quinta-feira, 6 de abril de 2023

A pequena estrela no fundo do céu

 Bastante tempo passou mas pouca coisa realmente mudou. 

Mudei de estratégia, fui ao médico, estou tomando remédio. Estou discretamente fazendo minhas coisas, nem de perto fazendo tudo o que eu precisava ou queria. Tendo preferido fazer tarefas mais recreativas, mesmo que não exatamente inúteis e que com certeza estavam entaladas em alguma lista de tarefas amarelada pelo tempo. É até engraçado como tenho pegado peças furadas pra costurar, peças que eu estava usando furadas mesmo, sem quase me importar. É quase uma analogia com o que tenho tentado fazer interiormente, costurar meus buracos, reparar minhas feridas - mesmo que o melhor que posso fazer no momento é simplesmente riscar a tarefa da lista, sem me ater muito a qualidade da execução. Tá feito, então tá ok. 

Também tenho feito algumas comidinhas para mim mesma, coisa que eu adoro mas que fazia anos que não fazia. Minha audiência aqui é exigente, então é libertador fazer só pra mim, sem perguntar, sem esperar pelas caras e bocas de desagrado. Coisas simples, um sanduiche, um omelete, pequenos prazeres da vida que eu tava me furtando por tempo demais. Ouvir música e tapar o silêncio e especialmente as conversas acaloradas que rolam através da janela. 

Apesar de eu ter falado que é pouco, é uma coisa enorme. Vindo de um tempo onde passar uma pomada era uma grande coisa, ouvir música com prazer, cozinhar algo que eu tenho vontade de comer - e ter vontade de comer alguma coisa também é um ponto, fazer essas pequenas coisas recreativas só por mim. É uma vitória com certeza. Mas no quadro maior, não tenho feito nada de útil e pela primeira vez tô bem com isso. Mais bem do que antes, pelo menos. Sei que o processo é lento e nada linear, mas tenho caminhado e consigo sentir uma pontinha de esperança ao ver que as coisas parecem estar caminhando. 

Se antes eu sentia que não tinha nada dentro de mim que valesse a pena oferecer, hoje enxergo com mais clareza que sim tenho algumas coisas. Talvez não sejam grande coisa, mas elas existem. E o mais importante talvez, é que o que tenho em mim, ninguém é capaz de tirar. Minhas palavras, minha experiência, minhas percepções e essa coisa que brilha fraco hoje em dia no meu peito, mas que voltou a brilhar. A esperança, a bondade, a vontade de olhar o mundo com beleza. De novo, não mudou muita coisa, não acordei me sentindo a Polianna, mas tem algo aqui que tá querendo se mostrar mesmo que timidamente. Ao mesmo tempo, percebo que ando mais irritada, mais revoltada com as burrices e gente reclamando de barriga cheia. Destratando tudo o que respira só porque não consegue aturar nem a si mesmo. Me revolto com isso que estamos vivendo hoje, a desinformação que rola solta e as pessoas bebendo disso como se fosse o elixir da longa vida. Sou forte na defesa da sua liberdade de pensar o que quiser, mas pelo meu santo saco, não me envolva nisso. 

Sempre encontrei na raiva uma amiga, porque de alguma forma, ela me impulsiona a fazer algo diferente, quebrar as correntes, mandar todo mundo se foder e fazer aquilo que me dá vontade. Eu posso fazer isso agora? Não. Estou profundamente dependente do dinheiro da minha mãe, mas em tudo aquilo que eu puder fazer isso, eu quero. Não é sempre que eu tenho esse impulso e muito menos a força, mas estou sentindo vontade de abraçar a beleza e a leveza, mesmo que o que me motiva a isso seja a raiva. Preciso continuar por mim, porque eu sou tudo aquilo o que eu tenho. Eu preciso me defender, inflar o peito e estar aí pra mim, mesmo que pisando em cobras. Ainda que eu também rasteje muitas vezes, gosto de acreditar que sou uma cobra com princípios. 

Não tão escondido da superfície, sinto uma tristeza enorme abraçando essa raiva e vejo como isso pode acabar mal. Ainda não me sinto forte pra ter certeza que eu vou seguir de cabeça erguida, mas a certeza que eu tenho é que isso vai passar algum dia. Queria que fosse logo, queria estar inteira e voltar a trabalhar direito, ter minha liberdade de volta. Mas não tenho pra onde voltar, até porque não tem algum lugar emocional que eu gostaria de voltar. O melhor momento é agora, esse momento de esperança de cura, ou tratamento que seja. As coisas foram afundando homeopaticamente que só percebi quando era tarde demais, mas nunca teve ideal, confortável e feliz. Estável. Nunca presenciei isso. É pra lá que eu quero ir. Pra vida onde eu pago minhas contas, sustento um estilo de vida onde eu me sinto gente. Fui muito bem treinada a viver com muito pouco e apesar de querer muitas coisas, depois de cobrir algumas necessidades básicas não tenho muito mais o que querer do que apenas... me manter. Provavelmente gastaria em aulas de todo tipo, instrumentos, dança e consequentemente o que elas demandam, mas sonhar é preciso e até isso me foi roubado. Quantos anos meus foram roubados para conquistar uma suposta sabedoria que eu não tenho exata certeza se consigo acessar quando preciso. Acho que o que eu quero dizer é que agora parece que eu quero muito, mas eu sei de verdade que o meu muito é muito menos do que uma pessoa normal, se é que isso existe. 

Talvez esse pensamento me ajude a me convencer de o caminho pode ser mais fácil, já que não é muito, é mais fácil de alcançar do que um sonhão enorme, né? E se eu sou uma pessoa minimamente razoável, nada mais junto que eu mereça uma realidade condizente. Não tenho problema em começar pequeno, o que eu tenho hoje é quase nada. Também nada me falta de verdade, mas a frustração pela falta de liberdade é algo gritante.

Enfim, é isso.

Me deseje boa sorte.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

O poder do sossego

 Às vezes me surpreendo com o poder do sossego. Talvez porque ultimamente eu tenha vivido uma vida lenta, mas ao mesmo tempo cheia de cobranças externas que não me deixam exatamente relaxar. É só uma vida lenta, tentando enfiar um tempo de descanso entre os meus pensamentos que ficam dando ordens e me lembrando de coisas que eu deveria ter feito há muito tempo ou estar fazendo neste momento. 

Fui viajar, ver meu amigo em Curitiba. Curitiba, como vocês sabem tem aquele climinha inglório toda vez que apareço por lá. Friozinho, chuva, garoa, tempo cinza... e não foi diferente dessa vez. Mas veio a calhar porque o rolê de carnaval que eu queria era justamente ficar em casa e curtir uma preguiça. Ver uns filmes, falar umas bobagens, falar sobre coisas sérias, tomar uns gorós e ler. E foi isso que eu tive. Dormi até mais tarde, li dois livros enquanto ele assistia seus jogos de futebol. Tive uma imersão sobre um futebol que eu não conhecia, um time que ganhou meu coração apesar de eu saber que nunca vou assistir um jogo. Um time que é pela resistência, que tenta fazer algo mais que apenas o óbvio. Achei massa de verdade. Ouvi músicas novas, fiz um novo pacto, que não tenho certeza se vai rolar mas que só pelo fato de ter existido já vale a pena. Faz alguns dias que cheguei e o sentimento bom ainda está presente. Voltei mais inteira, depois de ter passado dias em um estado de leveza e alegria que não sentia há muito tempo. Não estou me sentindo assim, mas ainda é melhor do que eu estava antes. Tô aqui escrevendo, afinal, e na sequência vou dar sequência aos meus estudos. Tô mais funcional de novo e talvez seja porque o remédio finalmente completou sua adaptação, apesar da tpm estar apitando na curva. Vamos ver quem ganha essa, façam suas apostas. 

É isso meu caro diário da injúria, dias de luta e dias de glória. Sossego é necessário. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Até parece

 É, eu sei, eu nunca mais vim aqui. Eu sei que é importante pro processo terapêutico e bla bla bla. 

Eu não consigo me concentrar na leitura. Eu sempre leio um pouco enquanto tomo café, mas já levantei várias vezes porque parece que o compromisso que eu tenho daqui a uma hora é daqui a 5 minutos e eu não posso esperar mais. De certa forma, eu sou grata pelas coisas que eu sou obrigada a fazer, porque elas me obrigam a sair da inércia. Inércia qual eu não estou conseguindo me concentrar. 

Eu tenho que ir buscar as cachorrinhas que vão ficar aqui no fim de semana. O mesmo tanto que eu odeio ter algo marcado com horário eu também tenho que agradecer, eu acho. De tarde tenho terreiro e é a mesma coisa. Horário, coisas pra arrumar antes disso e pra isso. Me deixa nervosa. Parece que minha cabeça perde a noção de quanto tempo leva as coisas e eu fico sofrendo como se eu já tivesse atrasada. Daí eu não consigo me concentrar na leitura. 

Amanhã eu vou escapar pra Curitiba. Finalmente vou ver meu amigo a sós, sem ter que interagir com mais pessoas ou resolver coisas ou ajudar em eventos que são legais mas que eu preferia não participar. Mesmo sendo com a pessoa que eu mais confio nessa vida, ainda estou com medo da interação ser demais. Mesmo sabendo que ele provavelmente entende minha necessidade de ficar quieta porque ele é exatamente igual. Mas também estando apenas nós dois, também não vou poder escapar pra dentro do meu livro. O que é exatamente a ideia de estar viajando, mas enfim. Sabe quando dizem que quando não se sabe pra onde ir, qualquer caminho serve? É mentira. Eu não sei pra onde escapar ou o que eu quero fazer, mas tem coisas que eu sei bem que não quero, definitivamente. 

Essa semana foi difícil. Relativamente mais simples comparadas as outras, mas a anedonia, a amargura e o vazio estavam bem presentes. Também foi uma semana de novos começos, novas tentativas. Comecei terapia com a psicóloga nova, que vai fazer uma anamnese pra ver se a ansiedade e a depressão escondem mais alguma coisa por trás. Faz quase duas semanas que estou tomando medicação e apesar de não estar sentido muitos efeitos colaterais, também não estou sentindo grandes melhorias. Tenho tido crises suaves de ansiedade todos os dias e a angústia segue firme. Tenho zero vontade de fazer qualquer coisa. Até arrumar a mala foi um esforço. 

É uma bosta viver assim. Mas estou mas confiante que pelo menos agora estou no caminho de descobrir se tem algo por trás de tudo isso, porque meu corpo responde assim e dai tratar direito. Pelo menos isso.

Fiquei a semana toda me puxando pra fazer outras coisas, continuar minha cortina, qualquer coisa além de ler. Não fiz. Essa semana também não teve aulas com o professor de magia, e aí eu perco todo o ritmo. Eu tô perdendo o ritmo das coisas muito fácil. Com o novo tratamento de ginecologia natural, que eu não tô fazendo, aliás, eu perdi o ritmo de tomar água. Tô tentando voltar com isso, a tintura também porque ela me fazia bem até não fazer mais, mas tá sendo um esforço. Não quero morrer, mas quero ficar encostada num barranco até que a morte resolva me enxergar. 

Ás vezes sinto aquela faísca lutadora em mim, querendo sair e enfrentar esse touro de frente, mas ela logo desiste. É como se ela fosse só um sonho, um holograma, um devaneio de criança. Como se ela nunca tivesse existido. Eu sei que eu não sou essa casquinha frágil que eu sou agora. Essa casquinha sem graça, sem cor e sem vontade. Eu sei que dentro de mim tem cores fortes, tem palavrões criativos, uma vontade sobrenatural de fazer as coisas acontecerem mesmo dentro de um universo de possibilidades limitadas. O meu universo atual. Mas ela se perdeu no labirinto de névoa e confusão mental. No labirinto onde tudo é exacerbado, onde eu consigo sentir absolutamente tudo com profundidade. Uma palavra, um sentimento, um barulho, tudo vem como um tiro de bazuca diretamente no meu peito. È por isso que eu quero ficar sozinha e em silêncio, porque tudo me fere. Tudo me faz tremer, tudo me tira do eixo. Uma casquinha. E ao mesmo tempo eu tô vivendo dentro desse limbo sem graça, sem cor e sem vontade. Como é possível sentir tudo e não sentir nada ao mesmo tempo?

Tenho tido muitos, muitos sonhos. Essa noite mesmo lembro de pelo menos dois. Noite passada também sonhei. Sonhos ok, sem perturbadores nem bons, apenas sonhos. Nada revelador, nada instigador. Mas em quantidade suficiente pra me confundir da realidade. Será que sonhei ou será que eu vivi isso? Tem horas que eu não sei, ou levo alguns segundos pra descobrir. Tô melhor mas tô ficando maluca. 

Eu quero melhorar, quero ficar bêbada de alegria, idiota, rir sem motivo, fazer piadas ruins e falar bobagens. Cadê essa Georgia? Cadê a Georgia lutadora, idiota, feliz, colorida, sonhadora? Será que ela sempre foi miragem? Quem sou eu de verdade? São pessoas tão diferentes que é difícil conceber que ambas são partes da mesma pessoa. Maluca, é isso. 

Alguém me encontre e me devolva pra mim, porque eu quero muito voltar pra casa. 

Me deseje sorte, 

Até amanhã, até parece. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Só pra dizer que tô aqui

 Certo, escrever é importante. Então vamos escrever. 

Eu acabei abandonando tudo, para surpresa de zero eus. A leitura não, espertinhos. A leitura continua sendo meu refúgio secreto e maravilhoso. Agora quanto ao resto... já era. Estou tentando reanimar as áreas que caíram no limbo, que são todas, mas também não tô lá me esforçando muito. Semana passada fui ao psiquiatra, comecei meu tratamento ontem. Fui também a uma ginecologista natural, para tentar cercar de todo lado aquilo que influencia meu humor. Tô fazendo tudo direitinho. Tô melhor, tô, mas não tô bem. 

Já consegui limpar a casa, isso é um avanço tremendo. Ontem tive ajuda da minha mãe com o gatil que tava em triste estado. Mas por uma obra divina, fizemos e terminamos. Hoje peguei minha casa sozinha e não ficou ótimo, mas o básico bem feito tá aí. Pequenos enormes avanços comparado as últimas semanas. 

O estudo do curso ficou abandonado, mas eu vou retomar. Vou pular umas partes que eu já sei e dar foco pras coisas mais complexas e se sobrar tempo eu volto nessas partes aí. Não dá pra ficar me enchendo o saco com isso, tá super claro que eu preciso urgentemente é de sossego. 

No momento tô tomando ansiolítico, vitamina, suplemento, cogumelo, chá e tintura. Alguma coisa há de funcionar. Eu sempre fui contra tomar remédio tarja tensa. Sou contra pra mim, porque tive experiências horríveis com adaptação e efeitos colaterais, com direito a pensamentos suicidas e tudo. Mas dessa vez eu caí tão baixo que já tava tendo pensamento suicida sem nada, então de certo pior não fica. E quem sabe tava faltando me olhar com um pouco mais de acolhimento e reconhecer que o que eu tenho é uma doença e sendo assim, precisa ser tratada. E talvez eu precise dessa medicação por um tempo mais longo. Tomara que não. Mas decididamente eu não quero mais viver nessa montanha russa emocional que eu tenho vivido nos últimos dois anos. Esse limbo eterno alternado com poucos momentos de leveza. Não dá, de verdade não dá e não é assim que eu quero viver. Então se o preço disso é dar o braço a torcer e tomar o comprimidinho sinistro, bora lá. 

E de novo estou aqui tentando achar um jeito de viver bem comigo, de sobreviver meus dias, de tentar mas sem tentar muito, de me preservar e achar um meio termo pras coisas. Mas tá foda, tô cansada, tô desanimada. 

Vamos ver o que me aguarda. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe. 

domingo, 29 de janeiro de 2023

Um sopro na correnteza

 Foram dias estranhos. Talvez ainda sejam e seja eu quem não está acordada o suficiente ainda para perceber. 

Eu não tinha nenhuma palavra em mim, fosse pra escrever ou falar. Passei dias falando apenas o necessário. É um bom exercício, eu acho. 

No entanto a mente...ah, a mente. Essa não para nunca. Imagens, sensações e palavras. Enxurradas delas, nenhuma que prestasse. 

Ainda sinto o peso da mente sobre meu peito, mas com uma intensidade menor o suficiente pra me trazer de novo aqui. Pra arriscar um passo pequeno que seja, a mais. 

Estamos no dia 29 e eu acabei de terminar meu vigésimo livro. A maioria deles com 600 páginas, o maior dele com mais de 800. Dizer que eu me isolei é eufemismo. Dizer que eu fugi desesperadamente da minha própria cabeça é nada mais do que a verdade. 

Não tenho certeza se quero voltar pra realidade. Ela não tem me feito sentido nenhum, assim como falar com qualquer pessoa que seja. Sou eu que tenho que resolver, que encontrar a saída. Eu que tenho que abrir o caminho até encontrar a luz no final desse túnel interminável. 

Ando me arrastando pela vida, com o corpo fraco e a mente em frangalhos. Uma carcaça ambulante. Sorte a minha ser uma carcaça bem teimosa. A única e talvez a mais preciosa sorte. Pelas numerosas vezes em que quis enfiar a cara no travesseiro até não conseguir mais respirar, estar aqui é um ato de resistência onde eu sou meu próprio herói e feitor. Eu sou tudo isso, apesar de não ser nada mais que um sopro nesses últimos meses. 

Vamos ver o que o dia de hoje me reserva. 

Me deseje sorte. 

Até qualquer dia. 

sábado, 21 de janeiro de 2023

Bueiro

 Saúde mental é um tesouro. 

Que eu não tenho.

Tô aqui na tentativa desesperada de me autoterapeutizar, ver se escrevendo eu acabo largando alguma ideia que faça algum sentido pra eu seguir mais pra frente. 

Minha cabeça tá confusa, meu corpo dói. Meu peito tá apertado, tô amarga, mau humorada, sem vontade. Só de pensar em ver gente já me sinto cansada. 

Ontem pedi pra irmos almoçar fora e ficar dando voltas sem ter que resolver nada. Obviamente que isso não funcionou, acabou que passamos em vários lugares pra comprar coisinhas que estavam faltando, uma pequena romaria. Meu plano depois de ir almoçar era passar um pouco na praia, sentar ali por alguns minutos e simplesmente contemplar. Não consegui nem atravessar a rua. A praia tava cheia de gente, som alto, carros passando. Dei meia volta ali mesmo, não consegui lidar com aquela coisa toda. 
Também tinha me proposto a finalmente comprar uma peça de roupa que seja, e também não rolou. No horário que eu fui, já estava fechado, e quando eu estava voltando, a br tava tão parada que não compensava fazer outro caminho a não ser o de casa. Então o passeio resolveu pra exatamente nada. Voltei pra casa, pro meu quarto e pro livro, não estudei e não fiz nada pra me divertir além de ler. 

É um saco porque tudo virou cobrança. Até o fato de ler de mais ou o que eu tô lendo. Me deixa, caralho. O que eu faço pra me divertir, quando eu faço e porque não estou fazendo. Parece que tem uma enorme lupa em cima da minha cabeça me analisando pra mim mesma o tempo todo. Minha vontade de pedir ajuda é exatamente tão intensa quanto a vontade de continuar em silêncio. Minha vontade é ir passar algum tempo em algum lugar totalmente isolada, sem me preocupar com absolutamente nada, se eu vou arrumar a cama, se eu vou estudar, se eu vou tomar banho e lavar o cabelo, se eu tenho faxina pra fazer ou o quando eu pretendo comer de novo. 

É um luxo que não tem como. O tempo tá passando e quanto mais eu penso, mais eu vejo que mesmo nesse emaranhado de pensamentos e sentimentos, tá tudo no lugar. Se eu tivesse com uma agenda incrivelmente cheia de afazeres, eu provavelmente estaria procrastinando todas e surtando. Eu preciso melhorar primeiro, de novo. Preciso estabilizar minimamente pra ser capaz de executar algum plano. Eu estou completamente sem saída. Não sei pra que lado atirar, não sei o que tentar, não sei com quem falar. 

Eu tô me sentindo avulsa. Existem pouquissimas pessoas em quem eu confio. Menor ainda é o número de quem eu confio e me sinto a vontade pra falar. E mesmo assim, não tem um lugar onde eu me sinta em casa, pertencente. Sempre parece que estou por um fio. Sempre cuidando, sempre esperando algo dar errado. Sempre cuidando pra não incomodar. Em casa muito menos. Ouvi minha irmã me chamando de "aquele ser dos infernos" de alto e bom som pelo telefone aqui na minha janela, a menos de dois metros de mim, sem nenhum constrangimento. Com minha mãe eu não posso contar muito, primeiro porque ela é a primeira a botar um balde de água fria em qualquer conceito novo, se agarrando a isso como se disso dependesse a dignidade dela. Outro dia ela me falou que me amava e eu chorei, porque não tenho nenhuma lembrança dela falando isso pra mim sem que fosse respondendo depois de eu ter falado. As únicas pessoas que expressam algum orgulho por mim são tão próximas, que parece que a opinião delas é parcial e tendenciosa. Como se não fosse possível acreditar, e aí eu não acredito. 

Eu enxergo a burrice em deixar que pessoas que não me conhecem tecer opiniões sobre mim para daí eu acreditar. Essas pessoas teriam tão pouco pra avaliar, e tão bem poderiam pegar qualquer segmento da minha vida, bom ou ruim, e não necessariamente o resultado disso seria bom. 

As pessoas que realmente conhecem minha caminhada, minhas dores, meus desafios e vitórias são justamente aquelas que eu não acredito, porque nem tão no fundo, eu acho que elas falam isso só pra me ajudar a levantar a bola. 

Não dou lá muita importância para as críticas também, a não ser que elas ressoem com as minhas próprias, o que não é lá muito difícil já que eu sou campeã invicta em me massacrar diariamente. Não ligar para críticas ou elogios, e sim na própria avaliação, isso é um objetivo. Talvez eu já faça isso, mas como eu disse, minha autoavaliação é péssima em todas as áreas. 

O que eu faço direito, de verdade? O que é constante, consistente na minha rotina? Me autocriticar e ter crises, isso com certeza. Todo o resto é maleável. Não é todo dia que eu como, não é toda noite que eu durmo, e se eu peco nas necessidades básicas, você pode bem fácil seguir o raciocínio e ver em que buraco eu me encontro. 

Tô escrevendo aqui até meio surpresa, porque hoje eu tentei rezar e não saiu uma palavra. A cabeça tão confusa, nublada, o corpo estrebuchando, não consegui formar nem uma frase. Pelo menos aqui eu consigo me concentrar e aliviar a corrente de pensamentos. 

O que tava ajudando não tá mais. Talvez eu tenha me perdido em alguma prática que eu não fazia ideia do quanto tava ajudando, ou talvez fosse o período do mês, a lua, a minha vibe. Mas tá tudo muito intenso, muito pesado. Como se a sensibilidade estivesse maior e eu sentisse tudo. Pela primeira vez em sete anos, eu não tô minimamente animada para começar as atividades do terreiro. Essas férias sempre eram longas e eu ficava ansiando pelo retorno e hoje se eu pudesse escolher, nem ia. Eu posso sim escolher ficar em casa, mas eu sou mais disciplinada que isso. Eu sei que lá eu posso ter alguma ajuda, ainda que de novo, eu não me sinta pertencente ali, não tenha alguém que eu confie o suficiente para me sentir a vontade de me abrir. Já fiz isso várias vezes e várias vezes o sentimento foi, não me entenderam. 

Acho que é por isso, olhando meu mundo em volta, que eu me sinto tão sozinha. Não é por ânsia de contato físico ou nada do tipo, é por contato mental. Acolhimento emocional. Me sentir pertencendo a um lugar onde eu posso ser natural. Eu falo cochichando dentro da minha própria casa. Eu faço minhas coisas escondidas atrás da cortina fechada. Eu só canto quando não tem ninguém em casa. As vezes eu me sinto mais livre, mas num geral não. 

Eu realmente não sei o que fazer, não sei por onde começar. Sei que ficar quieta não vai fazer nada de bom por mim, mas tem horas que isso é tudo o que eu consigo. Tá na hora de eu me salvar de novo e eu não tenho nada das mãos a não ser um palito de picolé, não premiado. 

Talvez eu devesse quebrar a ponta, afiar e enfiar no olho pra acabar logo com essa história. 

Me deseje sorte. 


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Shh...

É, faz um tempo que não venho aqui. Não tenho tido vontade de falar com ninguém, nem com você. E apesar da minha cabeça estar vazando com conversas internas e reflexões inúteis, eu só quero ficar preenchendo minha mente com histórias. Então tô lendo loucamente. Por sorte ou não, tenho acertado uma fila de livros bons, inlargáveis, que ajudam nesse objetivo. Também são ótimos pra me ajudar a passar noites em claro, nem sono eu tenho sentido. Dormir tem sido um esforço consciente.

Ficar acordada também tem sido um esforço consciente. Eu sinto meus lábios enrugando pra dentro, do sabor amargo que tenho sentido. O coração pesado, a falta de vontade, pensamentos que me perseguem. 

E no cansaço dos dias e noites sem dormir, perdi totalmente meu ritmo. Parei de escrever aqui, tô estudando igual meu nariz, faz quatro dias que estou tentando terminar uma única aula. A porta que comecei a pintar tá do mesmo jeito há duas semanas. Nem preciso começar a contar sobre minha casa. 

Tomar o cogumelo me ajuda, mas ele me deixa ligada, então pra ver se durmo, tenho pulado as doses. Sigo tomando as tinturas, a do dia e a da noite, mas nem isso tem segurado minha onda. Ou talvez essa seja eu com a onda segurada. Todo esse caos por causa dos hormônios, e eu que lide com o rebote. Até eu pegar o ritmo de novo, já vai estar naquela fase de novo. E assim a gente vive, meu Brasil. 

As vezes é um saco ser eu. Inferno, na maioria das vezes é. Talvez eu devesse seriamente parar de contar tudo o que tenho feito pra melhorar, porque isso só faz parecer o quanto tô ótima, tentando, sobrevivendo. Tem sido daqueles dias que nem o básico bem feito tá saindo bem feito. Tá sendo feito, fim. E o que eu posso deixar pra depois nem entra na agenda. 

E não tem ninguém me cobrando, o que é ótimo, mas o que também me deixa definhar a perder de vista. Mas eu mesma fico me cobrando, preciso trabalhar, preciso ganhar dinheiro, não quero viver assim, não dá mais pra viver assim, quando que eu vou me levantar pra vida, quando que eu vou botar em prática as coisas que planejei, será que eu deveria ver um psiquiatra, será que eu deveria mudar de terapeuta, mas caralho, não tenho dinheiro pra escolher essas coisas, então eu deveria me esforçar pra trabalhar, procurar clientes, divulgar e parecer muito feliz porque eu tô fazendo o que sempre sonhei. 

Sem saída. Sem esperança. 

Mesmo nos dias melhores, eu não fiz lá grande coisa pra avançar na direção que eu supostamente quero. Então o problema realmente é depressão e ansiedade ou simplesmente porque sou muito cagada, desmotivada e preguiçosa? Será que eu quero as coisas do jeito fácil, enquanto tá todo mundo se lascando mas fazendo de um jeito que eu olho e acho que essas pessoas é que são sortudas, porque tá tudo fácil pra elas. 

O labirinto da mente fede. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã ou qualquer dia. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Tudo

 Eu tenho dentro de mimos mais terríveis tesouros e as mais belas maldições. 

Carrego dentro de mim o caminho, o retorno, o tempo e o destino. O ponto final e a vírgula. 

Alguns dias são interrogação, em outros eu mergulho profundamente em um mar de exclamações. 

As vezes vôo alto pelos abismos, descanso minha cabeça entre as nuvens e perco o ar enquanto eu respiro. 

Já fui semente quebrando a casca e a terra desesperada pra nascer. Já destruí cidades inteiras enquanto caminhava pelas ruas, encharcada de vento. 

Já fui folha que caiu da mais altas das árvores, pra me estatelar no chão tão suavemente quanto um bebê colocado no berço pelos braços de sua mãe.

Alguns dias sou o Sol que congela os ossos e em outros vejo queimar os lábios dentro da minha geleira. 

Eu sou tudo ao mesmo tempo e ao mesmo tempo eu não sou nada disso. 

Eu sou a doença e a cura, a dor, o rastejo, a dança e a remissão. 

Sou a vitória e o choro de quem ficou em casa durante a guerra esperando notícias que não chegaram nunca. Sou também a letra e a língua cortada daqueles que ousaram falar demais. Sou algo estranho, algo de novo e um sentimento tão velho quanto o tempo.

Um emaranhado de pensamentos e a cacofonia do mundo cegando todos os meus sentidos.

Eu não sinto nada e sinto tudo ao mesmo tempo. 

QI´s altíssimos e emoções abissais

 Eu tenho terapia daqui a pouco e tô pensando no que eu vou falar. Eu ando meio perdida, essa é a verdade. Mas o fato de eu estar sempre caminhando, sempre tentando alguma coisa, de alguma forma faz com que minha terapeuta ache tudo ótimo, o aprendizado que eu tenho com a minha visão das coisas, a forma como eu lido com as coisas, o fato de eu estar me movimentando - mesmo que as vezes minimamente - o que rapidamente faz ela concluir que não, eu não tô perdida de maneira alguma. Então muitas vezes eu deixo muito tempo passar entre uma sessão e outra, porque eu acabo não vendo sentido em conversar. Eu tô sempre buscando uma resposta, e eu vejo a armadilha disso. A resposta sempre está e sempre esteve dentro de cada um. Mas eu acho reconfortante ver gente falando sobre coisas que me são naturais, gente dando nome pros meus bois. Na esperança que essas reflexões me façam encontrar uma resposta, um caminho, uma luz que me mostre o passo adiante. 

O passo adiante no entanto, é continuar caminhando. Continuar observando, continuar buscando a lição. Fazer o que dá, não o melhor que dá. Não dar tudo de si porque nada compensa esse gasto. O melhor de mim tem que vir pra mim, pra minha saúde e pra viver emocionalmente bem. 

Eu sei que a resposta não tá no outro e que ninguém vai me dar de bandeja aquilo que eu preciso. Se me dessem talvez eu nem enxergasse, até. É por isso que as vezes a conexão perde o sentido de ser e nessa brincadeira, eu também perco a conexão comigo. Com a minha centelha, com aquilo que faz a minha alma vibrar. Quando eu me conecto com a minha parte bonita, eu me conecto com todo o resto. Quando eu encaro meus escuros, eu não vejo mais nada. 

Quanto mais luz, mais sombra. Ontem eu tava lendo um livro de um grupo de estudos que estou participando e o livro dizia um pouco sobre karma, e que algumas pessoas acabam tendo problemas recorrentes mais graves para liberar esses karmas de um jeito mais rápido. Forjada a ferro e fogo, me disseram uma vez. Parece chique, parece exclusivo, talvez fosse pra eu me sentir especial de alguma forma, mais forte. Eu sei que sou forte pra caramba, mas a carcaça também cansa. A força esmorece, mesmo que ela nunca saia realmente de dentro de mim. Eu tô sempre lendo alguma coisa, procurando uma direção, sempre buscando uma atividade que me coloque em movimento, alguma coisa em movimento. Mas é um esforço imenso pra chegar apenas no ponto de partida onde aparentemente a grande maioria está. Então que chances eu tenho de fazer algo a mais, sair do raso?

Tem um cara falando sobre superdotação na internet. Que não tem a ver com QI´s altissimos, aparentemente, apenas uma intensa curiosidade sobre tudo. Capacidade de pensamento abstrato e a falta de conexão que isso traz, por não poder ter uma conversa dessas com qualquer pessoa. O quanto isso tá relacionado com tdah e outras patologias emocionais e mentais. Eu me identifiquei quando ele falou que dificilmente uma pessoa superdotada vai achar que é superdotada simplesmente pelo fato de se achar tão estranha, ter uma autoestima tão minada pelos anos de estranhismo pela vida afora, que o simples termo super-dotado parece uma piada. Parece mesmo, mas o discurso me pegou. Sempre tive facilidade pras coisas que me interessam, enquanto os estudos formais sempre me soaram inúteis e simplesmente eu não gravava. Hoje em dia, não sei se por estresse, pelo uso de remédios, meu cérebro fritou. Tenho dificuldade de entender alguns pensamentos, dificuldade de ler algumas coisas, mas ao mesmo tempo consegui ler vários livros em uma lingua que eu ainda tô tentando dominar. 

Pode ser uma resposta, pode não ser. Pode ser só mais um fato que vou juntar naquela pilha e não fazer nada com ele. 

Pode ser só meus hormônios que deram uma surtada e eu fui pega desprevenida. Pode ser um monte de coisas. Pode ser também só mais uma confirmação do quanto eu tô cansada dessa vida e do quanto eu não tenho nenhuma solução em vista ainda. 

Me deseje sorte, 

Até amanhã quem sabe. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A ladeira tá logo ali

 Eu tô meio estranha de novo. Desde que o ano começou, tenho dormido mal, demoro pra dormir mesmo morrendo de sono, tenho sono cortado e tenho acordado com dor no pescoço. Aí claro, não tô prestando. Deixei de escrever, deixei de estudar, deixei de lado meus projetos e tava fazendo só o mínimo pra manter a missa acontecendo. Pode ser tpm, pode. Deus sabe que sou refém dos meus hormônios da felicidade, mas com certeza a falta de sono não tá ajudando. Ou minha cabeça. 
Porque claro, já fiquei contabilizando quantos dias eu tenho para terminar o curso, e que eu não tenho exatamente dois dias para terminar cada aula do jeito que eu quero. Fico vendo cada coisa na minha casa piscando em neon me lembrando que eu não fiz, a lista de tarefas se repassando aqui na tela mental só pra dizer que eu tô atrasada no rolê. 

Eu sou a pior coisa que pode acontecer comigo, e se eu deixar, também a melhor. 

Não tá um caos, ainda. Mas eu conheço os sinais e sei que eu tenho que reforçar minha vigilância pra não sair rolando ladeira abaixo nos próximos dias. É incrível como as coisas se amarram e se justificam umas as outras. Não faço as coisas porque tô extremamente cansada, mas as coisas ficam aí me lembrando que querem ser feitas e o tempo continua passando.

Dai me sinto uma fraude, derrotada. 

Aproveitando esse lampejo de consciência, vou tentar fazer diferente hoje. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

E agora?

Eu tenho noção de que sou velha há muito tempo. Não de idade, não de aparência, mas de costumes, vontades, hábitos e forma de pensar. Mas volta e meia acontece alguma coisa que me faz me sentir como uma criança, seja pela ingenuidade, fragilidade ou simplesmente pela falta de habilidade em lidar com alguma situação ou emoção. 

Eu tenho sido firme em respeitar minha vontade e especialmente, em não deixar ninguém abusar da minha boa vontade e disposição. Claro que a pessoa número um, campeã invicta nesse aspecto é minha irmã. Ela não é conhecida pela organização que ela mantém, nem sequer limpeza. Ela deixa muito claro que ela não se importa com isso, é claro, ela quer as coisas limpas, desde que não seja ela segurando a vassoura. Já larguei mão de tentar manter a parte comum limpa porque ninguém parece ter o mínimo apreço em desviar das suas preguiças pra manter o lugar organizado, mesmo que a pessoa tenha passado dias organizando aquilo. Águas passadas. 

Bom, ela me pediu pra ajudar a organizar a casa dela porque ela vai receber um amigo. A casa dela tá apocalíptica há vários meses, com a desculpa de que ou ela está muito mal para conseguir limpar (o que eu entendo) ou que está muito ocupada produzindo para usar o tempo pra isso, o que eu também entendo. Acontece que eu já ajudei ela outras vezes e o desfecho é sempre o mesmo, eu acabo fazendo tudo ou a maior parte, porque ela trabalha por cinco minutos e vai ver o celular, "precisa sentar um pouco" e empilhando desculpas até que eu tenha terminado tudo sozinha. E não dura nada, a visita vira as costas e ela continua a zona de onde parou. Então só isso já não é grande motivador. 

Também tem o fato de que no geral, ela me trata mal. No geral, ela me trata bem quando ela tá bem com a vida dela, o que não é comum, ou quando ela quer alguma coisa. Tivemos dias legais ultimamente, e me deixa triste o fato de acabar nisso, ela pedindo alguma coisa porque estamos bem. 

Hoje e amanhã eu tenho que atender, com horário fixo, e também tenho que dar conta das minhas coisas que acumularam por aqui. Tive cachorro hospedado até ontem, que mijaram por tudo e por consequencia, os gatos também, porque afinal, eram intrusos na casa deles. Então meu plano de hoje era começar a limpar essa bagunça, atender, voltar pra casa e continuar, depois atender de novo e no intervalo estudar e fazer minhas coisas. 

Eu finalmente comecei a fazer umas pinturas no gatil que eu queria há muito tempo. E no meu tempo livre, eu quero fazer isso. 

Aí a parte onde me sinto infantil é justamente essa. Me custa ajudar? Não. Só me custa o fato de eu me botar em segundo/terceiro lugar pra ajudar alguém que eu não quero e que muitas vezes nem merece. Isso me parece um preço bem alto. Eu expliquei que eu tenho essas coisas pra fazer e a resposta foi a de sempre, aquela revirada de olhos, deixando bem claro que ela tá pouco se fodendo pro que eu tenho que fazer, que a minha prioridade deveria ser ela. 

Só que eu peço ajuda da minha mãe quando eu preciso, quando eu não consigo. Mas nunca pedi ajuda porque fiquei meses bagunçando e sem mexer um dedo pra mudar isso. Eu sempre tõ tentando manter a ordem, afinal eu me sinto e sou responsável por várias vidas aqui, que não tem nada a ver com os meus desarranjos emocionais. E é sempre uma ajuda, nunca ninguém teve que fazer tudo por mim enquanto eu estava lá, me fazendo de sonsa enquanto alguém arrumava minhas merdas. 

Então isso me pega de um jeito estranho, me irrita, me faz me sentir usada e puta da cara. Ofendida. Ao mesmo tempo que eu não quero discussão, porque qualquer argumento com ela sempre, invariavelmente acaba em discussão, eu também quero falar tudo isso pra ela. Mas não sei exatamente com quem estou sendo injusta. Eu tenho argumentos pra todos os lados, o meu e o dela. 

De qualquer forma, mesmo que eu ajude, eu vou me certificar de que seja uma ajuda e não um abuso. Mas eu vou tentar me esquivar do jeito que eu puder. 

Me deseje sorte,

Até amanhã, quem sabe.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Feliz Ano Novo e tal

 Não sei direito como me sentir nessa data, sempre foi a festa que eu menos gostei. Num geral, odeio ficar acordada até muito tarde, especialmente se o apelo é apenas esperar o reloginho virar pra meia noite, comer uns bagulhinhos em volta de um monte de gente que também tá querendo dormir. Ou que já tá rolando de bêbado.

Antigamente eu tinha que ficar acordada, mesmo que a comemoração fosse mínima, dentro da minha casa, porque eu tinha que ficar cuidando dos animais que morrem de medo de fogos. Tinha toda uma preparação e a gente ficava acordada até mais de 1h, porque sempre tem os retardatários que soltam fogos uma hora depois. Aqui no interior tem muito menos barulho, e na teoria a barulheira dos infernos foi proibida. Na teoria, infelizmente.

Também tem o lado que, mesmo sabendo que é tudo um contínuo, que a gente só vai seguindo, e que essa marcação é só mais uma – tem uns três tipos de ano novo pelo ano só pelo que me lembro agora, eu não deixo de ter uma sensação de angústia.

Me sinto como se estivessem me entregando um pacote, um cheque aparentemente em branco, mas que se você olhar bem, tá escrito em letras incrivelmente miúdas. Me traz ansiedade pensar o que aquele próximo bloco de tempo reserva, até porque eu sou gata escaldada. Sempre penso se vou perder alguém, humano ou peludo, e se eu devia estar aproveitando melhor a companhia de alguém que nem sei que vou perder. Já me sinto de antemão ingênua e impotente de ficar acordada até mais tarde, comemorar, fazer planos, para no fim aquele ano vir com uma voadeira e me destroçar.

Então eu prefiro ignorar. Só seguir o baile e não pensar em blocos de tempo e o que eles podem trazer pra minha vida.

Ah, eu sei, não são só de mudanças ruins que a vida vive. Mas gata escaldada tem medo de água fria também. Numa vida onde as tragédias parecem ser tão mais potentes que as vitórias, talvez esteja certo. Talvez porque as vitórias sejam mais silenciosas que as derrotas. E de novo, numa vida onde a média tá sempre baixa, qualquer perda faz um rombo no placar. Provavelmente é ignorância minha.

Vamos caminhando pra ver o que vai dar.

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Festividades ligeiramente apocalípticas

 Realmente, ontem fiz muito mais do que achei que daria conta. Tive que dormir no meio do caminho, mas depois foi que foi. Hoje eu só quero ficar paradinha e assim permanecer. 

Um pouco porque tive um sonoro despertar com Quito e Severino se embrenhando nas cortinas, rosnando e se unhando, 5:45. Levantei e coloquei o Quito pra fora. Separei a Bigi pra dar a comida dela que é diferente dos outros gatos, coloquei o Severino no gatil. A Pérola fugiu duas vezes do quarto porque queria a comida da Bigi, que por sua vez não queria a própria comida e quando voltei do gatil, ela já tava acabando com a comida da amiguinha. Ela come porção controlada porque está com cistite e eternamente de dieta. Coloquei água para esquentar e fui abrir um café cremoso que eu ganhei, que imediatamente explodiu na minha blusa, mãos e pia. Aí fui provar o café e provavelmente o ranço entrou em ação nesse momento, porque achei bem ok. Liguei o computador enquanto novamente a Bigi tentava comer a comida que não era dela, ao mesmo tempo que eu tentava convencer a Muga de parar de comer sacola e vir comer o caralho da comida que eu coloquei pra ela. O dia começou festivo. 

Mas já passa. Já vai passar e logo desce a disposição pra eu continuar o que comecei ontem. Tenho fé. Se nada der certo, vou ler meu livro. Quero encerrar o ano com 130 livros e ainda tô no 128. Não quero terminar o ano num número feio, até porque provavelmente não vou ler tanto assim nunca mais na vida. Acho que não mesmo, aliás, eu espero que não, considerando que eu só li esse tanto porque passei muito, mas muito tempo deitada na cama ignorando a vida. Então eu espero humildemente que não. 

Hoje já não acordei tão corajosa quanto ao meu trabalho. Enquanto estava na cama tomando coragem pra levantar, achei um perfil que fala de gatos com uma proposta massa, mas vendo os comentários já me bateu aquele ranço. O perfil tem menos de um mês e muitos seguidores mesmo. Mas é aquela coisa, vídeo informativo, cheio de edições e coisa assim. Eu gosto de me expressar por foto, por texto. Mas nem vou me alongar muito aqui pra não dar trela pras minhas amebas. O foco no momento é o pet sitter e é isso, até que eu trabalhe isso melhor em mim pelo menos. 

Preciso melhorar a vibe desse dia. Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Feito foguete

Hoje acordei me sentindo como se eu pudesse dar um jeito na minha vida, mesmo sabendo que não é assim que as coisas funcionam. A vida não é uma coisa que você vai lá e resolve, eu sei.

Mas acordei com aquela disposição de mudar alguma coisa e provavelmente vai ser algo bem besta como faxinar e mudar alguma coisa de lugar. Nada melhor para clarear a mente como deixar as coisas organizadas, eu preciso começar por algum lugar, afinal. 

Eu vou fazer isso, organizar aqui me dá uma mínima sensação de controle sobre minha vida, mesmo sabendo que tem 29 gatos que pensam que organização é algo a se subestimar. Vou começar por aí e ir desenrolando. 

É isso, me deseje sorte

Até amanhã, quem sabe.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Querência das braba

 Meu Deus que parece que quanto mais eu durmo, mais cansada eu fico. 

Acordei super disposta hoje a voltar a dormir. Se eu conseguisse, até tentaria. Mas tõ aqui bravamente tentando um ritual de invocação de disposição, porque senhor amado, dói tudo e a fadiga tá de matar. Hoje três dos quatro grupos de hóspedes vão embora e tem o último pet sitter, então basicamente já posso me considerar de férias. Férias, haha. Como se eu trabalhasse tanto assim e como se mesmo sem um trabalho que me pague, eu não trabalhasse tanto todos os dias. Mas vocês entenderam. 

Para o Ano Novo tenho exatamente nada de clientes, o que por um lado é bom, porque eu nunca curti ficar esperando o reloginho virar, me massacrando para ficar acordada até a noite. E também é bom porque a grande esmagadora maioria dos hóspedes tem medo de fogos, e aí eu TENHO que ficar acordada até bem mais que meia noite pra ficar vendo como eles estão e acudindo os desesperados. Aqui no interior não tem muito, mas tem... poucos dos meus filhos aqui tem medo, então é bem mais tranquilo e dá pra ficar de boa. Eu lembro que teve um ano que a gente tava tão cheio de hóspede, que nós três ficávamos fazendo ronda a toda hora, com os vidros fechados, ventiladores no talo pra abafar o barulho e também pelo calor, musiquinha relax, algodões no ouvido e foi um caos. Era sempre um dia muito longo, porque a gente já tava na lida desde muito cedo e não tinha hora pra dormir. Dessa parte eu não tenho saudades. 

Mas né, sabendo que o povo gosta de festar no Ano Novo, é meio triste saber que ninguém dessas pessoas lembrou da gente. Mas tudo bem, me aguarde. Eu vou levantar essa baiuca de novo e se Deus quiser daqui um ano vou ter que chamar até gente pra ajudar. Ou quem sabe aconteça algo completamente diferente e eu esteja feliz da vida vendendo limonada. A vida tem dessas surpresas. 

Vamos ver se hoje eu volto a estudar minhas coisas, transcrever meu curso e ver mais um pouco daquele do Neilzin. Eu tomo cuidado com esse porque é eu ver aquele bagulho, me dá uma vontade louca de escrever - ou seje, não posso assistir aquilo em qualquer horário remotamente perto da hora que eu pretendo dormir ou é insônia na certa. E tem duas noites só que eu tenho dormido direito, não quero abusar da sorte. 

Eu me acho meio retardada porque quando eu começo a ficar bem, eu quero fazer tudo e quero fazer tudo ótimo. Isso é um perigo, porque querendo fazer tudo ótimo, eu provavelmente vou começar a procrastinar e ficar frustrada e acabar não fazendo nada porque me cobrei muito. Então o foco ainda está sendo transcrever meu curso, erguer meu negócio - ainda que tenha um monte de ações pra isso que eu nem parei pra pensar direito. Mas tudo isso enquanto mantenho os pratinhos girando por aqui. Então não quero inventar muita moda, tenho que dar uma segurada, porque quando eu tô assim eu acho tudo interessante. Quero aprender a tocar meu ukulele, quero melhorar meu canto, quero voltar a escrever meus contos, quero deixar a casa em ordem, quero tomar minha tintura direitinho, quero dar as tinturas específicas pros gatos que precisam (e aqui entenda que pra isso eu preciso isolar esses gatos em cada tomada), quero terminar minha cortina, quero fazer a fonte verde, quero fazer o curso que eu achei do Neil, quero ler mais sobre ocultismo, quero ter clientes a ponto de ter uma segurança financeira e quero ter tempo pra ler meus livros. Várias coisas dessas são pontuais e poucas são obrigações, e nem quero que seja. Quero respeitar meu tempo, meu processo, meus dias ruins e tudo isso. Um dia eu consigo, no outro não e tá tudo bem, tem que estar tudo bem. É uma cobrança ridícula que já deu mais do que hora de eu me livrar. 

Mas é isso aí, me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Cura milagrosa de 200 fios 100% algodão

 Se existe milagre neste mundo, é o milagre de uma boa noite de sono. 

Os passarinhos cantam, o sol brilha, as folhas estão verdes lá fora e até meus gatos estão sossegados. Aleluia meu pai. Ontem foi o última dia dos dias mais corridos e hoje a correria é pra desfazer os arranjos. Tutores vindo buscar seus pimpolhos, eu e Possante se embrenhando nas quebradas pra levar os outros pimpolhos pra casa. Tô visivelmente menos agitada. 

Ontem comecei a ler um livro novo, depois de finalmente ter terminado aquele que fiquei lendo a semana toda. Eu já tava de saco cheio, parecia que a história estava se enrolando, mas não sei se é porque estava mesmo, ou porque eu só tava conseguindo ler pouca coisa por dia. Além do pouco tempo, eu estava muito cansada a noite e quando ia ler, já estava caindo de sono e não conseguia prestar atenção e tinha que ler duas vezes cada coisa pra conseguir captar a informação. Com a cabeça agitada eu não conseguia parar pra ler de verdade aquilo e ficava me interrompendo pra levantar fazer sei lá o que. 

Eu não sei se hoje vou conseguir voltar a estudar, talvez hoje ainda seja corridinho. Esses dias eu não estudei porque apesar do tempinho que fiquei em casa, não queria me cansar além do que precisava, mas não quero perder o pique da minha tarefa. Eu tô animada pra voltar e também começar as outras tarefas que me propus. Quero mesmo, de verdade, tentar levantar meu negócio de novo e fazer movimentar. 

Também decidi que vou tirar uma parte do meu ganho desse final de ano pra fazer umas prateleiras pros gatos. Das coisas que listei pra eles pra um futuro tão próximo quanto possível, essa com certeza é a mais importante, ainda mais com todos os quartinhos/isolamentos fechados com hóspedes. Eles ficaram sem lugar algum pra se esconder e alguns são muito medrosos. 

Ontem falando isso pra minha mãe, obviamente ela começou a questionar dizendo "mas você tem tantos nichos" e eu achei isso incrível, porque... a leitura dela é igual a de muitas pessoas que me ouvem reclamar do meu gatil. Eu tenho exatos 4 nichos e dois deles estão na parte onde tem os hóspedes. Ou seja, o "tanto" de nicho é apenas dois. E nem todos os gatos gostam, porque não tem rota de fuga fácil. Então minha idéia é fazer um circuito tão grande quanto eu puder pagar, pra além de aumentar o espaço vertical deles, dar rota de fuga (de mim, inclusive) e esconderijo pra esses belezinha. 

Queria muito ser muito cheia da grana, comprar um terreno do tamanho de um estádio de futebol e telar tudo. Plantar um monte de árvores de verdade pra eles subirem, fazer casinhas pelo terreno, plantar um monte de coisas legais pra eles comerem, cheirarem e se esfregarem... fazer um laguinho com aquelas carpas sem vergonhas, com uma cachoeirinha pra ver a gataiada fazendo zona. Grama... gente, como eles amam grama. Essa casa que eu moro me mostrou que eu mesma não preciso de muito mais do que isso aqui, pra mim. Se eu fosse adicionar alguma coisa aqui em casa, provavelmente faria um quarto ligeiramente maior e melhor disposto, mas de resto tá perfeito. Mas eles sim, eles precisam de mais espaço pra se esconder e ficar de boas curtindo um sossego enquanto os outros ficam chacoalhando seus coqueirinhos correndo e metendo o louco pela casa. 

Eu sei que eu vou morar aqui por um tempo, mas sei também que eu vou sair quando eu puder. Dai eu fico de novo naquela coisa de "será que eu invisto aqui", mas como no momento não tenho perspectiva alguma de sair, vou sim investir aqui, porque também tem o fato de quanto mais tempo eu ficar, menos provável vai ser minha saída. Não por apego, mas por causa da minha mãe. Cada vez ela tem mais dificuldade, tem essa depressão que ela se recusa a ver e por consequência fazer algo por isso, tem a relação péssima dela com a minha irmã. Nada disso é minha responsabilidade, mas eu não conseguiria sair daqui e deixar minha mãe com uma casa inteira nas costas pra lidar. Só preciso achar um jeito de ajudar sem que eu carregue ninguém, nem deixe minha saúde ou prazer de viver no balcão pra pagar essa conta. Não faço ideia de como fazer isso, mas eu confio que as respostas vem quando a gente precisa delas. Por enquanto vou viver o dia de hoje e agradecer pela noite de sono e pelo humor reconfigurado. E ler o livro novo que tá massa. E trabalhar um pouquinho. 

É, tá bom já. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Acordei um Grinch

 Olha lá, chegou o Natal. 

Eu não sei o que eu esperava que acontecesse no Natal. Talvez eu tivesse naquela esperança de ter um dia com aquela magiquinha infantil, a casa decorada, luzes piscando e uma vontade gostosa de comemorar. 

Eu acordei mau humorada hoje. Faz três noites que não durmo direito. Ou demoro pra pegar no sono ou acordo cedo demais ou fico acordando de madrugada... ou tudo isso junto. E juntando com a rotina desses dias que tem sido de dias completos, eu tô esculhambada. Enquanto eu escrevo pra tentar diluir esse veneno correndo aqui dentro, uma das minhas gatas quer comer e tá fazendo frescura porque os outros estão perto, querendo comer também. Todo mundo já comeu, mas estão cercando ela como se não comessem desde o Natal passado. Uma está de dieta e não pode comer mais do que a quantidade designada, aí o outro veio e começa a brigar com ela pra disputar. E a gata que ainda não comeu porque tá de frescura, fica subindo e descendo dessa mesa, lambendo minha mão, meu ombro, o teclado e nem olha pra comida. Mal escrevi um parágrafo e já interrompi mais de cinco vezes. Não ajuda muito eu estar irritada. Também já sentaram no mouse e quase fecharam esta janela. 

Tirando minha óbvia ressaca de sono, tô cumprindo meus objetivos. Tô trabalhando com leveza, tô fazendo meu quase melhor e fazendo tudo o que precisa. Mas o Natal em si... tá difícil de engolir.

Não decorei minha casa nem minimamente, nada. Comprei um presente que eu nem podia porque eu de alguma forma consegui convencer minha mãe de trocarmos presentes e comprei um pra ela porque eu tenho certeza de que ela comprou algo pra todo mundo menos pra ela. Não foi porque eu podia ou queria, porque o clima tava péssimo, mas numa tentativa de evitar uma cara de cu e um clima de manipulação emocional. Super massa.

Mas tá tudo meio virado mesmo, eu acho. Tenho vivido esses dias no meu mundinho sem acessar os mundos paralelos, mas de vez em quando o pára raio fica desavisado e acaba pegando alguma coisa. Eu preciso dormir, pelamordedeus. 

O lado positivo é que hoje é o último dos piores dias, a partir de amanhã as coisas começam a ficar menos corridas, aí quem sabe minha cabeça desliga e eu consigo dormir. Mas por via das dúvidas, além da tintura da noite vou fazer um chá de sossega leão e tentar a sorte. Eu só preciso dormir, daí aguento o babado. 

Me deseje sorte, e sono.

Até amanhã, quem sabe

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Pessoal demais pra ser publicado mas que eu publiquei mesmo assim

 Caraca, é chegar essa época em que a gente fica na correria verdadeira que me bate umas coisas. 

Ao mesmo tempo que eu fico grata por ter alguns clientes, ainda que muito menos do que nos anos anteriores, me dá três tipos de negócio ao ver como isso pega na dinâmica aqui de casa. Minha mãe fica mega nervosa, fala alto, dá uns surtos, fica mau humorada, dramática e reclamona. A ponto de não existir mais respostas de "sim" ou "não", é sempre um discurso que se segue após uma pergunta simples e repleta de suspiros. 

Minha irmã, por outro lado, acha que tudo vai dar errado. Ela aponta para todas as possíveis falhas que podem acontecer, e bate o pé como se aquilo estivesse prestes a acontecer. Coloca vários impedimentos de horários, de rotinas, de gerenciamento de espaço, além de não contribuir com nada. Ela nunca cuida de nenhum hóspede que vem - ela mal cuida dos bichos dela o ano todo, é verdade. Não ajuda, só reclama, põe defeito e reclama que a gente não tá fazendo as coisas que ela queria que a gente fizesse por ela. 

Eu já levei pra terapia várias vezes como isso me desce mal. Meu trabalho já esteve melhor, já consegui em algumas épocas pagar por várias contas da casa além das minhas. Mas nunca senti delas o sentimento de "pô, que legal, o negócio tá fluindo" ou "massa, o que a gente pode fazer pra melhorar". Foi sempre um fardo, um troço pesado, um favor que elas estavam fazendo pra mim, mesmo na época em que todo mundo recebia dinheiro pra isso. Hoje em dia nem eu ganho dinheiro, tudo o que eu ganho vai basicamente para pagar as contas. Eu sei que eu mesma já dancei essa música várias vezes, me sentindo completamente igual, mas eu consegui ficar consciente disso e tentar reverter. Afinal é o trabalho que eu já tenho, já existe, já sou conhecida e procurada por isso. Então quem sabe vale a pena investir um pouco mais nisso aí pra ver se ainda sai alguma coisa boa. 

Não sou contra ninguém ir buscar seus caminhos, mas me dói o fato de ninguém nunca ter cogitado esse trabalho como opção, sempre soou como um favor feito a mim, mesmo. E em outros momentos ouvi minha mãe falando pra gente pensar em algo para trabalhar juntas, e dai eu penso... mas que raios? Porque não isso? Porque não tentar fazer isso dar certo, assim de coração? Metade da porcaria do trabalho é brincar e ser feliz, caceta. Ninguém precisa relar numa planilha se não quiser. Eu mesma não faço uma planilha há anos. Nenhuma delas tem que dar aquela rebolada para conversar com tutores exigentes, chatos, as frescurinhas que sempre aparecem e que a gente tem que sorrir e acenar como em qualquer trabalho. E dentre as opções acredito mesmo que a nossa não é tão ruim assim, podia ser muito pior. Se eu fosse obrigada a passar meus dias num escritório com certeza eu viveria muito mais irritada com tudo. Tirando essa semana de Natal e Ano Novo, a gente faz nossos horários, temos tempo pra nós, não tem chefe, não tem várias coisas que o mercado de trabalho normal tem. 

E certo, eu passei um ano e meio sem divulgar esse trabalho, então o volume diminuiu drasticamente. Mas é algo que bem feito, pode sim dar dinheiro e ainda ser algo divertido e leve. Essa constante rejeição bate em mim as vezes e eu fico me sentindo uma bosta. Como se eu tivesse atrapalhando todo mundo, porque todo mundo quer só que o dinheiro venha enquanto segue jogando gardenscapes ou lendo mangá. Isso me irrita num tanto que não tá escrito. A sensação que eu não sou suficiente, competente ou agradável, independente do que eu faça. Isso me dá uma vontade do caralho de sair e me virar sozinha, mesmo sabendo que nesse momento isso não é uma opção e nesse momento eu dependo ainda delas, inclusive para trabalhar. 

Porque enquanto eu tô lá na rua, nas casas atendendo, alguém tem que ficar aqui recebendo os hóspedes que vão chegar, alguém tem que estar em casa no horário do remédio das crianças que estão aqui. Aí eu acabo fazendo das duas uma: ou eu assumo todas as tarefas possíveis porque tô puta mas tentando manter a pose, ou eu largo de propósito algumas tarefas e deixo elas bufando - enquanto eu tento também manter a pose. Nos dois cenários eu acabo drenada em algum ponto, durante esses dias ou quando eles passam. É por isso que eu queria acabar com o hotel e mudar de trabalho para algo que eu fizesse sem elas. 

Pra fazer o hotel oficialmente eu precisaria construir e até nisso a gente não concorda. Porque se for pra construir algo que os hóspedes não fiquem bem de verdade, eu não quero. Eu sei que sou meio megalomaníaca e queria um baita hotel com quartos amplos cheio de bagulhada e áreas de recreação perfeitas em que a manobra dos animais fosse mais fácil. Eu sei das minhas condições financeiras, mas eu também tô ligada na maldição do provisório. O provisório fica pra sempre, e aquele espaço sem atrativo nenhum acaba fazendo exatamente isso, não atraindo ninguém. 

Então aí fico nessa sinuca de bico, porque vale mesmo a pena pensar em economizar para construir algo massa se provavelmente a realidade desse hotel maravilhosos funcionando vai ser a mesma desse caos mal humorado que a gente já vive? Pra eu construir e ao mesmo tempo, conseguir pagar alguém... eu nunca consegui isso antes. Nunca consegui ganhar o suficiente para oferecer pra alguém um salário oficial que seja. Os salários distribuídos antes eram apenas as divisões dos ganhos. E aí eu mesma caio sozinha na armadilha do "eu não vou dar certo", de não ser suficiente, de não ser competente, etc etc. 

Mas o que eu tenho por enquanto é a opção de tentar manter a pose, sem fingir coisa nenhuma. Tentar de verdade levar esses dias mais leves e fazer o melhor que eu puder - talvez como uma última tentativa de pegar um ar antes de afundar esse trabalho para sempre, não sei. Mas o que eu tenho em mãos hoje é isso e eu vou agarrar com todas as minhas forças. Que Deus me ajude. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Bolas de neve no segundo dia do verão

 Olha, pra ser sincera tá dando tudo certo. Tá um caos aqui na cidade e de verdade já estaria mesmo se não fossem essas chuvas e o estrago que elas fizeram. Temporada, né? Enche de gente, as estradas ficam lotadas de gente apressada demais pra começar o sossego e que acabam desenrolando uma bola de neve de acidentes, carros parados e gente apressada inventando novos palavrões. 

Descobri um novo caminho para chegar no centro, então eu e Possante estamos indo até bem perto de onde Judas perdeu suas incansáveis botas já furadas, que é uma estrada muito bonita além de ser bem emocionante. Toda de barro com lugares bem estreitos e invariavelmente cheia de buracos. Ela passa por volta do morro, então é toda verde e tranquila, e eu fui curtindo aquela paz até que começaram a chegar uns apressadinhos querendo me podar - na estrada de terra, molhada e lisa e também esburacada. Pode ir, irmão. Eu não sou a pessoa mais lerda no volante, mas em uma estrada que eu não conheço e nessas condições, sem sinal de telefone pra pedir ajuda caso eu precise, não obrigada, eu vou devagar devagarinho. Possante já passou muitas aventuras nos últimos dias e o coitado ainda tá com a buzina fanha do mergulho do outro dia. Talvez eu devesse levar ele ao pediatra, mas Possante é um cabra forte, tem resistência e imunidade. Só Deus e eu sabemos o que ele já superou. Nem o mecânico ficou sabendo. 

Mas tá dando tudo certo, ontem foi bem corrido e quando chegou a noite, queria morrer dormindo, mas meu sono tinha outros planos e me deu uma insônia de presente. Acabei dormindo mesmo assim, umas duas horas depois, mas ainda sinto que eu venci essa. 

Daqui até o começo do ano vai ser assim, não sei o que eu vou conseguir fazer dos meus projetos pessoais, mas tá tudo bem. Meus últimos meses foram de especialização no Básico bem feito e é isso. As vezes nem tão bem feito e é isso também. Mas tô fazendo questão de tomar meu tempo pra cada coisa, me sentir ali ou aqui nesse momento, fazendo o que eu tô fazendo com quase tudo o que eu posso. Quase tudo, porque eu tenho que deixar uma sobra pro fim do dia. Acho que meus livros nunca duraram tanto. Faz dias que eu tô na mesma história e eu tô lendo uma sequência, então parece que eu tô num livro enorme. Nunca me intimidei com isso, mas é estranho estar num mesmo universo tanto tempo seguido. Isso não é bom nem é ruim, é só diferente. Meus dias estão mais longos e também mais curtos ao mesmo tempo, estar presente num dia totalmente preenchido, mais ou menos se ligando no horário mas também nem tanto, deve ser essa a razão. 

Por enquanto seguimos viva e confiante. E também estamos cansadas, mas vivas e confiantes. 

Me deseje sorte. 

Até amanhã, quem sabe.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

São Pedro no hospital psiquiátrico

 Ontem foi um dia bizarro aqui na minha cidade. Rolando o feed de notícias só se via água. Enxurrada correndo por dentro das casas, carros submersos, estradas alagadas e bloqueadas, teve até um incêndio gigantesco que fez os bombeiros tirarem todo mundo das casas da região por causa da fumaça tóxica. Abrigos improvisados, tratores resgatando pessoas ilhadas, um cenário de apocalipse de um filme meio tosco. 

Mas aqui pra mim, tenho certeza de que nos bastidores de tudo isso, tinha um São Pedro muito irritadinho quebrando copos pelas paredes do Céu, jogando tudo pelo chão como um astro de rock das antigas num quarto de hotel. Porque ali pelas tantas, a chuva parou do mesmo jeito que veio e o Sol apareceu como se só tivesse perdido o horário do ônibus para chegar no trabalho. Meu celular não despertou, ele disse. A gente sabe bem como a tecnologia nos deixa na mão na hora que a gente mais precisa. 

Hoje o dia está brilhando, as folhas estão verdes e felizes depois de tanta chuva. O pato foi embora junto com as garças, a procura de um novo toró para se esbaldar. Não julgo, o céu de uns é o inferno de outros. 

Então oficialmente começamos a temporada dos atendimentos de final de ano. Vai ser mais corrido que a minha rotina normal, mas também não vai ser nenhum descalabro. Talvez até dê pra eu continuar minha rotina de escrever e estudar diariamente, mas já deixei a disposição todas as colheres de chá para a ocasião. Vou usar disso como ensaio para ver se consigo trazer a leveza para esses dias mais pesados, ver se consigo manter o equilíbrio e a alegria quando sim, a população aqui de casa já está flertando com o modo surto. Bom, talvez nunca nem tenham saído desse modo. Tudo bem. 

Pequenos passos, pequenas metas, andar devagar e fazer uma tarefa por vez. De preferência seguir assim até que se faça tudo, mas se não fizer também, faço outro dia. Minha última meta desse ano é terminar o ano sem surtos e provavelmente essa é uma meta que vai se estender para todos os recomeços que eu passar, coincidindo com viradas de calendário ou não. É uma boa meta. 

Me deseje sorte.

Até amanhã, quem sabe.