eu olho pra trás, mais evidente fica essa diferença. Talvez seja pelo simples fato de que eu consegui dormir quantidades humanamente desejáveis esta noite. Sono é algo que opera milagres, todo mundo sabe. Talvez seja porque finalmente amanheceu um dia com um Sol bem mais decidido. Mas o fato é que tem quatro dias que eu consigo fazer um pouco mais que o mínimo que eu tava me propondo todos os dias. Risquei da minha lista de objetivos desejáveis exatamente 1 item, mas pensando pelo lado de que esse singelo item estava ali escrito e esperando por meses, achei sucesso. 

Isso me deixa mais corajosa para enfrentar aquelas coisas todas que já escrevi aqui? Ainda não, mas estou me dando a colher de chá e usando essa névoa gliterosa para fazer coisas que me dão prazer. Hoje tenho uma agenda cheia me esperando, e vou ignorar o que der se isso for me trazer algum desconforto. Sigo militante de fazer as coisas no meu tempo e sem desespero, e ainda quero me propor a ousadia de não me controlar. Pelo jeito hoje eu acordei selvagem.

Não é novidade nem pra mim, nem pra você que teve a santa paciência de ler tudo até aqui, que eu seguro minhas emoções como se minha vida dependesse disso. Mas me foi sugerido o exercício de abrir o bueiro e deixar sair o que vier. Provavelmente vai dar ruim, provavelmente isso vai envolver calças borradas e mais uns dez livros para a minha lista de livros lidos. Provavelmente. Mas tem uma esperança minúscula me dizendo que talvez, bem talvez, eu não precise mais segurar essas coisas. Talvez o mundo veja um novo amanhecer depois que isso acontecer e com sorte, eu também. Talvez eu não me sinta tão sozinha, porque também talvez eu me sinta tão sozinha porque estou segurando algo que não tenho mais forças pra segurar. Desistir para vencer. 

É... me deseje sucesso.

Até amanhã, quem sabe. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Deixar seus ecos no vácuo

E aí, será que é a gente que movimenta os sonhos ou são eles que nos movem?

O que faz a gente sonhar, afinal? Aquilo que faz a gente sentir uma vontade louca de começar algo novo, ir pra algum lugar, aprender alguma coisa... de onde vem isso? Será que é uma voz que tá ali tentando não ser calada - um watt resistente - ou são nossos divertidamente que resolvem sentar no painel de controle uma terça feira de madrugada pra vasculhar uns catálogos de sonho que chegaram pelo correio dois meses atrás e ninguém se deu ao trabalho de tirar do envelope?

Será que as coisas "chamam"  a gente ou é a gente que acha a ideia daquilo tão boa e tão bonita que essa constatação faz a gente ir naquela direção?

Uma ideia é só uma coisa que a gente criou, não é? A ideia de como a gente é, de como a gente aparenta ser, a ideia de como a gente acha que é visto. Os medos que moram na nossa bagagem, antes de se tornarem esses serezinhos glutões e obesos que são, também um dia foram uma ideia. A forma como traduzimos o mundo, nas suas bonitezas e desafios com certeza também são ideias, porque já vi essas lentes mudarem de cor muitas vezes conforme meu mundo interior variava. 

Mas e os sonhos?

Muitas vezes já percebi que minha vida melhora muito quando eu dou voz a minha força criativa, talvez até por isso eu tenha tanta insônia, pois é ali que ela pode correr trecho sem que eu tente (com sucesso, pelo menos) frear. Quando eu me permito fazer ouvir minhas palavras, minhas expressões de beleza e estranheza, seja colocando uma cor diferente no meu espaço fisico, seja aprendendo um tipo novo de artesanato, seja deixando meu pensamento fluir num texto, seja colocando minha energia em uma música na tentativa de tentar fazer parte dela. Mas fui eu quem um dia encasquetei com isso - uma ideia - ou isso é tão meu que grita por um espaço?

De verdade que se é o ovo ou a galinha, não importa. É um caminho e é uma ideia bem mais saudável que muitas outras que estiveram rondando meu entendimento. 

As ideias são essas coisinhas atrevidas, né? Elas pingam sem convite na mente e se elas vão criar um corpo ou não fica totalmente a nossa vontade. Mas se o poder de alimentar uma ideia a ponto de isso massacrar nossas convicções, esperanças e planos é tão evidente - veja a que ponto podemos chegar algumas vezes - porque não fazer o raciocínio contrário? Se temos esse poder de nos destruir, e fazemos isso muito bem obrigada, também temos o poder de nos reconstruir. Ir além. Mas só de pensar nisso consigo ver aquela ideia perversinha me sondando por detrás da coluna me dizendo com o olhar que ainda está aqui e isso ainda não acabou. Mas se tudo é questão de como alimentamos essas ideias, o que as boas ideias comem? Onde vivem? Como se reproduzem? Isso o Globo Repórter não fala. 

Porque raios a gente tem uma ideia tão pobre de nós mesmos e porque isso é muito mais forte do que nossos sonhos? Porque raios é tão mais fácil acreditar que a gente é um merda quando se for botar na ponta do lápis, estamos bem na média? Porque parece tão ridícula a ideia de se auto incentivar e se achar foda, quando se fizermos o contrário tá tudo bem? Porque caralhos tá tudo bem se auto destruir e ficar se auto azucrinando o dia inteiro? Porque que estar ao nosso lado e nos defendermos é tão mal visto?

Talvez seja justamente isso né? Onde ninguém se defende, todo mundo é uma presa fácil. 

Não acho também que a solução seja sair rugindo por aí pra se fazer entender. Um leão não precisa fazer isso, todo mundo já sabe que se tem um leão ali você tem mais é que tirar seu rabo do caminho ligeirinho. Ele não tem que provar seu poder pra ninguém. E ele não sai ameaçando todo mundo a torto e a direita, ele simplesmente caça quando ele tem fome, não tem terrorismo e abuso de autoridade. Ele se dá o direito de ser ele mesmo, fazer o que precisa pra viver sem atormentar ninguém. 

Apesar de racional, um leão não precisa ficar escrevendo diários de injúria para tentar descobrir alguma coisa, porque ele já sabe. Ele é o que é. Mó paz naquela cabeça cheia de juba, juba qual ele nem precisa se preocupar em usar creminho, porque ele já sabe que todo mundo já vai achar ele maravilhoso. Isso me reforça mais o quanto a gente precisa voltar a ser a gente mesmo, no nosso estado natural. Essas ideias só ganharam espaço quando a gente começou a desalojar nossa natureza. 

Isso me lembra de um papo que tive muitas vezes. Como eu sei que preciso mudar se eu nem ao menos sei quem sou? Como eu posso saber que tá tudo errado se eu estou constantemente tentando ser alguma coisa? E se eu tô tentando é porque eu não tô me deixando ser, só ser. Porque se eu deixo, vem vergonha, vem orgulho, vem um monte de medo - um monte de ideias. 

A gente é doente, velho. Estamos presos nessa roda de exercícios e não vamos chegar a lugar nenhum assim. Talvez a questão seja admitir que somos velhos sedentários que preferem sentar no fim do dia na companhia do nosso livrinho e fazer merda de exercício nenhum. 

Não mate um leão por dia, eles entendem de viver melhor que você.

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Defunto de aranha

Hoje o sol finalmente saiu. O céu tá nublado, mas o dia tá claro e já achei vantagem. Não dormi quase nada de novo, dores estranhas, insônia, livro, gatos me acordando assim que amanhece. Vocês já conhecem o rolê. Mas por incrível que pareça, apesar de cansada estou esperançosa. 

Ontem era dia de fazer minhas firmezas de proteção. Eu tava me preparando pra dormir, fui apagar as luzes quando me dei conta que eu não tinha feito a firmeza ainda. Aquilo falou tão alto comigo que fui fazer na mesma hora. E foi engraçado porque assim que eu comecei a fazer minha oração eu vi a Georgia da semana passada ali repetindo aquele gesto. Uma Georgia ajoelhada no chão segurando na mão uma vela e em outra um coração muito perdido. E aí não vi mais sentido em continuar dizendo as palavras que comecei, porque com aquela visão só fazia sentido agradecer por estar um pouco diferente de uma semana atrás. 

Me acompanha demais o sentimento de estar abaixo. Não sei se dá pra dizer oficialmente que não me sinto mais inferior aos outros, não sei se já cheguei lá, mas o se sentir abaixo continua. 
Abaixo porque parece que tenho que ter mais atenção na hora de equilibrar meus pratos. Parece que preciso fazer mais esforço pra chegar naquela média onde todo mundo parece estar naturalmente. Que eu já chego no ponto de partida com meia maratona percorrida - e obviamente, exausta - e sem chance alguma de alcançar a chegada. 

Um esforço pra me manter calma, um esforço pra não me deixar contaminar e começar a ter um monte de sintomas que uma hora ou outra durante o dia vão me fazer largar os bets e ir pra cama. 

O ano tá quase acabando e se tivesse uma retrospectiva da vida igual a do Spotify, o meu diria "você passou tempo demais deitada aqui". Deitada esperando a dor passar, deitada imaginando o que eu poderia/deveria estar fazendo se eu não tivesse me sentindo uma merda. Acho que é por isso que eu deito e vivo intensamente no meu mundo mental. Tá certo, a gente vive no mundo mental normalmente mesmo. A gente não toma nenhuma decisão sem que aquilo seja filtrado pelas nossas emoções, mas com tudo o que já sei agora eu deveria aproveitar desse artifício de uma forma um pouquinho mais inteligente pra sair desse umbral particular. Apesar de ser um espaço especialmente criativo é como se esse mundo me chamasse com um grande algodão doce colorido pra na sequência ele se transformar em uma placa ululante que diz "VOCÊ VAI TER CÁRIES! MUAHAhahaha"

Mas hoje apesar de ter acordado com tudo errado - até encontrei um presunto de uma aranha gigantesca embaixo aqui da mesa - parece que hoje estou tendo uma colher de chá. Talvez ela não me mate a sede, mas se isso é tudo o que me é oferecido, beberei. 
Graças a Deus por meus gatos matarem as aranhas por mim. Aqui em muitas e todas elas são grandes, mas essa estava de parabéns, era enorme mesmo morta e dobrada. O tipo de crise que eu teria se eu encontrasse ela viva por aí certamente poderia ser avistado pelos satélites. Eu tenho pavor. Mas dessa vez o dia foi salvo. Eu fico passando a mão pelas pernas e sentindo alguma coisa caminhar por mim, mas eu sei que é só o medo me atormentando. Eu vou continuar escrevendo e eu vou tentar fazer desse dia um dia que eu possa aproveitar. 

Ontem eu li que um dos efeitos do patriarcado é a forma como temos levado a nossa vida interior. Ser prático, racional, produtivo, "matar um leão por dia". Esquecemos que, homens ou mulheres, sentimos o mundo, sentimos a vida. E o sentir é feminino e tudo o que é feminino precisa maternar. Talvez seja só uma maneira de falar sobre se acolher e dar tempo ao tempo, mas gostei da imagem de maternar a cura. De deixar aquele sentimento fazer o que ele precisa, trazer as reflexões e abrir o que precisa ser aberto, pra sangrar e se deixar curar, até que cure. 
Percebi o quanto meu feminino está doente quando percebi que a minha primeira resposta pras coisas é "como eu resolvo isso?". Como se fosse uma tarefa da minha listinha. Apesar desse distanciamento e praticidade terem salvo o meu couro muitas vezes, talvez essa ansiedade e depressão insistentes seja reflexo disso. De achar soluções demais e curas de menos. 

Eu já me acho sentimental demais por estar aqui escrevendo essas cartas. Já me acho um saco por estar carente de atenção e fragilizada. Não é como eu gosto de me ver, não é quem o meu Hulk interior me diz que sou. Mas talvez seja só uma das minhas muitas vozes. E talvez todas elas precisem de espaço para serem ouvidas. Eu não sei se eu consigo ou se vou conseguir me entregar a isso um dia. Tanto que a vida já me quebrou e tenta me quebrar constantemente e eu ainda não me permito chorar. Eu deito e leio, viajo no mundo que alguém criou. Me isolo, racionalizo tudo. Em alguma medida eu estou sempre tentando achar uma solução, as vezes com mais força, as vezes com nenhuma. Quando voltei a escrever aqui estava me sentindo totalmente derrotada, mas eu fiz esse movimento. A única coisa que mudou de semana passada pra cá foi que eu consegui organizar melhor meus pensamentos escrevendo esses posts. Porque sigo sem dormir, sigo com vontade de chorar, sigo me sentindo sozinha na vida. Então tenho medo sim de deixar a emoção tomar conta, se mesmo sem permitir eu fui derrotada tantas vezes, imagina se eu permitisse sentir tudo? 


É, tem coisas que a gente só vai saber caminhando mesmo. 

Até amanhã, quem sabe.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Hulk is coming

 Acordei sentindo um negócio diferente hoje - raiva. Eu sempre tive uma visão bem negativa sobre a raiva, especialmente quando na minha cabeça eu arremessava vários copos na parede e quase conseguia sentir o alívio que isto trazia. Nunca joguei nenhum copo, mas já tive vontade muitas vezes. Sempre achei essa força destrutiva, malvada mesmo. Como se isso fosse me tomar um dia e me fazer cometer os homicídios que eu tô devendo pro mundo. Não fez, apesar de saber que com a motivação certa, eu certamente faria - mas esse é outro assunto.

Com o passar dos anos eu fui fazendo as pazes com essa raiva. Fui vendo que a força que a raiva me trazia não necessariamente era maligna. A raiva me fazia sacodir e executar, andar pelas minhas próprias pernas, nem que fosse pra esfregar na cara de alguém. Vários problemas nessa parte aí, eu sei. 

Eu ando num estado de indignação constante. Não consigo mais consumir redes sociais e fazer de conta que alguma coisa daquilo é de verdade. Seja a facilidade de "mudar sua vida", seja a alegria forçada, seja a violência descarada. Eu não tenho interesse de viver em um mundo que não entenda o leve. E mano, as pessoas estão descontroladas. 

Talvez esta nem seja a melhor escolha de palavras, porque ser "controlado" também não é algo que eu considere desejável. Mas ver as pessoas surtando, gritando, ofendendo por motivo nenhum é um troço que me consome, que me fere. Acabei de sair da mesa do café e já ouvi dois surtos diferentes. Não sou nenhum modelo no que se refere a controlar a língua, mas temos um limite aí. Tem que ter um limite, pelamordedeus. 

Tirando a utopia do mundo leve de lado, será que as pessoas simplesmente acham que isso é bom, que isso vai levar elas a algum lugar ou simplesmente adotaram esse modus operandi porque vivem no automático? Será que não tem nenhuma célula dentro delas - um watt resistente - que tenta buscar leveza dentro delas? Ou será que tá todo mundo tão doente e descontrolado que é isso que elas tem a oferecer? Mas de novo, não tem uma merda de um watt resistente ali?

Minha resposta automática pra isso é a raiva. A raiva que me faz querer me isolar, isolar minha casa e botar em prática as minhas regras. 

"Aqui dentro a gente ouve música e dança de meias" - ou a atualização disso, descalça porque agora eu moro na praia e nem preciso tanto assim de meias. 

"Aqui dentro a gente faz as coisas devagar e com carinho" - e faz o que dá, porque tem dias que não dá e não vale a pena sabotar o pingo de saúde mental restante pra dar mais um "check" na lista de tarefas. 

Essa coisa do devagar e com carinho talvez até seja alguma chave, porque eu percebi que quanto mais a gente fica olhando pro relógio, quanto mais a gente se preocupa que não vai dar tempo, menos tempo a gente tem. Mais atropeladas as coisas ficam. 

Mas toda vez que eu consigo botar em prática minhas regras de convivência me sinto o meme da Namariabraga dançando na frente do incêndio. Enquanto eu tô aqui dentro miando alguma música e botando ordem na vida eu vejo o caos e gritaria pela minha janela (as vezes literalmente).

Só que eu simplesmente tô contaminada demais pra seguir minhas próprias regras. Acho que é aí que o meu Hulk interior fica puto e quer sair. Porque isso é uma violência comigo, com os meus valores e meu jeito de viver, de me cuidar. Então eu sinto raiva e também sinto vontade de chorar, mesmo que as lágrimas nunca caiam. Porque eu quero desesperadamente - e no sentido literal mesmo de desespero - quero viver de um jeito leve, porque é absolutamente possível resolver a lista de babados diários na leveza, com tempo e bem feito. Com carinho. 

E é com muito carinho e consciência desse momento que eu quero mandar todo mundo tomar no cu. Quer matar um leão por dia? Vai. Quer fazer dancinha na internet pra ganhar uns likes e se sentir especial? Vai. Acabei de pensar em outros exemplos aqui que eu simplesmente não consigo escrever "'vai", mas eu também sou militante do seu direito de fazer absolutamente o que você quiser, o que talvez invalide tudo aquilo que eu já escrevi. Mas sim, faz o que você quiser, mas eu também tenho direito de achar triste tudo isso. O direito de não querer viver igual, o direito de querer distância de tudo isso. Eu só rezo que num mundo tão cheio de confusão, eu tenha inteligência emocional pra deixar as pessoas fazerem o que elas querem, mas sem me deixar contaminar por isso. Talvez isso faça de mim uma pessoa horrível, talvez seja só porque estou totalmente sem energia pra lidar com isso de um jeito melhor, não sei. Mas isso com certeza me faz querer ir morar ainda mais longe e desfazer minhas redes sociais. Manter contato só com quem interessa. E definitivamente sem noticiário. Será que é tarde demais pra comprar uma ilha?

Minha vontade de mudar o mundo morre na casca nesses momentos em que não consigo nem mudar meu próprio mundo interior. E se a gente não consegue nem isso, a gente tá realmente preparado pra fazer algo por alguém?

Conheço gente que assiste missa na televisão todos os dias, vive com o terço na mão e é absolutamente surtada. Reza todos os dias "pra aumentar a vibração do mundo", "pra ajudar na transição planetária", mas não consegue ir ao mercado sem reclamar ou julgar alguém. Mano, isso me deixa puta. Isso me deixa triste e isso me deixa revoltada. 

Não sei exatamente como terminar esse pensamento, nem como começar a desenrolar essa maçaroca. O que eu sei é que eu vou colocar meus fones e ouvir uma música e usar a força dessa raiva toda pra fazer algo de útil por mim antes que ela vença de novo e me coloque exausta, dolorida e rendida na cama, como tem sido. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe. 



domingo, 4 de dezembro de 2022

Respirada

 Oh boy, I did it again. 

Fui dormir de madrugada pra terminar um livro, de novo. 

Mas antes que você me venha retorcendo o canto da boca pra esconder a risadinha eu vou me defender. Eu já tava com insônia, ok? O que mais eu podia fazer?

"Como fazer leite em pó" - pesquisar.

Sim eu sei, tem várias coisas que eu poderia fazer além de terminar o livro, mas invariavelmente eu iria estar lendo, então porque não ler aquilo que eu já tinha começado?

Rapaz, estamos com um sério problema de Assembléia de Vozes na cabeça aqui. 

Estou me sentindo melhor hoje, até guardei o advino na gaveta. Achei selvagem. Nem a falta de horas essenciais de sono pegou na lomba por enquanto. Tô alegrinha, mas não vou exagerar muitos nos elogios por aqui porque também não estou nenhuma maravilha. Mas já é um puta avanço, isso é.

 Ontem cheguei muito perto de estrangular meu ukulele, mas fui forte. Estou tentando aprender um bagulho chamado chuck, que é uma soada abafada que dá um ritmozinho. Eu tava ali assistindo um tutorial e a moça muito calmamente explicando, devagar, na gentileza, mas a sensação física era de pane no sistema. Tela preta. Azul, sei lá que cor as telas tem hoje tem dia. No que eu olho pra baixo pra dar aquela suspirada, o primeiro comentário me fez dar risada de tão representada que eu me senti "I´m going to chuck my ukulele out the window". 

Yeah dude, I get it. 

Mas assim, foi suficiente pra me instigar a tentar hoje de novo. Yay.

A nossa conversinha de ontem me fez perceber uma coisa, eu quero que tudo caia do céu. Porque o conceito de cair tudo do céu é lindo, admita. Ser naturalmente boa em alguma coisa sem esforço. Não sei se isso existe de verdade, porque eu vejo que as coisas que eu sou relativamente boa são coisas que eu sentei minha bunda magrela na cadeira e me dediquei. Não sei se isso é causa ou efeito desse momento ruim que estou vivendo, não ter ânimo, energia nem disposição pra realmente me interessar por alguma coisa, mas com certeza não ajuda no ciclo vicioso da frustração.

Ontem conversei com uma amiga pelo telefone e eu fiquei feliz de verdade por ela. Foi legal porque eu realmente queria saber mais sobre o que ela tava contando. Mas mesmo assim a Assembléia Mental tava presente, me lembrando de perguntar mais. Só que foi fácil porque eu já queria saber. Então juntando essas duas pequenas novidades, considerei o dia ganho. Consegui me movimentar na direção de alguma coisa. Bom, são três se considerar que eu ainda estou dando as caras por aqui. Será que agora vai?

De qualquer forma, hoje eu quero tirar o dia pra agradecer. E não é a toa, nem uma disposição milagrosa que eu acordei com. Hoje é o aniversário de dez anos da minha primeira gata e não consigo explicar o quanto ela é importante pra mim. Saber que a vida deles é tão mais curta me faz querer aproveitar o dia de hoje, ela, porque nunca dá pra saber quantos desses dias eu ainda vou poder comemorar com ela. Isso logicamente deveria ser uma disposição de todos os dias e essa é uma fita que eu penso com frequência. Quanto mais eu desperdiço meus dias chafurdando na minha própria merda é a mesma quantidade de tempo que eu estou perdendo da vida deles, de aproveitar a presença deles. Eu sei melhor do que eu gostaria o quanto a vida deles é imprevisível e que estar aparentemente saudável num dia não quer dizer nada, as coisas ascontecem de uma hora pra outra. É aquelas situações "pode ser benção X também pode ser aflição" que eu vivo repetindo por aqui. Mas uma nóia por vez, vou curtir o dia de hoje, mimar e curtir com ela. Senta lá, nóia.

Por outro lado hoje a casa está um caos. Não vou mentir, está um caos há algum tempo, mas hoje está de parabéns. Mas aí fica uma lição sobre escolhas, sobre o como. Vou ter que limpar, vou, mas vou fazer de um jeito que eu consiga ainda aproveitar o dia do jeito que eu quero. 

Esperançosinha ela né? Que orgulho. 

Quem sabe agora vai. 

Até amanhã, quem sabe.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Mas como?

Então.

Esse nosso pequeno arranjo aqui já está começando a mostrar alguns resultados. Escrever aqui faz de conta bem lindamente que eu não estou falando sozinha, apesar de saber que sim, sigo falando sozinha porque é uma comunicação bem passiva e também não tenho a intenção que ninguém leia. Mas expor esses pensamentos sem quase nenhum filtro faz a mente sair do redemoinho insistente de alguns temas e se propor a criar uma linha de raciocínio. Especular sobre um tema, desenhar e engavetar. Tem ajudado. 

A conversa aqui de ontem me fez perceber o quanto eu tenho me feito desinteressante. Se é causa ou efeito não sei dizer, provavelmente um pouco dos dois. Tenho estado tão desesperada em busca de um caminho, de uma orientação, de alívio das angústias que obviamente não tenho tido mais interesse em mais nada. Essa busca desesperada tá menos relacionada a pesquisas e mais em vomitar minhas amebas em quem me dá o mínimo de atenção. Esse é o primeiro ponto. O segundo é não ter estar fazendo o movimento de volta, em me abrir pra também acolher as pessoas com quem eu falo. Eu simplesmente desapareço e ainda fico esperando um resgate que eu sei que não vai vir. Virei aquela pessoa dramalhona, isolada e carente, tudo o que eu sempre sonhei, só que não. 

Eu não sei onde a vida perdeu o sentido, mas tenho percebido a sensação de não querer fazer mais parte desse mundo. Não no sentido suicídico da coisa, mas no sentido de não me encaixar e de também não fazer questão de tentar me encaixar. Eu gosto de fazer várias coisas e costumava me divertir com pouco, mas ultimamente até as coisas que eu sempre gostei chegam até mim com um peso. 

Eu gosto de cuidar do meu cabelo, por exemplo. Mas olhar pra ele e decidir que ele não tá do jeito que eu queria e nunca vai ficar ficou mais fácil. Me olhar no espelho e ver uma pessoa torta, feia e sem graça virou rotina então já nem me olho mais. Enchi minha casa de plantas e algumas não gostam do lugar e adoecem e eu concordo com elas muitas vezes e faço o mesmo. Me ouvi cantar outro dia e só ouvi gemidos. Tentei tirar uma música no ukulele e fiquei frustrada por meus dedos não saberem o que fazer, mesmo que o tempo que eu tenha dedicado pra aprender tenha sido ridículo. Meus textos aqui também não são tão bons quanto costumavam ser (ou como eu costumava a acreditar). Meu trabalho se divide em limpar e brincar e a parte de brincar é a que tem sido mais difícil. Foi aí que eu vi uma completa perda de beleza. Beleza em tudo, falta de se divertir, falta de ver essa beleza boba e sentir vontade de sorrir e agradecer. 

O que por outro lado também me faz sentir muito ingrata. Eu sei que tenho uma vida privilegiada. EU SEI. Eu moro numa chácara cheia de verde, cheia de silêncio e animais que eu amo. Moro com minha família, que apesar de todos os pesares, a gente convive bem. Vejo famílias por aí, até dentro da minha própria árvore familiar, que vivem em pé de guerra diariamente. Temos várias questões aqui, algumas mais sérias do que outras, mas a dificuldade de conviver tá muito mais relacionada a minha inteligência emocional do que com qualquer outra coisa. Cada um tem seu tempo e seu aprendizado, seu caminho. Mas as vezes eu me deixo ferir com tudo isso. Eu também tenho um trabalho que me permite ficar em casa pra fazer o que eu quiser. Um trabalho que sinceramente eu já gostei mais, mas que ainda é muitíssimo melhor do que estar presa a um cubículo por várias horas todos os dias. Tenho tempo para ler, para limpar a minha casa do jeito que eu quiser, pra tirar uma soneca, pra inventar uma moda qualquer, eu só não faço isso.

Eu gosto muito de um aplicativo de troca de cartas, e foi lá que esse sentimento de ingratidão ficou bem evidente. Muitas pessoas contando sobre seus trabalhos, suas vidas e ficou muito claro o quanto eu sou mimadinha, com a faca e o queijo na mão e um coração bem ingrato. Mas não tem caixinha nessa vida que seja garantia de felicidade e saúde mental. Cada qualidade tem seus desafios. Já conheci gente lindíssima que tinha problemas sérios justamente por isso. Gente de muita grana com problemas enormes. Então vou me proteger aqui e dizer que tá tudo bem eu ter essa vida "que todo mundo pediu a Deus" e ainda assim estar sofrendo tanto e por tanto tempo. 

Talvez se eu tivesse mais liberdade financeira eu não fosse tão noiada. Mas esse é mais um daqueles tópicos que podem ser tanto uma liberdade como uma agonia. Pode ser que eu fique milionária e ainda assim continue tendo meus episódios. Um dia a maioria dos meus gatos vai do lado de lá e ainda pode ser que eu me sinta sobrecarregada com as atividades. Depois que eu ouvi sobre o COMO eu comecei a pensar muito sobre isso. Tem tudo a ver com o como a gente age, reage, como a gente decide levar a vida. Apesar de saber que tudo é decisão, todas as nossas decisões são emocionais. Então levantar de manhã e decidir ter um bom dia também depende que você tenha acordado se sentindo preparado para um bom dia. O que me faz pensar pra que a gente acorda decidindo não estar preparado para um bom dia, mas é assim que tem sido aqui. É triste. 

É muito triste quando as coisas perdem o gosto, quando as atividades mais queridas não tem sentido. Quando simplesmente a cabeça não consegue mais imaginar o lado arco íris da força. Nas insônias criativas frequentemente eu estou pintando alguma coisa, mas veja quantas coisas eu parei pra pintar, zero. Tenho uma cortina que ficou uma gracinha e ela está esperando a segunda parte e a coitada tá aqui, esperando atenção faz meses. 

A sensação é que absolutamente tudo me cobra. Os gatos me cobram carinho, atenção, força de vontade. A casa me cobra olhar. Meu corpo me cobra cuidado. Falar com alguém me cobra abertura e disposição. Até me divertir me cobra alguma coisa. Isso deixou a vida pesada demais pra eu carregar e eu preciso resgatar essa criança retardada e brincalhona que tá brincando de esconde esconde tão bem que eu não encontro ela há muito tempo. Revisar e mudar o meu como. 

O problema é como, mas vamos lá. 

Até amanhã, quem sabe.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Navega

 Firmou bem seus pés naquela prancha meio mole e foi. 

Uma montanha russa no parque iluminado, um algodão doce nas mãos e um olhar pro lado que traz a consciência de um par de olhos te observando das sombras. Eu estou segura, afinal o mocinho já derrubou o vilão com três socos na cara. 

Um romance na praia, um astro do rock internacional, um grupo de mafiosos de moral duvidosa que só querem te proteger. 

O cenário muda a cada viagem, vem porrada, vem vilão e de repente estou voando de um estacionamento em construção em um carro que já foi brilhante. Pelo menos continua veloz. 

O mocinho é meio mandão mas também sabe obedecer direitinho. E ele sempre sabe o que fazer quando o bicho pega.

Pego minha prancha e cruzo as pernas pra contemplar a calmaria. 

As páginas acabam. E tudo sempre acaba bem. 


Baladeira de Mundos Paralelos

 Querido diariozinho da injúria, chegamos hoje na impressionante marca de três dias na sequência, meus parabéns pra mim. Temos um tempinho aqui pra matar, porque pra esse dia começar precisamos que o advino faça seu milagre.

Tive insônia ontem a noite. Isso não é novidade, eu sou muito mas muito ruim pra dormir mesmo. A culpa não é toda minha, eu tenho que admitir. Eu estava lendo um livro e tava ficando mais emocionante do que eu esperava e eu sabia que tinha que ir dormir mas não conseguia largar aquela desgraça. E tava bem claro que eu não ia conseguir terminar o livro a tempo de ter uma noite de sono suficiente, então eu coloquei meu celular pra despertar como um sinal de "fodacy, vou ler até a hora que eu quiser". 

Consegui chegar numa cena mais morna e me convenci a ir dormir. Mas tem um fenômeno muito comum entre os insones, que é ter as pálpebras caindo pelas tabelas quando acordado, pra magicamente ter elas despertas quando se decide ir dormir. 

Nossa, e que pessoa mais criativa é essa Georgia Insone. Eu xingo lindamente quer deveria ser xingado, gravo vídeos imaginários na primeira tentativa, sou eloquente em vários idiomas, engraçada, tenho revelações mediúnicas, escrevo textos profundos e músicas cativantes, é um sonho... e porque é mesmo. Quando eu deito minha cabeça no travesseiro minha mente viaja pra esse arco íris criativo das mil possibilidades enquanto meu corpo faz dublê de walking dead. 

Mas eu sou uma jovem senhora e como tal, é o sol dar seu alô (ou "sol", pq São Pedro segue sem tratar seu agravo quadro de transtorno bipolar) que esse corpinho acorda e isso desencadeia uma horda de gatos famintos miando na minha direção querendo café da manhã. Então uma hora antes do meu despertador tocar, eu já estava sentadinha com meu café e obviamente, já que eu tinha tempo, resolvi terminar o livro. Acabou que a cliente desmarcou comigo, então levantei a toa mas pelo menos terminei de ler a história. Nem tudo foi perdido. Então estou aqui, esperando o advino fazer sua mágica nesse corpo dolorido pra começar o dia.

Eu gosto quando o livro é emocionante, mas não leio muitos assim por motivos de - bem, ansiedade. Não ando precisando de nada que me agite mais e acaba que eu só tenho lido livros de romance sonsos. Ler é meu escudo, meu passeio de feriado, meu rolê de final de semana. As vozes da minha cabeça, meus amigos, minha terapeuta já pontuaram o quanto eu leio demais. Pra escapar. Acho que até fui eu quem trouxe isso pra eles, porque exceto eu ninguém sabe realmente o quão compulsivamente eu tenho lido. Problematizando a leitura, sim. Cheguei a ficar preocupada com isso, mas não desacelerei nem perdi o prazer por ler. Enquanto eu estou ali naquele mundo gliteroso onde tudo vai acabar bem, minha cabeça concentra e não fica vagando pelos quartos escuros da minha mente, é lindo. O que influencia diretamente no meu sono, porque a partir do momento que eu escapo pro mundo real e deito minha cabecinha louca, ela olha bem pra minha cara e fala "ESCUTA AQUI QUE AGORA EU VOU FALAR", e a bonita fala pelos cotovelos. 

Pois bem, mas eu tive uma cura milagrosa nesse aspecto depois que eu desenhei minha vida social. Eu viajo algumas vezes por ano por um final de semana ou um pouco mais e tirando isso, basicamente saio de casa pra ir trabalhar, ir ao mercado, farmácia ou veterinário. Você não entendeu errado, minha vida social mal se sustenta nas pernas. Pra quem conheceu a adolescente que engatava direto do rolê pro trabalho várias vezes na semana - com uma pequena pausa para um banho e um café - essa jovem senhora que vos fala não poderia ser mais diferente. Não tenho nem disposição pra sair mais de um dia seguido sem programar uma semana off só dormindo (e lendo!). Sem condições pra essa juventude toda. Então analisando por esse aspecto, ler é essencialmente o que eu faço pra me divertir. Então podemos concluir que eu me divirto muito. Sou basicamente uma baladeira de mundos paralelos, cada dia (dois ou três, vai) em um universo diferente. 

Será que isso me faz mais xóvem? Bom, se isso não faz também, fodase, eu não poderia me importar menos. 

Ainda não sei o que vou começar a ler mais tarde, mas espero que não seja algo tão bom que eu não consiga parar de ler. 

Valorize os livros meia boca. 

E não vamos esquecer do Advil.

Até amanhã, quem sabe.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Olhos de primavera

Era água pra tudo quanto é lado. 

Água do céu, água dos olhos que se esparramavam pelo chão. 

Água que faz uma bagunça, destrói móveis de baixa qualidade e também os corações. 

Nada foi comprovado sobre corações de baixa qualidade, mas o mesmo não pode ser dito dos sentimentos eles contém. Os jornais seguem falando sobre montanhas que não aguentaram mais buscar os céus e se jogaram no chão em desespero. Mas não houveram informações pertinentes aos corações que diariamente seguem o mesmo caminho. 

Chove todo dia. Chovo pelos olhos nos dias mais bonitos de sol. 

- "Mas é bom porque daí brota, né? Fica tudo bem verdinho" - Brota, brota mesmo. Mas até lá seguimos nos esquivando da fúria da terra e esperando as sementes germinarem no peito. 

Água

 Pois então, olha eu escrevendo por dois dias seguidos. 

Eu fiz o que tinha prometido, passei o dia lendo - nenhuma novidade aí. Mas me deixa degustar o sabor da vitória porque também fiz as outras coisas que eu precisava fazer. Mal feito, mas feito, o que na atual conjectura é uma vitória. A que ponto chegamos, minha gente. 

E até estou aqui de novo e de novo sem ideia do que vai sair dessa escrevelança. Resolvi postar aqui nesse blog depois de 5 anos porque é o que já temos e fodacy se o formato do texto agora vai ser diferente. Não espero que ninguém leia mesmo. Vai ser meu diariozinho de injúrias e tá bom demais. 

Hoje acordei e descobri várias piscinas dentro de casa. Coisa de rico, só que não. Várias piscinas de chuva dentro de casa. Uma vitória é não ter surtado. A segunda vitória é ter conseguido pegar meu rodinho e fazer o serviço - boa, Georgia. É, a coisa tá assim. Agora tem um solzinho irônico me espiando pela janela com a maior cara de "ué, o que que eu fiz?". Se desse pra dar uns tapas nesse sorrisinho mequetrefe, eu daria. 

Nunca lidei bem com dias de chuva. Não tenho medo nem nada, eu adoro ver relâmpagos a noite. Mas tem algo ali que me deprime, ainda mais quando são semanas seguidas assim e ainda mais quando a chuva causa tanto estrago como tá causando. A água tem um que de despedida. É uma despedida boa, de falsas esperanças, de coisas pesadas e sujas, ou aquele aviso que é preciso deixar fluir. Tudo junto. 

Chega a ser ridículo esse medo que as vezes me assombra - medo dessas mudanças, dessas limpezas. O que é mais ridículo ainda é olhar pra trás e ver o quanto essas mudanças todas só me fizeram bem. Mas quando tudo o que você tem é ressentimento e uma porrada de sombras, se ver sem elas pode ser assustador. Poder vagar pra qualquer direção é tanto liberdade quanto prisão, depende de como você tá olhando pra vida naquele momento. Nem sempre a gente faz as escolhas conscientemente, muitas vezes a gente só vai indo...

Recentemente aconteceu um babado forte - grande novidade. Eu fiquei doente com risco de ficar cega. Então pedi, mas eu pedi MESMO, pra poder enxergar o que eu não tava vendo, enxergar o que eu tinha que mudar, pra onde eu tinha que ir. E é isso que tá acontecendo. De repente o bueiro se abriu e de lá estão saindo um monte de porcarias que eu botava fé que já estavam resolvidas. E se tem alguém que eu posso culpar, é só a mim, porque eu PEDI. Eu devia ter pensado melhor e ter pedido pra ver como resolver esse babado todo, porque meu tiro saiu pela culatra. Meus olhos estão sob supervisão perpétua mas estão curados, mas o emocional minha gente... que fiasco. 

Talvez essa água toda no meio da minha casa seja tudo aquilo que eu não me dou o direito de chorar. Não consigo. Não consigo porque sei que se eu deixar a peteca cair, eu vou estar sozinha pra catar essa peteca do chão. Não porque não tenho amigos, mas porque essa é uma tarefa solitária mesmo. Ninguém cata suas petecas. No máximo eles ajudam a ter uma ideia melhor de onde ela pode ter caído. Talvez essa tristeza que a chuva me traz seja por acreditar em tudo isso. Por ver ela caindo e isso me lembrar do quanto eu já chovi, enquanto eu tentava desesperadamente passar o meu rodinho pra fazer o serviço e continuar seguindo em frente. Esse é o meu papel, não é? Resolver tudo, ser forte, secar as piscinas dentro do coração dos outros. Não se engane, eu sei que isso tá tudo errado, mas mudar isso tem sido um projeto de uma vida toda. Entender o meu papel, usar essa minha força em meu próprio benefício, porque eu tava sempre em último nas paradas de sucesso. Não mais, mas também não sou nenhum top 3. 

Vamos ver se em algum momento sai uns contos por aqui. Escrevi alguma coisa pelos cadernos por aí, mas não vou nem me dar ao trabalho de procurar, digitar e postar. O significado que eles tiveram naquele momento já não tem mais par aqui, então não faz sentido eu chafurdar mais nesse passado. Vamos em frente, porque o caminho lá de trás eu já conheço. 

Até amanhã, quem sabe. 



Insira um título atraente

 Essa foi a frase que me deu boas vindas para o primeiro texto. Porra, aí forçou a barra, né? Que merda de título atraente. Atraente pra quem? Se eu for considerar o que me fez sentar nessa cadeira hoje, ligar o computador - depois de pedir um emprestado porque o meu resolveu que hoje era o dia da sua eterna despedida - e começar a escrever foi totalmente levado pela falta de atração por qualquer coisa que seja. Talvez escrever seja o último watt resistente que insiste em iluminar o fim do túnel. Aquela coisa que me trouxe uma mínima faísca de interesse nesse atual contexto que estou vivendo.

Então não, me desculpe, mas não tenho nenhum título atraente pra hoje. Hoje eu quero apenas ficar atirando meus pensamentos contra esse teclado pra ver se eu encontro algum sentido em alguma coisa. Quem sabe se eu escarafunchar nas coisas todas que já aprendi e escrever aqui sirva como um bom lembrete. Vai que eu pego no tranco. No momento sou aquele fiat 147 subindo o morro. Cansada, tossindo, achando que vou cair pra trás porque meu corpo tá fazendo estralos estranhos e eu não vejo a merda do topo do morro por mais que eu suba. Frear também não é uma opção porque... é um fiat 147, caralho. Não vai ficar parado. Vai descer mais rápido que carrinho de rolimã.

Tem uma discreta vantagem no contexto de hoje que não existia antes, porém. Hoje eu quero viver. Caralho, eu quero muito viver. Espero que os quinhentos livros que eu li não tenham estragado minha expectativa de viver. Mas quem é que eu tô querendo enganar, é obvio que estragou. Talvez minha esperança de viver seja justamente por ver tantas mocinhas se lascando, afinal é sempre a mocinha que se lasca - porque é aí que o mocinho aparece, se toca que ela é a última bolacha do pacote e salva o dia. Se eu quero que alguém apareça e salve o dia? Seria bem conveniente nesse momento, mas não é muito minha praia. Eu gosto da idéia de salvar meu próprio rabo e vencer na vida só pra esfregar na cara da vida e falar "sem tempo irmão" e seguir plena. Acontece que eu não tô com essa bola toda, não hoje. Mas também tô ligada que quando eu tivesse minhas "bolas" recuperadas eu iria botar o heróizinho pra correr também. Cabeça complicada, temos.
Nessa de querer viver fiz alguns avanços. Estudei magia, psicologia, defesa, comecei a frequentar macumba e aprendi vários palavrões novos. Tentei ficar em silêncio, tentei meter o loco, tentei estudar pra caralho, tentei levar a vida mais leve buscando a criança interior e também tentei resgatar a humilde senhorinha que vive dentro de mim, Mas como vocês já sabem o processo não é linear. Um dia eu sou a Mulher Maravilha Xamânica Estelar das 15 Constelações de Andrômeda e por seis meses eu me transformo na larva da mosca na merda do cavalo do bandido. É meu bem, a vida tem sido assim. Não vou nem te oferecer um doce pra adivinhar em que modo de operação estou agora porque não quero nem desperdiçar meus doces.

Desde que me entendo por gente eu fui doente. Convivo com depressão e ansiedade mesmo antes de saber que isso não era frescura. Eu achava que era. Botava tudo isso no rabo de um contexto bem merda com a minha família quando eu era pequena. E depois no contexto de merda que eu vivi quando adolescente. E segui enfiando no rabo da vida até entender que opa, talvez eu tenha um problema. Sempre tive dores estranhas, sintomas que ninguém explicou direito pra mim. Sempre passando mal, sempre indisposta, todos com várias explicações e sempre sem uma solução. Já fiz terapia de tudo quanto é tipo, já fui em médico de toda especialidade, já fiz tanto exame que eu saberia até te recomendar o que fazer se você precisar. Fiquei cinco anos bem doente, três deles passei de cama. Foi um dos momentos em que a vida me puxou o freio e falou "se agilisa" e foi o que eu fiz. Estudei muito porque eu queria entender o que tava acontecendo comigo. Apareceram várias teorias, mas se eu tivesse que te dizer agora a conclusão disso tudo eu só falaria "eu sei lá". Logicamente que isso abriu a consciência pra várias coisas e tô muito mais esperta quando as coisas acontecem.

Processos energéticos, espirituais. Mas até isso me deu um ranço eventualmente. Ao mesmo tempo que podemos sim encontrar várias informações pertinentes na internet, tem muito jovem místico se achando o novo Buda com a solução instantânea para curar sua vida em 3 respiradas profundas. Por mais pessoal que nossa experiência seja, não é assim, um dia a vida vem pra te ensinar - porque você tá aqui é pra isso - e não vai ter respiração profunda que devolva pro eixo não.
A lama vem e você chafurda até achar um jeito de conseguir sair. Enquanto isso não acontece é tiro porrada e bomba. Se eu sou a cavaleira da desesperança nesse momento, então que seja. Atire a primeira bota enlameada quem nunca afundou na lama da vida. Ah é, não vai dar né? Você perdeu as botas e toda a sua dignidade lá no meio. Eu sei a sensação.
Mas se tem uma informação que traz alguma luz pra esse cenário - aquele watt resistente - é saber que tá tudo no lugar. Meus momentos de lama profunda, de depressão, de ansiedade invariavelmente me trouxeram grandes movimentos, grandes ensinamentos. A pergunta que não quer calar é porque caralhos eu simplesmente não consigo evitar cair de novo. Ok, tem mais coisas pra aprender. Mas não dá assim pra ser mais leve? A cabeça tem mesmo que ficar tão distorcida e confusa, o corpo parecendo que apanhou de um rolo compressor histérico? Se o gênio da lâmpada aparecesse agora eu provavelmente pediria por um processo linear. "Isso aqui eu já aprendi". Bom, se eu tivesse aprendido mesmo não tava aqui né?
É meus amigos, eu tô fudida. Mas vamos lá. Provavelmente vou passar mais um dia lendo. Talvez eu nunca mais volte aqui, talvez eu volte amanhã e consiga fazer daqui uma distração/discussão frequente. Não vou botar essa pressão porque não preciso de mais disso. É isso, me deseje boa sorte.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Resumo de 2017

Estendeu o braço sobre a mesa e passou arrastando
Jogou tudo no chão sem nenhuma cerimônia.
- De novo. Do começo. Você ainda não entendeu.

(pelo jeito não né)

Biografia

Uma vez ouvi que dava por certo pra saber tudo sobre alguém a partir dos seus livros.
Bom, fuçando na minha estante, talvez você não descobrisse que adoro dançar de meia, mas certamente saberia que eu organizo tudo pelas cores, começando pelos livros.
Nos presentinhos que guardo ali, tem um álbum de amizades.
Gente que faz muito, muito tempo, gente que passou voando e também gente que saiu correndo. Gente que foi lá do outro lado do mundo e agora tá ali, eternizado na estante naqueles livros que talvez nunca mais vejam seus donos. Mas eles não sabem disso.
Gente que valeu e que vale a pena e gente que aparentemente, nunca conheci de verdade.
Dos livros, tem assunto à beça. Deve ser por isso que não paro de falar.
Tem uma pilha de livros que comprei porque um dia a amiga me emprestou o primeiro.
Tem aqueles preferidos, que nunca jamais terei o suficiente, não importa o que você diga.
Tem os preferidos de tanta gente, na esperança que se tornassem meus preferidos também.
E olhe lá, não é que conseguiram?
Tem aqueles que terminei de ler e corri assistir o filme pra ver se conseguia estar nem que fosse só mais cinco minutinhos naquele cenário, vivendo aquela coisa toda, pra morrer com o coração apertado bem no final do filme.
É uma livrarada.
E estão todos eles ali enfileirados, contando sua história e também um pouco da minha.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Beijo me liga

Aconteceu.
A pressão estava grande, a torcida já nem tinha mais esperanças.
Mas aconteceu. E finalmente, já era hora.
Naquela quinta-feira bem igual a todas as outras, simplesmente não fiz o que era garantido que em outros tempos eu faria.
Segurei o meu "não" bem firme diante do rosto e continuei avançando sobre ondas e mais ondas de tristeza e manipulação.
E pela primeira vez na história dessa vida, coloquei o que seria melhor pra mim ali no pódio, brilhando em ouro para não esquecer.
Desculpa aí, mas nesse momento eu preciso vir em primeiro. 
Não é você, sou eu (que não tenho mais esse saco pra te aturar)